O Amor É Cego
Quando eu era mais novo, devo ter assistido o filme "O Amor é Cego" pelo menos umas cinco vezes. É uma história divertida, engraçada e com uma mensagem positiva, mas que eu definitivamente não tinha prestado de fato atenção.
Claro, quando somos jovens demais, e eu me lembro de ter visto o filme pela primeira vez quando era criança, às vezes não conseguimos entender o texto e o subtexto de uma história, mesmo que queira, afinal ainda não temos bagagem o suficiente para isso. Mas não que esse detalhe tenha prejudicado o meu entendimento da mensagem principal do filme, a questão é que, ao reassisti-lo nesse final de semana, eu absorvi algumas coisas que não tinha conseguido perceber das outras vezes, e que com certeza valem um comentário aqui.
O filme, acima de tudo, é sobre aquela lição muito básica, e em certo ponto, até bobinha, de que não se deve julgar um livro pela capa. Uma coisa que todo mundo aparentemente sabe, mas que às vezes é preciso relembrar para ter certeza de que se tem consciência disso no momento de escolher uma pessoa para se relacionar.
O protagonista, um homem chamado Hal e interpretado pelo brilhante Jack Black (atual Steve do Minecraft), é alguém que não aprendeu essa lição. Na verdade, no início do filme, nós descobrimos que o pai dele o havia ensinado a valorizar muito mais a aparência do que qualquer outra característica que uma mulher pode oferecer, e isso, como se pode imaginar, o tornou um homem bastante frustrado no campo do amor.
Ele não consegue entender porque seria um problema ter um padrão de exigência alto para se envolver com mulheres, e esse detalhe quase nos faz enxergá-lo como um grande babaca. No entanto, ao esbarrar com uma espécie de guru de vida (não confundir com um coach), Hal passa a ter o poder de ver a beleza interior das pessoas, e mesmo sem saber, começa a ver essa beleza refletida como se fosse a aparência física dessas pessoas.
A partir daí, Hal é posto a prova já que ninguém mais consegue ver a beleza que ele percebe nas garotas com quem se envolve, e ele fica sem compreender a situação até perder esse poder, que é o momento em que ele tem que tomar a decisão de voltar a julgar as mulheres pela aparência ou absorver a lição de que deve olhar para além disso.
E vale pontuar a participação do melhor amigo de Hal, interpretado por Jason Alexander (o qual me parece ser comum interpretar homens babacas, mas digo sem julgar o ator por isso), que basicamente sabota ele fazendo-o perder a capacidade de ver a "beleza interior". O que, em um primeiro momento, nos faz pensar que ele é um amigo ruim para Hal, porém, embora ele seja de fato um amigo ruim, ele nada mais é que uma versão levemente mais superficial do protagonista, e reflete a atitude que o próprio Hal provavelmente teria se estivesse em seu lugar.
Basicamente, essa história é uma jornada de amadurecimento, e o personagem realmente sofre ao ter medo de não amar mais a mulher pela qual se apaixonou por não conseguir a ver como atraente e bonita. Mas, a grande surpresa é que, quando ele a vê de verdade pela primeira vez, ele acha ela bonita, mesmo com ela não sendo do padrão de beleza que ele sempre quis. E essa é com certeza a maior lição desse filme.
Quando falamos sobre relacionamentos, podemos cometer dois grandes enganos. O primeiro é justamente o que o filme ataca, que é não dar nem mesmo uma chance de conhecer uma pessoa apenas por ela não representar um padrão de beleza, e o segundo é que estamos proibidos de ter alguma preferência.
É claro, todos nós estamos sendo bombardeados o tempo todo por formas de visão de beleza completamente fora da realidade, e é óbvio que devemos ao máximo nos afastar disso, mas é um engano pensar que se deve envolver com pessoas com as quais você não tem atração física. Muito pelo contrário, já que um envolvimento romântico tem a ver com se apaixonar por todas as características de uma pessoa, mesmo as que não agradem em um primeiro momento.
Mesmo fora dos padrões de beleza, você pode ver alguém como atraente ainda que a maioria não veja. Afinal, esse é um detalhe subjetivo que envolve uma admiração pessoal, não uma aprovação social. No final do filme, Hal não escolheu ficar com a mulher por quem ele se apaixonou apesar de ela ser feia, ele escolheu ficar com ela porque a achou bonita exatamente do jeito que ela era de verdade, é isso que devemos aprender e absorver para nós mesmos.
A beleza importa. Não da forma como somos "socialmente ensinados", mas sob a nossa perspectiva e de uma forma realista, ela importa. Se trata de uma questão de equilíbrio, e de não se recusar a ver o que há de apaixonante em algo só por não ser exatamente como queremos.
Comentários
Postar um comentário