Hector e Heitor - 4

 — Pelo amor de Deus!

— O que foi?

— Esse livro é uma droga!

Heitor fita o livro que Hector está lendo.

— Não é aquele da prateleira de promoção?

— Esse mesmo.

— Eu avisei que não deveria estar tão barato atoa.

— Olha, eu entendo que esse e os outros que eu comprei não são lá essas coisas, mas esse aqui ganha. Eu nunca passei tanta raiva lendo.

— E por quê? — Heitor estava se divertindo com a irritação do irmão. — Por acaso o protagonista é chato que nem você?

— Antes fosse. A protagonista é insuportável. É uma adolescente mimada, riquinha metida a trevosa e apaixonada por um Zé Qualquer surfista good vibes.

— Ok, a descrição foi bem precisa. Na verdade, acho que você já comentou sobre esse livro.

— É, essa é a segunda vez que estou tentando ler.

— Hector... você por acaso é masoquista? Se não gosta desse livro, por que insiste nessa coisa?

— Você sabe que livros ruins ajudam a escrever melhor. Mas, honestamente, estou começando a achar que não vale a pena.

— Joga essa porcaria fora. Você comprou um monte de livros novos. Dá uma olhada neles.

— É, vou fazer isso. — Hector joga o livro de lado e se levanta. — Quero dar uma olhada naquele do Fernando Pessoa.

— Hector?

— O quê?

— Como é o nome da protagonista?

— É um nome esquisito. Cyd Charisse, acho.

— Tudo bem, obrigado.

Hector se volta para Heitor.

— Por que você quer saber?

— Por nada, não.

— Heitor, você não...

— Nossa, esse lugar é criminosamente cafona. Onde que eu tô? – Uma garota muito alta, branquela, de cabelo preto liso e usando jaqueta, minissaia e meia calça arrastão apareceu na porta da sala.

O que tem eu? — Heitor perguntou, risonho.

— Você não fez isso. — Hector pressionou a raiz do nariz, tentando juntar paciência.

— Ei, vocês dois — A estranha garota se aproximou. — Vocês viram um garoto baixinho, queimado de sol e com uma mecha de cabelo platinada? Ele é tipo muuuito gato, e é meu namorado e...

— Santo Freud! — Hector resmungou, irritado.

— Ah, mano, eu só fiquei curioso pra conhecer ela. — Heitor brincou. — Ela parece ser boa em te irritar.

— De todas as criaturas que você poderia imaginar, por que tinha que ser essa? — Hector apontou para a garota, que imediatamente pôs as mãos na cintura e mostrou uma expressão emburrada.

— Quem você está chamando de criatura, seu esquisito? Acha que só porque é bem arrumadinho e sabe citar o pai da psicanálise é melhor do que eu? — “Ele até que é bonito, mas essa atitude e o cabelo lambido me fazem ficar zero atraída. O meu namorado é tão mais simples e consegue ser...”

— Que saco! — Hector jogou os braços para cima e foi em direção ao outro cômodo. — Tira essa garota daqui, Heitor! Ou eu vou te enfiar em um daqueles documentários de história que você odeia.

— Fica tranquilo. Depois que conhecer ela eu tiro. Conhecimento é sempre útil.


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