O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 10
O dia amanheceu tranquilo, com o sol surgindo devagar no horizonte. Hikigaya Hachiman abriu os olhos, sentindo algo que não costumava sentir logo pela manhã: Leveza. Ele se levantou devagar, aproveitando o silêncio de sua casa. Era um dia comum, mas, ao mesmo tempo, havia algo diferente no ar. O som abafado do trânsito matinal e o canto distante de alguns pássaros criavam uma atmosfera quase relaxante.
Enquanto tomava seu café, ele observava a luz suave do sol atravessar a janela da cozinha. Komachi ainda dormia, e o silêncio era um contraste bem-vindo com os últimos dias. Pela primeira vez, ele não estava fugindo de seus pensamentos. "Talvez seja isso que as pessoas chamam de paz."
Quando chegou à escola, percebeu que tudo parecia ter voltado ao normal. As garotas que antes o cercavam de forma exagerada apenas o cumprimentavam de maneira casual. O corredor estava movimentado como sempre, mas sem a tensão dos olhares prolongados ou declarações abruptas. Ele suspirou de alívio, mas também sentiu uma pequena pontada de algo que não conseguiu identificar. "Talvez eu tenha me acostumado com a atenção."
No entanto, algo pequeno havia mudado. Ele notava agora os sorrisos sutis que recebia, os pequenos acenos de cabeça, como se o ambiente ao seu redor fosse um pouco mais caloroso e receptivo. E ele, surpreendentemente, não se sentia desconfortável com isso.
Durante o intervalo, Shizuka Hiratsuka, a professora, o chamou para uma conversa em sua sala. Ele entrou, sentando-se na cadeira de sempre, enquanto ela o observava com curiosidade.
— Hikigaya, você parece diferente hoje. Alguma coisa aconteceu? — Perguntou, apoiando o queixo na mão.
Ele deu de ombros, um leve sorriso no rosto.
— Talvez eu tenha percebido algumas coisas. Nada revolucionário. Apenas... Coisas pequenas.
Ela arqueou uma sobrancelha, intrigada.
— E essas "coisas pequenas" tem algo a ver com as confusões recentes? Ou com as garotas que pareciam não te deixar em paz?
Hachiman hesitou por um momento antes de responder, sua voz mais suave do que o habitual.
— Talvez. Acho que percebi que, mesmo sendo eu, existem pessoas que se importam. Isso foi... Inesperado.
Shizuka sorriu, inclinando-se para frente.
— Bem, isso é um progresso. Tão diferente do que ouvi de você na primeira vez que te chamei nesta sala. — Ela deu um suspiro que parecia de alívio. — Mas não se esqueça, Hikigaya: o mundo não vai se moldar a você. Cabe a você encontrar seu lugar nele.
Ele assentiu, suas palavras ressoando em sua mente enquanto ele saía da sala. Pela primeira vez, ele sentiu que aquele conselho fazia sentido.
Mais tarde, no corredor, ele cruzou com Iroha Isshiki, que estava ajustando sua mochila com o ar despreocupado de sempre.
— Oh, senpai! Que surpresa te ver por aqui. — Ela disse, com seu sorriso habitual.
— Não é como se eu estivesse me escondendo. Apenas seguindo a rotina. — Ele respondeu, mas sem seu sarcasmo usual.
Iroha piscou algumas vezes, notando a diferença no tom dele.
— Hum, você está diferente hoje. Não sei se gosto disso ou se prefiro o senpai reclamão de sempre. Mas, de qualquer forma, acho que está melhor assim.
Ele sorriu levemente, balançando a cabeça enquanto ela se afastava, ainda sem perder o toque brincalhão que a caracterizava.
Pouco depois, ele encontrou Saki Kawasaki na biblioteca. Ela estava organizando alguns livros e o viu se aproximar.
— Bom dia, Hikigaya-kun. — Cumprimentou, cruzando os braços, mas sem seu tom hostil habitual. — O que foi? Veio me pedir algo?
— Não, só achei curioso te encontrar aqui. Parece um bom lugar para pensar. — Ele respondeu, olhando ao redor.
Saki deu um leve sorriso, quase imperceptível.
— Bom, se você não está aqui para atrapalhar, pode ficar. Só não faça bagunça.
Ele assentiu, pegando um livro aleatório e se sentando próximo. A tranquilidade da biblioteca o fez refletir novamente sobre como as pessoas ao seu redor realmente se importavam, mesmo que não fosse óbvio. Por um momento, ele se perguntou como seria se conseguisse retribuir esse cuidado.
O dia passou rápido, e logo ele estava indo para o clube de serviços. Ao abrir a porta, foi recebido pelos sorrisos calorosos de Yui e Yukino. A sala parecia mais acolhedora do que nunca, e ele sentiu um calor inesperado no peito.
— Hikigaya-kun! Finalmente! Estávamos esperando você. — Disse Yui, animada. Surpreendendo Hachiman por não usar o tradicional apelido que o incomodava.
— Você está atrasado, Hikigaya-kun. Espero que tenha uma boa justificativa. — Yukino comentou, mas seu tom era mais gentil do que o habitual.
Ele sorriu, fechando a porta atrás de si.
— Apenas aproveitei o dia. Acho que precisava disso.
Yukino sorriu.
— Fico feliz que tenha finalmente seguido um conselho meu. — Ela disse.
— Estou me acostumando a começar a ouvir as pessoas. — Hachiman comentou ao se sentar em seu lugar habitual.
— Hikigaya-kun. — Yui se aproximou, parecendo um pouco nervosa.
— O que houve, Yuigahama? — Ele levantou uma sobrancelha, mas com um sorriso leve. — É tão estranho te ouvir me chamando de outra coisa que não "Hikki".
— Então, eu... Estava pensando sobre isso. — Yui disse, fazendo Hachiman se sentir um pouco aflito. Será que ainda haveria uma confissão de amor hoje? — Desculpe sempre chamar você assim. Eu sei que você não gosta muito.
— Acerta um pouco o meu ego. — Hachiman desviou o olhar. — Mas acho que não é nada demais.
— Bem, eu queria te pedir para te chamar pelo seu primeiro nome. — Ela se inclinou, exageradamente educada. — Ou que tal um novo apelido? Estive pensando em "Hachi", o que acha?
— O que!? — Hachiman ficou surpreso. — Claro que não! Esse é ainda mais estranho que o outro.
— Eu gostei. — Yukino disse naturalmente. — Combina com você, Hachi-kun.
— Então está decidido. — Yui se ergueu novamente, rindo e comemorando como uma criança. — Bem vindo de volta ao clube, "Hachi"!
— Ei, não decidam isso sem me consultar! — Hachiman se fez de irritado, mas não estava de verdade. Todos acabaram rindo um pouco no final.
Os três começaram a discutir tarefas triviais, mas Hachiman se pegou observando as duas com mais atenção. Havia algo em seus gestos, em suas palavras, que ele finalmente começava a entender. Ele percebia o cuidado de Yui em tentar tornar o ambiente mais leve e a dedicação de Yukino em manter as coisas organizadas. Pela primeira vez, ele sentiu que estava exatamente onde deveria estar.
Enquanto elas conversavam, ele pensou consigo mesmo: "Quem eu escolherei? Ainda não sei. Mas talvez isso não importe agora. O importante é que, finalmente, eu me sinto... acolhido."
Com esse pensamento, ele sorriu de leve, pronto para encarar o que o futuro reservava. O calor da sala parecia mais intenso, e, por um instante, ele achou que o mundo talvez não fosse tão complicado assim.
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