O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 3
O som irritante do despertador invadiu o quarto de Hachiman como um golpe certeiro em sua cabeça. Ele gemeu, estendendo o braço para desligar o alarme, antes de enterrar o rosto no travesseiro novamente.
Outro dia, de novo sou obrigado a sair da cama sem um motivo decente...
Depois de alguns minutos de se virar e contemplar o teto em uma lamentação silenciosa pela própria existência, Hachiman finalmente se arrastou para fora da cama. A rotina de manhã era sempre a mesma: escovar os dentes, lavar o rosto, evitar se encarar no espelho por muito tempo. Mas hoje havia algo diferente. O cheiro de comida veio do andar de baixo, um aroma tão delicioso que fez seu estômago roncar imediatamente.
Ao descer as escadas, ele encontrou Komachi na cozinha. Sua energética irmã mais nova estava finalizando uma refeição elaborada que parecia digna de um restaurante. Havia tamagoyaki, arroz frito com legumes e uma tigela com frutas cortadas com precisão geométrica. Ao centro da mesa, uma jarra de suco de laranja brilhava sob a luz da manhã.
— Que cena é essa? —Perguntou Hachiman, franzindo o cenho enquanto olhava para a mesa posta.
Komachi se voltou para ele e sorriu radiante.
— Bom dia, oni-chan! Já estava na hora de você levantar. Eu preparei um café da manhã especial para você.
Hachiman estreitou os olhos, desconfiado.
— Especial? Para mim?
— Uhum! — Komachi assentiu, enquanto terminava mais uma porção de tamagoyaki.
— Tá bem, o que você quer? — Hachiman cruzou os braços. — Quer que eu convença o papai a aumentar sua mesada? Ajuda com a lição de casa? Algum sacrifício que só um irmão mais velho poderia fazer?
— Não seja tão cínico! — Komachi revirou os olhos, mas ainda mantendo seu sorriso entusiasmado. — Eu senti que você merecia algo bom hoje. Afinal, eu tenho todo o direito de mimar meu oni-chan de vez em quando.
Hachiman se sentou, ainda desconfiado, mas incapaz de resistir ao aroma. Ele comeu em silêncio, tentando decifrar a repentina demonstração de carinho de sua irmã. Era gostoso, ele tinha que admitir. Mas, ao mesmo tempo, parecia suspeito demais para ser apenas bondade, principalmente quando ele percebia alguns olhares rápidos dela para ele enquanto comia.
Quando terminou, Komachi recolheu os pratos com entusiasmo, como se fosse um prazer servi-lo.
— Sério, pode me dizer, qual é o esquema? — Ele insistiu.
Komachi deu de ombros, com um olhar quase inocente.
— Não tem esquema, oni-chan. Eu só queria ver você feliz. Não pode simplesmente aceitar isso?
Ele a observou por um momento, tentando encontrar algum sinal de mentira. Mas ela parecia sincera, com um sorriso bobo e um olhar brilhante. Ou pelo menos tão sincera quando sua irmã podia ser. Sem querer prolongar a conversa, ele se levantou e pegou sua mochila.
— Bem, muito obrigado... Eu acho. — Ele saiu de casa, ainda com a sensação de que havia algo fora do lugar.
***
Na escola, a primeira metade do dia foi um borrão de monotonia, como de hábito, mas pontuada por momentos estranhos. Ao entrar na sala de aula, ele notou que algumas garotas o cumprimentaram de maneira inusitada. Não que ele fosse completamente ignorado antes, mas agora os sorrisos pareciam mais largos e os olhares mais demorados. Ele tentou ignorar, mas algo sobre aquilo o incomodava.
Durante as aulas, ele percebeu que as garotas pareciam curiosamente interessadas em tirar dúvidas com ele e até fazerem dupla em uma atividade. Uma das garotas, que raramente sequer conversava com Hachiman, sugeriu com um sorriso:
— Hikigaya-kun, que tal fazermos isso juntos?
Ele hesitou, franzindo o cenho.
— Você tem certeza? Eu não sou exatamente o melhor em trabalho em equipe.
— Está tudo bem. — Ela tranquilizou com um entusiasmo desconcertante. — Tenho certeza que vamos funcionar bem juntos.
Mais tarde, quando uma outra colega se aproximou para puxar conversa durante um intervalo entre as aulas, ele sentiu o desconforto crescer. Não era comum que as pessoas se esforçassem tanto para falar com ele. Era quase como se ele estivesse... popular? O pensamento o fez estremecer.
Quando o alarme do almoço tocou, Hachiman decidiu sair da sala rapidamente, na esperança de evitar mais interações estranhas. Ele estava planejando comer sozinho em algum canto isolado da escola, como sempre vazia, mas sua paz foi interrompida antes mesmo de decidir onde iria.
Yui Yuigahama e Yukino Yukinoshita o encontraram no corredor. As duas caminhando lado a lado, com a habitual tensão silenciosa entre elas. Yui foi a primeira a falar.
— Hikki, que tal almoçarmos juntos hoje? Eu trouxe um lanche extra! — O sorriso dela era brilhante como sempre, mas havia algo na maneira como ela olhava para ele. Parecia... Diferente.
Antes que pudesse responder, Yukino interveio.
— Talvez não seja apropriado pressioná-lo, Yuigahama-san. Se Hikigaya-kun preferir almoçar sozinho, devemos respeitar sua decisão. — Apesar de sua voz calma, havia uma leve rigidez em suas palavras.
Hachiman levantou as mãos em um gesto de defesa.
— Hã... acho que hoje vou comer sozinho mesmo. Preciso de um tempo para pensar.
As duas pareceram desapontadas, mas não insistiram. Ele se virou e saiu rapidamente, sentindo-se desconfortável com a situação. Havia algo de muito estranho acontecendo, mas ele ainda não conseguia apontar o dedo para o que era.
Enquanto caminhava pelo pátio, procurando um lugar tranquilo para almoçar, ele esbarrou com Iroha Isshiki. Ela estava andando com seu habitual ar despreocupado, mas seu sorriso se alargou ao vê-lo.
— Oh, senpai! Que coincidência. — Iroha colocou a mão no quadril, inclinando a cabeça de um jeito que sabia que a deixava fofa.
Hachiman suspirou.
— Coincidência ou você estava me perseguindo? Porque não estou com humor para isso hoje.
— Que coisa horrível de se dizer! — Respondeu iroha, fingindo estar magoada. — Na verdade, eu ia te procurar de qualquer jeito. Preciso de ajuda com uma coisa no conselho estudantil.
— De novo? Você não consegue resolver nada sozinha? — Ele perguntou, embora já soubesse a resposta.
— Claro que consigo! Mas ter você por perto torna tudo mais fácil. Você tem aquele jeitinho de resolver problemas que ninguém mais tem. — O tom dela era meloso, e Hachiman teve que se segurar para não revirar os olhos.
Ele a observou por um momento, ponderando. Algo estava definitivamente errado hoje, mas ele não conseguia ligar os pontos. Por fim, suspirou novamente e cruzou os braços.
— Tudo bem. O que você quer dessa vez?
Iroha sorriu vitoriosa, puxando-o pelo braço de volta para dentro do prédio principal. E, enquanto ele a seguia, não podia deixar de pensar: "Por que todo mundo parece ainda mais esquisito do que o normal hoje?"
***
Iroha liderava o caminho com um passo leve e confiante, mas Hachiman não podia deixar de notar a maneira como ela olhava por cima do ombro ocasionalmente, como se quisesse se certificar de que ele estava realmente a seguindo. Cada vez que ela fazia isso, sua expressão parecia misturar provocação e satisfação.
— Sabe, senpai, as pessoas vão começar a achar que você gosta de mim se continuarmos assim. — Ela disse, com um sorriso travesso.
Hachiman suspirou, colocando as mãos nos bolsos.
— Bem, isso não é opcional para mim, é? Você sempre tem uma desculpa para me arrastar para essas coisas.
— Ah, não diga isso. Você é tão confiável. Talvez até um pouco... Charmoso? — Iroha parou e virou-se para ele, piscando de maneira exagerada.
Hachiman parou, com o olhar vazio como sempre.
— Você realmente acha que eu caio nesse tipo de manipulação barata?
—Barata? É ofensivo dizer isso, sabia? Eu sou muito boa no que faço. — Ela cruzou os braços, fingindo indignação. Depois, sua expressão relaxou, voltando ao tom de flerte. — Mas bem, é só natural que eu use as minhas habilidades para fazer as coisas funcionarem.
Hachiman a encarou por um momento, ponderando seriamente se deveria simplesmente dar meia-volta e retornar ao seu almoço sozinho. Mas, mesmo com sua usual apatia, ele sabia que, se não ajudasse, Iroha provavelmente o incomodaria ainda mais depois. Ele suspirou novamente e continuou andando.
— Certo, vamos logo com isso. Quanto antes você conseguir o que quer, antes eu posso voltar a não me importar.
Enquanto se aproximavam da sala do conselho estudantil, as coisas ficaram ainda mais estranhas. Ao virar um corredor, eles deram de cara com Yui e Yukino. As duas pareciam estar indo à biblioteca, mas pararam imediatamente ao ver Hachiman e Iroha juntos.
— Hikki! O que você está fazendo aqui em cima? — Perguntou Yui, com um tom de suspresa que parecia um pouco exagerado. — Você não ia almoçar sozinho?
Antes que ele pudesse responder, Yukino interveio.
— Pelo que parece, ele foi, mais uma vez, coagido por Isshiki-san a fazer algo que provavelmente não deveria ser responsabilidade dele.
Iroha colocou uma mão no peito, fingindo estar magoada.
— Yukinoshita-senpai, isso foi muito cruel. Eu nunca faria algo assim. — Ela fez uma pausa dramática antes de sorrir. — Quer dizer, não que ele não esteja gostando de me ajudar.
Yui deu um passo à frente, franzindo ligeiramente o cenho.
—Hikki, você realmente não deveria deixar ela te explorar assim. Se você quiser, ainda podemos almoçar juntos e... Esquecer tudo isso.
— Você faz parecer que eu sou algum tipo de vilã, Yuigahama-senpai. Eu só pedi um pouco de ajuda. — Iroha suspirou teatralmente, olhando para Hachiman com olhos grandes e inocentes. — Mas, se você acha que elas estão certas, senpai, talvez devesse me abandonar e deixar eu fazer essa exaustiva tarefa sozinha.
O silêncio pairou por um momento enquanto Hachiman olhava de uma para a outra. A tensão entre as três era quase palpável, e ele sabia que qualquer palavra errada apenas pioraria a situação.
— Vocês podem resolver isso sem me colocar no meio? Porque, honestamente, só quero terminar o que comecei e almoçar em paz.
Antes que a discussão pudesse continuar, uma voz firme ecoou pelo corredor.
— Hikigaya Hachiman, você poderia vir aqui por um momento? — Era a professora Shizuka Hiratsuka, parada no corredor diante deles com os braços cruzados.
Hachiman quase sentiu vontade de sorrir. A sua sensei era, pela primeira vez, um alívio bem-vindo. Ele deu um leve aceno para as três garotas e começou a se afastar.
— Parece que eu tenho um chamado mais urgente. Aproveitem e resolvam suas diferenças sem mim.
Enquanto ele andava ao lado de Hiratsuka, podia ouvir as vozes abafadas de Yui, Yukino e Iroha continuando sua discussão. Ele não podia evitar de pensar: "Por que eu?"
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