Batendo a Cabeça
Eu já escrevi algumas crônicas sobre bloqueio criativo. A minha primeira, sobre “Nada”, foi uma espécie de exercício para ver se saía algo da minha cabeça praticamente travada. E bem, acabou saindo.
Nem todo bloqueio é de criatividade. Eu comento bastante sobre esse em especial porque gosto de escrever, mas podemos ter bloqueio de qualquer tipo. Podemos não conseguir conversar e nos relacionar com pessoas, podemos ter dificuldade em aprender uma matéria, ou podemos até não conseguir andar de bicicleta. O bloqueio é o que torna as coisas muito mais difíceis do que realmente são.
É interessante observar como reagimos diante dessas situações. Ou podemos tentar enfrentar e resolver o problema, ou simplesmente deixar para lá e ficar resmungando sobre como a vida é difícil. Talvez você não goste de admitir — e eu mesmo também não gosto — mas a maioria de nós acaba escolhendo a segunda opção.
E está tudo bem. É natural.
Quer coisa mais frustrante do que ficar tentando superar um problema que sequer sabemos como resolver?
Parece que nos colocamos na posição de Sísifo — aquele do mito —, que foi condenado a rolar uma pedra até o topo de uma montanha, só para ver ela rolar de volta até a base quando a tarefa já estava quase cumprida.
Todos já passamos por isso.
No meu caso: tocar um instrumento, me relacionar com pessoas, me exercitar. As falhas me faziam sentir que simplesmente não tinha o “dom” para essas coisas, mas esse é o maior engano que podemos cometer.
Apesar das dificuldades, nós não somos mortais condenados pelos deuses à incapacidade. A menos que tenhamos alguma deficiência física real — e mesmo pessoas com essas dificuldades, conseguem se superar — o maior problema é acreditar que apenas algumas pessoas habilidosas conseguem superar seus problemas. Pessoas que já nascem com uma inteligência acima da média, que têm um talento natural. Mas, apesar de essas pessoas terem uma facilidade, não é um dom exclusivo a capacidade de observar e persistir da forma correta.
Certamente você já ouviu esse conselho. Todos já ouvimos. É o conselho mais genérico do mundo: “Se você persistir, pode conseguir qualquer coisa.”
“Ora, se é assim? Por que não consigo entender essa matéria da faculdade? Por que começar uma rotina de exercícios é tão difícil?” Nós diríamos.
Bem, porque só persistir, por si só, é como tentar arrastar novamente a pedra para o topo da montanha. É insistir no erro e gastar energia à toa.
Persistir da forma correta não é simplesmente tentar novamente a mesma coisa. Ainda que a repetição seja necessária para aprender algumas coisas, se você já tentou repetir e não funcionou, talvez o que precisa fazer é mudar a forma de tentar. Tentar outro caminho, outro jeito, outro método, outro professor.
Um exemplo que serviu para mim foi o do exercício físico. Eu nunca gostei de academia. E esse é um aspecto da minha personalidade que eu não conseguia admitir, seja por teimosia ou por uma mentalidade idiota de que esse é o único jeito de cuidar da saúde. Definitivamente, academia não é o tipo de ambiente que me cativa. Tem muitas pessoas em um lugar só, música alta, horários restritos, e aquela sensação de julgamento por você estar ainda fora de forma.
Eu tentei começar uma rotina de academia diversas vezes. Mas sempre acabava faltando depois de alguns dias e, obviamente, perdia o ritmo, sem sentir aquela grande vontade de continuar.
Isso me deixava desanimado. Fazia eu me sentir um fracasso por não ter o mínimo de disciplina. No entanto, depois que mudei de emprego, consegui mudar também a perspectiva a respeito de exercícios físicos.
Eu consegui um horário melhor, e comecei a ir e voltar andando do meu novo trabalho. Eram duas caminhadas de quase 5 quilômetros por dia. Mesmo embaixo de sol ou chuva, eu ia, e sentia que gostava disso. Era um exercício básico que eu podia fazer na rua e que não chamava a atenção. E mesmo não tendo muito impacto, me ajudou a evoluir na perda de peso.
Depois de nove meses nessa rotina, eu consegui perder quase dez quilos.
Pode não parecer uma perda lá muito significativa, mas pense que eu estava estagnado. Preso no sedentarismo e falhando em todas as tentativas de engrenar na academia. O que eu precisava não era de números melhores, era de um exercício que gostasse de fazer todos os dias e desse algum resultado.
Surpreendentemente, depois desse tempo de caminhada, eu consegui começar a correr. Algo que era muito difícil quando ainda estava acima dos 130 kg. Então, uma mudança de caminho pode, inclusive, melhorar o ânimo para tentar avançar em algo que antes parecia impossível.
Pode parecer, às vezes, que estamos praticamente batendo a cabeça na parede para resolver um problema, mas não podemos esquecer que é possível achar — talvez não o jeito fácil — mas o jeito certo que serve para cada um de nós realizar o que queremos realizar.
Parabéns, meu querido. Um desabafo que pode ajudar os demais leitores... Texto ótimo!
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