Sozinhas no Celeiro - Capítulo 5
Um Sofá Para Duas Gems
"Diário de bordo 005"
"Nos dias que se seguiram ao oficial começo de amizade entre Lápis e eu, as coisas começaram a ficar mais curiosas por aqui. Podemos dizer que eu finalmente estava entendendo o que era dividir um celeiro com alguém e conviver com algo além de um gravador e da minha própria consciência confusa."
"Viver com Lápis é uma experiência e tanto e não posso negar que ela é uma companhia interessante para se aventurar nas descobertas da vida na terra. Minha colega (e agora amiga) é bastante quieta e raramente toma iniciativas, mas não deixa de mostrar entusiasmo quando algo chama a sua atenção. E isso é o que tornou tudo tão divertido no começo. Depois que jogamos video-game juntas e tivemos uma conversa normal sem medos ou cobranças, Lápis mostrou que não tem mais tanto medo de se abrir para tudo o que pode experimentar. Eu diria que ela quer e está tentando descobrir essas coisas, mas ainda precisa de apoio."
"Bem, eu ainda tenho muito o que aprender e descobrir também, mas acho que posso ajudar Lápis a entrar nesse mundo de descobertas. E enquanto fazia isso e apresentava todas as coisas que descobri no tempo que morei sozinha aqui, pude ver que ela foi se sentindo cada vez mais à vontade para se tornar uma terráquea."
"Da forma como as coisas começaram entre nós, me causa um certo estranhamento ver ela agora esboçando um sorriso tímido sempre que lhe apresento algo novo. Na verdade, uma vez ou outra eu ainda sinto aquele formigamento na barriga quando ela está por perto. Mas creio que isso vai passar. Nós duas estamos nos conhecendo e quase não tem mais aquele clima de culpa sobre as coisas que passamos. Claro, ainda tem esse fascínio estranho que ela me causa, o que creio que vai passar também. Afinal, ela não é mais uma gem estranha para mim."
"Por hoje é isso."
"Peridot desliga."
Ah, caramba (suspiro), acho que passei tanto tempo morando sozinha que acabei me acostumando com ter todas as coisas do celeiro só pra mim. Não estou dizendo que a presença da Lápis me incomoda, mas não consigo deixar de sentir um certo desconforto por não poder mais dormir quando quero ou decidir quando vamos usar a TV para jogar video-game. Dividir as coisas pode ser bastante complicado e admito que tenho dúvidas se devo ou não falar sobre isso.
Quando Lápis escolheu realmente morar aqui ao invés de voltar para o topo do silo, a primeira coisa que fiz foi mostrar a ela todas as atividades humanas que eu havia aprendido e gostado. Levei-a para olhar as árvores e os insetos que andavam pelo chão, depois mostrei alguns livros e papéis onde desenhei. Basicamente, eu estava ansiosa para dividir essas coisas, mas Lápis ainda parecia cansada e distraída para assimilar tudo. Tanto que a primeira coisa a qual ela se interessou depois do jogo de video-game foi dormir.
Eu a chamei para assistir a série "acampamento dos corações amorosos" e comentei que muitas vezes eu acabava dormindo no meio dos episódios. Na mesma hora ela me perguntou o que era "dormir" e, depois que expliquei superficialmente, ela apenas aconchegou a cabeça no braço do sofá, as pernas no meu colo e adormeceu profundamente.
Ao mesmo tempo eu me senti surpresa e com um certo orgulho. Quero dizer, eu sabia que Lápis ia gostar de dormir, ela aparentava estar sempre exausta como se carregar o próprio corpo fosse um peso exigente demais, mas não esperava que fosse conseguir tão facilmente. Na primeira vez que eu tentei dormir, me lembro de ter levado algumas horas até conseguir relaxar o suficiente para apagar. Já Lápis, em menos de 30 segundos estava tão adormecida que nem notou quando eu levantei as pernas dela para sair do sofá.
Foi só depois de quase um dia inteiro, e não estou exagerando, ela dormiu por mais de 20 horas, que Lápis realmente começou a desbravar as coisas do celeiro. Eu estava com medo me perguntando se ela acabaria dormindo por alguns dias, mas essa preocupação se dissipou quando aquela gem escabelada e com um sorriso de satisfação apareceu na minha frente. Lápis, agora com um semblante mais leve e tranquilo, me agradeceu por ter lhe dado essa ideia e comentou por cima sobre um sonho que teve.
Eu estava admirada de ver a energia em volta dela se tornar mais tranquila, quase preguiçosa. Afinal, para quem estava tão tensa, esse era um progresso muito bom. No entanto, não pude deixar de ficar chateada por ainda não estarmos nos entrosando como deveríamos. Imagine, agora nós estávamos realmente dividindo o mesmo espaço, mas ainda não parecia que estávamos "dividindo as mesmas experiências".
Lápis, durante os primeiros dias, basicamente se ateve aos seus dois passatempos preferidos. Dormir e assistir TV. Antes de tudo, já deixo claro que não vejo nenhum problema nisso. São sem dúvida dois dos melhores passa-tempos da Terra. Mas as coisas ficam complicadas quando só temos um sofá e uma TV no celeiro. Depois de termos chegado quase no fim do jogo de batalhas espaciais, eu queria muito jogar video-game de novo e até testar os outros jogos.
Sem contar que, depois que se pega o costume de dormir, parece que nós Gems ficamos com abstinência se não dormimos pelo menos uma vez no dia. Então eu também queria muito ter uma longa noite de sono. Mas como eu faria isso se o sofá e a TV estavam sempre ocupados?
Bem, acabou que depois de um tempo me sentindo tímida demais para dizer algo e de ser vencida pela embriaguez do sono, eu fui falar à Lápis que queria aproveitar a TV e o sofá também. Naturalmente eu não sabia o que esperar, então fiquei surpresa quando ela demonstrou se preocupar com a minha expressão de cansaço e me perguntou o porquê de não ter dito antes. Em seguida ela apenas deslizou do sofá para se sentar no chão e continuou assistindo TV enquanto eu me joguei de cara numa almofada e me cobri com um cobertor.
Começar a dividir o sofá era praticamente uma síntese das dificuldades que vinham com a ideia de ter uma colega de celeiro. Eu consegui combinar com Lápis que nós revesaríamos o sofá para dormir e também a TV para eu jogar e ela assistir série ou novela. O que para mim já era um bom passo para a nossa convivência. Mas ainda precisava me acostumar com essa pequena perda de domínio sobre as minhas... digo, nossas coisas. Agora eu tenho que esperar ela terminar de usar para que eu possa usar. Pensando bem, acho que eu esperava que fossemos fazer todas essas coisas juntas ao invés de termos quase vidas paralelas sob no mesmo teto.
***
Completando uma semana da nossa convivência, eu já estava evitando pensar em como abordar Lápis. Afinal, nós estávamos numa situação em que sempre que uma acordava para fazer suas coisas, a outra corria para dormir no sofá vago, e quando isso não acontecia, acabávamos apenas nos dedicando ás nossas próprias coisas evitando conversar.
Sendo sincera, eu me sentia um pouco cansada e não gostava da ideia de insistir muito para que Lápis interagisse comigo. Mesmo que eu quisesse conversar com ela e cumprir minha promessa de ajudar a desbravar a vida terráquea, sabia que tinha que respeitar o espaço dela e deixá-la escolher o caminho para esse desbravamento. Que, por enquanto, estava sendo a TV.
Enquanto eu dormia no sofá, podia perceber que ela apenas ficava assistindo um episódio atrás do outro de qualquer série que passasse. Isso no começo me parecia estranho, mas depois reparei que era como se ela estivesse aprendendo os trejeitos e os modos de agir e falar dos personagens. Tanto que nos momentos que nos cumprimentávamos, ela quase que automaticamente imitava algum gesto com as mãos ou dizia uma palavra diferente. E quando eu acordava, ela continuava assistindo por mais algumas horas antes de dormir. Esse estava sendo o jeito dela de descobrir o mundo dos humanos.
Normalmente, eu apenas observava ela de relance uma vez ou outra enquanto fazia as minhas coisas. Mas, naquele dia em especial, Lápis me surpreendeu ao não querer ficar no sofá ou dormir enquanto estou acordada. Eu estava sentada em posição de lótus num canto do celeiro desenhando algumas figuras que encontrava em um livro quando vi minha colega se levantando e indo olhar o céu através do buraco enorme que havia na parede.
Ela estava quieta e parecia estranha com o cabelo desgrenhado e a saia amassada, ao mesmo tempo que demonstrava uma tranquilidade bem mais natural e saudável. Sem dúvida eram os efeitos de tantos dias alternando entre o chão e o sofá."É bom ver que ela está melhorando" pensei comigo mesma. Claro que não posso dizer isso com certeza, mas o olhar dela já demonstrava estar muito mais leve do que antes. Certamente devia estar se sentindo menos exausta por tudo o que passou.
De repente, depois de ter passado uns minutos observando o movimento suave da grama sob a brisa do campo, Lápis voltou seu olhar para mim, me fazendo parar de fitá-la quase que por instinto. Não sei porque eu não gostaria que ela me visse a encarando, mas aquele já comum formigamento na barriga voltou a me dominar, me deixando assustada com o que ela pensaria. Como se lesse a minha mente, Lápis veio devagar na minha direção e, num primeiro momento, apenas olhou o que eu estava fazendo, depois comentou:
- você desenha muito bem, sabia, Peridot?
Confesso que ela me pegou de surpresa na hora, não sabia o que dizer. Finalmente ela estava prestando atenção em mim.
- Ah... É... Valeu - respondi, um pouco tímida - eu tenho praticado muito.
- estou vendo - comentou sorrindo enquanto olhava os meus desenhos espalhados no chão - Ah, o que é esse aqui?
- o que é o que? - perguntei de volta antes de olhar e perceber que ela havia pego o desenho que eu havia feito dela vários dias antes. Quando percebi, senti instantaneamente minhas bochechas queimarem. "Por que ela teve que pegar justo aquele desenho?"
- Essa sou eu? - perguntou ela
- é... - murmurei, hesitante. "Sabia que devia ter jogado esse desenho fora", pensei.
- Peridot?-
- É... Sim - respondi - foi um dos primeiros que eu fiz. Não é muito bem feito, eu sei. Me desculpa.
- Como? Porque está se desculpando? - perguntou ela, incrédula - ficou muito bom... Acho que ninguém me desenhou antes.
Foi então que eu fiquei admirada com a reação de Lápis. Ela estava com um olhar de fascinação sobre o meu desenho. A forma com eu desenhei ela no topo do silo olhando para o céu parecia ter tocado ela.
- se importa se eu guardar esse desenho?- indagou ela - Ele me dá uns sentimentos bons.
- Claro... sim - Respondi - Pode ficar.
Ao dar o desenho pra ela, eu fiquei me perguntando que tipo de sentimento o desenho teria causado nela. Já que ela havia ficado todo aquele tempo no topo do silo praticamente por medo e insegurança. Definitivamente eu não queria trazer à tona esse tipo de sentimento a ela, nem também trazer de volta as lembranças traumáticas. Porém, acabou me faltando coragem para verbalizar a pergunta. Era possível que a pergunta fosse ainda mais responsável que o desenho em despertar sentimentos ruins. Decidi apenas espantar esses pensamentos por enquanto.
Em seguida, Lápis perguntou se eu poderia ajudar ela a desenhar também. Aquela pergunta instantaneamente despertou uma súbita animação em mim, o que me fez pensar no que poderia ser mais interessante e divertido para minha colega. "Ela é uma terraformadora, sem dúvida iria gostar de poder criar paisagens no papel". Isso me deu a ideia de levá-la para o lado de fora e buscar inspiração na natureza da terra. Eu apenas a convidei e com gizes de cera e folhas brancas em mãos nós fomos nos sentar na grama com as costas encostadas na madeira do celeiro.
O sol estava se pondo e a cor do céu estava simplesmente incrível. Uma mistura de rosa avermelhado e amarelo havia tomado a vista por de trás das arvores ao mesmo tempo que um ventinho suave remexia as folhas e causava uma sensação quase de carícia em nossos rostos. Certamente era um clima perfeito para desenhar... e para dormir. Voltando minha vista para minha colega, era notável que ela estava com sono e queria voltar para o seu sofá e dormir por mais umas 20 horas, mas ainda assim ela se manteve ali para tentar pelo menos fazer um primeiro desenho.
Ela me perguntou o que nós desenharíamos e eu apenas sugeri que ela escolhesse o que achasse mais bonito, depois também mostrei como podíamos usar o giz de cera para fazermos misturas com as cores, deixando a imagem mais "chamativa". Nós passamos cerca de meia hora ali sentadas e desenhando. Nenhuma de nós quis mostrar como estava ficando enquanto rabiscava o papel, acho que é normal dos artistas novatos terem um considerável orgulho para não serem julgados antes de suas obras estarem prontas. No final, quando ficou pronto, eu fiquei impressionada ao ver que Lápis não havia desenhado o silo, uma árvore ou qualquer coisa em volta do celeiro, ela havia feito uma pintura linda do céu crepuscular.
Eu mesma não tinha ideia de como ela havia feito aquilo com tanta facilidade, ela simplesmente pegou umas três cores de giz e fez um degradê perfeito no céu acima do sol poente. Era tudo tão delicado que dava medo de tocar no desenho e estragar a pintura. E aquele era o primeiro desenho dela, dava para perceber que estava carregado com os sentimentos de Lápis. A forma como ela se esforçou em fazer a posição do sol, a mistura das cores em pontilhar as primeiras estrelas que iam surgindo, incluindo a... da galáxia de Homeworld. Perceber novamente aquela estrela brilhante que já foi nossa casa me trouxe alguns pensamentos e lembranças de volta.
- Você realmente sente falta de casa, não é? - Perguntei.
- Sinto um pouco, mas não foi isso que me inspirou a desenhar o céu.
- Então, o que foi?
- É meio complicado de explicar - Respondeu Lápis, dando um longo bocejo antes de continuar - Eu acho que vou tirar uma soneca. Quando acordar, quero terminar com você o nosso jogo de batalhas espaciais.
Ela terminou com um sorriso leve, se levantou e voltou para dentro do celeiro. Eu continuei sentada ali por uns minutos enquanto me perguntava sobre esse interesse da Lápis no céu. Depois me levantei e fui até o baú para procurar alguma coisa para ler, mas antes disso, parei um pouco para olhar Lápis deitada aconchegadamente no sofá.
Aquela visão não pode deixar de me tirar um sorriso sincero do rosto. Diante de mim, Lápis parecia tão frágil e delicada que era difícil de acreditar que pôde passar por tanta coisa. Ou mesmo acreditar que alguém como ela merecia ter sofrido tanto. Lápis era uma gem inocente que foi traída, explorada por todos e que agora só queria descansar e se sentir um pouco livre para fazer o que quisesse, mesmo que fosse apenas ficar sentada no topo do silo ou no sofá assistindo TV. E sobre o nosso entrosamento, no fim bastou que eu esperasse que a própria Lápis tivesse interesse em vir até mim. Afinal, é só isso que ela quer: Ser livre para escolher.
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