O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 2
Hikigaya Hachiman estalou a porta de casa com um empurrão preguiçoso. O som familiar ecoou pelo pequeno hall de entrada, mas nenhuma voz o recebeu. Komachi, sua irrequieta irmã mais nova, geralmente era a primeira a encher a casa com sua energia caótica. Mas hoje, havia apenas silêncio. Hachiman tirou os sapatos e os colocou no canto, olhando para o corredor vazio com um suspiro.
— Komachi? — Chamou, sem muita esperança de resposta.
— Estou no quarto, oni-chan! — A voz dela veio distante, abafada pelas paredes.
Hachiman franziu o cenho. Normalmente, ela correria para ele com algum problema trivial ou exigiria ajuda em algo. Ele subiu as escadas lentamente e abriu a porta do quarto dela, apenas para encontrá-la sentada à sua mesa, concentrada em um livro. A cena era tão incomum que ele teve que piscar algumas vezes para se certificar de que não estava imaginando.
— Olha só quem está estudando seriamente. Um milagre em pleno dia de semana. — Ele cruzou os braços, observando a cena com uma sobrancelha arqueada.
Komachi ergueu os olhos, arqueando as sobrancelhas também, mas de maneira desafiadora.
— Bem, é que algumas pessoas têm objetivos na vida, sabe? Eu não quero acabar como certo alguém que fica reclamando de tudo enquanto não faz nada. — O sorriso provocativo em seu rosto era puro veneno disfarçado de brincadeira.
— Claro, claro. Porque se tornar uma estudante modelo de repente faz de você a salvadora do mundo. Deixe-me adivinhar, você está estudando para algum teste do colégio? Ou, quem sabe, praticando para ser uma vendedora de sonhos como nos comerciais clichês? — Ele respondeu, com o tom característico de sarcasmo, embora houvesse uma ponta de curiosidade escondida.
— Nada disso, oni-chan. Estou me preparando para ser independente. Quero entrar em uma boa faculdade, conseguir um bom emprego e, quem sabe, morar sozinha. Afinal, não posso depender de você e dos nossos pais a vida toda. — Komachi sorriu com doçura, mas suas palavras atingiram Hachiman como um golpe certeiro.
Por um momento, ele ficou em silêncio, o olhar fixo nela. Ela percebeu a mudança em sua expressão e suavizou o tom, estalando a língua enquanto balançava a cabeça.
— Ei, eu não quis dizer que quero me desfazer de você, oni-chan. Só... Só acho que nós dois podemos crescer, sabe? Seguir nossos caminhos. Mas eu ainda vou te visitar nos feriados! Talvez até deixe você cozinhar para mim. — Ela deu uma piscadela brincalhona, tentando amenizar o impacto.
— Visitar, hã? Tão generosa. Que honra. — Hachiman virou-se para sair, escondendo um pequeno suspiro. — Bom, não deixe sua cabeça explodir de tanto estudo. Eu vou... Fazer alguma coisa lá embaixo. Ou nada. Ainda não me decidi.
Ele desceu as escadas e se jogou no sofá da sala, encarando o teto. A ideia de que até Komachi queria criar distância dele era uma espécie de tapa na cara. Ele sempre achou que sua relação com ela era o único laço verdadeiro que tinha, uma ilha de estabilidade em um mundo de superficialidade. Mas agora...
"Talvez eu seja mesmo um peso morto," Ele pensou, com amargura. Ele revirou o olhar para o teto por alguns minutos, ouvindo apenas o som distante de Komachi folheando páginas lá em cima. Depois de um tempo, chegou a conclusão que precisava arejar a mente.
Caminhar sem rumo sempre foi sua maneira de evitar pensar demais. A cidade estava tranquila, envolta por um fresco ar de outono. As luzes dos postes iluminavam as ruas, criando sombras longas e dançantes que pareciam brincar com a brisa. Ele se perguntou como era possível que tudo fora de si parecesse tão em paz enquanto ele estava preso em sua tempestade interna.
Ele caminhou tranquilo, com as mãos nos bolsos e sem prestar muita atenção no caminho. Virou uma esquina, duas, e se viu em uma espécie de calçadão, com algumas pessoas caminhando embaixo de uma longa sequência de postes luminosos. Evitando olhar para os outros caminhantes, Hachiman continuou.
Foi quando ele a viu. No meio do calçadão, sob a luz de um poste, havia uma garota vestida de maneira estranha. Ela usava um vestido enfeitado, tinha orelhas de gato falsas na cabeça e um rabo felpudo que escapava por debaixo da saia. Ela se movimentava de forma ritmada e alegre e carregava uma cesta de doces como se fosse uma vendedora de conto de fadas. Sua presença parecia quase sobrenatural, como se ela não pertencesse àquele cenário comum.
— Que porra é essa? — Hachiman murmurou, parando a alguns passos de distância. Ele piscou, esperando que ela desaparecesse como um delírio de sua mente cansada. Mas ela estava ali, real e sorridente.
A garota o notou e sorriu mais amplamente. Era um sorriso peculiar, algo entre doçura e astúcia. Ela caminhou até ele, com movimentos graciosos iguais aos de um felino.
— Boa noite, viajante solitário. Interessado em algo doce para alegrar seu dia? — Disse, estendendo a cesta cheia de doces coloridos.
— "Para alegrar meu dia"? Que clichê barato. — Ele cruzou os braços, analisando-a com desconfiança. — Você é alguma cosplayer tentando gravar um vídeo para viralizar ?
— Que mente cínica, ora essa. — A garota ironizou e riu suavemente num tom amigável — Mas à sua pergunta: Não. Eu sou apenas uma vendedora de doces artesanais. — Ela inclinou a cabeça, com suas orelhas falsas se movendo estranhamente, não parecendo tão falsas. — E você, meu caro, parece bem... Vazio. Parece estar com algo profundo o incomodando. Talvez um doce meu possa preencher esse buraco em seu coração.
— Nossa, que profundo. Você é terapeuta ou essa é só mais uma técnica de persuasão para os seus clientes? — Apesar do sarcasmo, algo naquelas palavras o fez hesitar. Ela havia capturado alguma coisa em seu olhar, algo que ele preferia esconder, mas que era plenamente visível para ela.
— Eu diria que... — A garota deu um sorriso de canto. — ...vendo muito mais do que meus clientes esperam.
Ela se voltou para sua cesta e tirou dela um pequeno doce embrulhado em um papel vermelho.
— Esse é especial. — Disse, estendendo o doce para Hachiman. — Posso dizer que traz um pouco de amor para vidas vazias. Que tal? Apenas 100 Yenes.
Hachiman revirou os olhos, mas acabou pegando uma moeda no bolso. Não tinha nada a perder. No pior dos casos, o doce seria ruim.
— Tudo bem. Vamos ver o quão especial isso é.
Ele pegou o doce, abriu o embrulho e comeu ali mesmo. Tinha um gosto surpreendentemente bom, um misto de sabores que ele não conseguia identificar. Não era algo comum, mas também não justificava o marketing exagerado.
— Hã. Nem é ruim. — Ele deu de ombros e tentou se dirigir a garota para agradecê-la, mas, quando a procurou, ela já não estava mais lá.
Hachiman ficou parado por um momento, olhando para os lados. "Que estranho..." Ele pensou. Mas não tinha energia para se importar mais com aquilo. Ele continuou sua caminhada até em casa, sem ideia de que sua vida estava prestes a virar uma bagunça.
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