O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 1

 "E mesmo assim, ainda que finja estar bem, eu sei que no final estou só."

 O dia estava acabando, mas, para Hikigaya Hachiman, isso não significava um alívio, apenas o fim de mais uma parte de um ciclo interminável e previsível. Ele estava sentado em seu lugar de sempre no Clube de Serviço Voluntário, observando as últimas luzes do sol filtrarem-se pelas persianas da janela. A luz dourada dava à sala um ar quase místico, mas ele não tinha tempo para apreciar aquilo. Afinal, ele era realista, e coisas bonitas eram apenas distrações para quem ainda acreditava em esperança.

 Yukino Yukinoshita, como de costume, estava folheando um livro com a postura impecável de uma rainha. Ela não dizia nada, mas a presença dela preenchia a sala com uma gravidade silenciosa. Já Yui Yuigahama, a personificação de animação e energia que era, estava rabiscando algo em seu caderno com um sorriso despreocupado. Hachiman não sabia o que era mais irritante: O som do lápis dela batendo contra o papel ou o fato de que ela parecia sempre tão estupidamente feliz com tudo. Ele suspirou, apoiando o queixo na mão.

— Hikki, você está tão quieto hoje. Aconteceu alguma coisa? — Perguntou Yui, inclinando-se para frente, tentando encontrar seus olhos.

— Não aconteceu nada. — Ele tentou buscar algo para olhar na sala, para evitar de encarar Yui.

— Nada? Tem certeza? — Ela demonstrou um toque de preocupação em sua voz.

— Sim, tenho, porque é exatamente isso que acontece todos os dias: Nada. — Respondeu ele, com seu tom carregado de sarcasmo. 

— Ah, Hikki, não precisa falar assim. — Yui se voltou para seu caderno, fazendo beicinho.

— Escute, se você acha que o tímido zumbido de uma mosca na sala, ou o som do vento contra a janela, possa ser "alguma coisa", então talvez eu esteja enganado.

Yukino ergueu os olhos do livro, lançando-lhe um olhar gelado.

— Se sua intenção era filosofar sobre a monotonia da vida, Hikigaya-kun, você falhou completamente. Se quer reclamar, pelo menos seja original.

 Ele não respondeu. Não valia a pena. Yukino sempre tinha a última palavra, e, para ser honesto, ele não tinha energia para discutir qualquer coisa hoje. De qualquer forma, ela estava certa. Reclamar não mudava nada. E, ainda assim, ele reclamava.

Ainda assim... As coisas não mudam.

 A rotina continuava, e Hachiman continuava com ela, sem perspectivas, sem paixões, apenas existindo, como ele já esperava.

 Não havia nada para esperar do ensino médio. 

 Amizades? Socializar? Trocar experiências? Bobagem. Quem iria se lembrar dessas coisas quando já fosse adulto e estivesse mergulhado em uma rotina de trabalho e responsabilidades reais?

A juventude? Apenas um tempo em que você é obrigado a frequentar ambientes em que vai ser julgado  por tudo, menos por quem é de verdade.

O amor? Uma ilusão infantil, inventada para vender chocolates no Dia dos Namorados. 

 Quem finge amar quando é adolescente só quer acreditar que tem algo profundo na vida quando, na verdade, esse algo é tão raso quanto um pires e tão vazio quanto o vácuo do espaço. Apenas conveniência e nada a mais.

 Por isso Hachiman preferia se manter distante, isolado. Era mais seguro assim.

 Quando o relógio marcou o fim do expediente, Yukino fechou seu livro com um leve estalo e se levantou.

— Isso conclui nossas "obrigações" por hoje. Yuigahama-san, Hikigaya-kun, tentem não desperdiçar suas vidas antes de amanhã.

— Ei, Yukinon, isso foi meio rude! — Yui protestou, mas seu tom era mais de brincadeira do que de indiginação.

— Prefiro chamar de realismo — Respondeu Yukino, saindo da sala com sua postura impecável.

Hachiman suspirou novamente e se levantou.

— Bem, vou indo. Boa sorte com... O que quer que você esteja fazendo, Yuigahama. — Ele se virou e foi em direção a porta.

—Hikki, espera! — Yui correu até ele, segurando sua manga por um instante. Ele parou, olhando para ela com uma sobrancelha arqueada. — Você parece meio triste hoje. Se quiser conversar, sabe que pode falar comigo, né?

 Ele hesitou ao ver o sorriso amigável e esperançoso de Yui. Parte dele queria dizer alguma coisa. Mas que diferença faria? Em vez disso, ele apenas de um leve aceno e saiu, deixando Yui para trás, com um sorriso meio melancólico no rosto.

 Enquanto caminhava para casa, Hachiman pensou no gesto de Yui. "Você parece triste hoje... Se quiser conversar..." Ele sabia que não era apenas hoje. Era todos os dias. Era assim que ele se sentia, preso entre o conformismo e o desejo por algo mais. E mesmo Yuigahama não poderia ajudá-lo. Talvez ninguém pudesse. Era mais fácil ignorar... Fingir que esse sentimento não existia.

Hachiman olhou para o céu. A noite já havia caído, e a cidade estava envolta em um brilho suave de luzes artificiais. Ele enfiou as mãos nos bolsos e continuou andando, sem imaginar que o que estava por vir mudaria completamente sua perspectiva sobre tudo aquilo que ele acreditava ser a verdade absoluta sobre tudo o que vivia.


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