O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 4
Hikigaya Hachiman seguiu relutantemente a professora Shizuka até a sala dos professores, tentando ao máximo ignorar a sensação desconfortável de ser "convocado" por ela. Ele não sabia exatamente o que esperar, mas ela definitivamente não costumava o chamar para lhe dar elogios, e o peso no olhar dela quando o chamou não parecia prometer nada de bom.
— Entre, Hikigaya. — Hiratsuka disse, empurrando a porta e gesticulando para que ele entrasse. Ele fez como mandado, sentando-se na cadeira de frente para a mesa dela.
A professora fechou a porta atrás de si, o que só aumentou o desconforto de Hachiman. Ela se sentou na cadeira oposta, cruzando os braços enquanto o observava com um olhar penetrante, que misturava análise e interesse. Ele desviou os olhos, fixando-se em uma pilha de papéis que parecia estar prestes a desabar na mesa dela.
— Então, do que se trata? — Ele perguntou finalmente, sua voz carregada de apatia.
Hiratsuka apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos.
— Há algo de diferente em você hoje, Hikigaya. E, honestamente, estou preocupada.
Ele arqueou uma sobrancelha, confuso.
— Diferente? Como assim?
Ela se inclinou para frente, como se estivesse prestes a revelar um segredo importante.
— Normalmente, você é... Como posso dizer? Mais indiferente e discreto. Quase imperceptível. Mas hoje, parece que tem alguma coisa em você. Algo que está chamando a atenção de todos, principalmente das garotas ao seu redor, e isso é algo que eu não posso simplesmente ignorar.
Hachiman piscou, tentando processar o que ela estava dizendo. "Algo que está chamando a atenção"? Ele pensou nas interações mais cedo com Yui, Yukino e até mesmo Iroha. Era verdade que as coisas estavam um pouco fora do comum, mas nada que fosse motivo de chamar a atenção da professora.
— Não sei o que quer dizer, sensei. Talvez elas apenas estejam... Sei lá, de bom humor hoje?
Hiratsuka estreitou os olhos, claramente não convencida.
— Não seja tão ingênuo, Hikigaya. Tem alguma coisa acontecendo. E eu me preocupo com o impacto que isso pode ter em você. Afinal, você é um dos meus alunos mais... Especiais. — Ela hesitou, como se estivesse escolhendo cuidadosamente suas palavras.
— Especial? Essa é nova. — Ele respondeu com sarcasmo, tentando desviar o foco — Pensei que você me considerasse um caso perdido.
Hiratsuka bufou, cruzando os braços novamente.
— Você... Não é um caso perdido, Hikigaya. — Ela desviou o olhar por um momento, mas em seguida voltou a encará-lo com um olhar que se esforçava para ser sério. — Eu posso ter dito que era algumas vezes, mas honestamente acredito que você tem potencial. Por isso que eu me importo com você.
Hachiman levantou uma sobrancelha, achando o rumo daquela conversa ligeiramente estranho.
— Escute, Hikigaya. Talvez você precise de... Como posso dizer? Mais orientação. Alguém para ajudá-lo a lidar com... Tudo isso.
Hachiman sentiu uma desconfiança incômoda tomar conta de si.
— Tudo isso? Você pode ser mais específica?
Ela desviou o olhar novamente, como se estivesse... Insegura?
— E-eu estava pensando em oferecer... Aulas de reforço para você. Algo mais personalizado. Assim podemos passar mais tempo juntos... Quero dizer, trabalhando nos seus pontos fracos. — A maneira como ela disse isso era estranhamente casual, mas algo no tom fez Hachiman congelar.
— Espera, isso é sério? — Ele perguntou, se inclinando para frente. — Você quer me dar aulas de reforço... Para passarmos mais tempo juntos?
— Bem, não foi exatamente isso que quis dizer. — A professora pareceu mais insegura ainda, e, embora Hachiman tenha pensado que tinha se enganado, ele poderia jurar que viu ela corar levemente. — Mas, não é como se isso fosse uma ideia tão ruim. Você é um bom garoto, Hikigaya. Um garoto interessante. E... Eu quero ter certeza de que está bem.
Hachiman piscou lentamente, tentando entender o que estava acontecendo. Era como se o mundo inteiro tivesse decidido virar de cabeça para baixo naquele dia. Ele não tinha certeza de como responder, mas sabia que precisava sair daquela sala o mais rápido possível.
— Olha, sensei, eu agradeço a sua preocupação. Mas acho que estou bem, de verdade. Talvez a gente possa discutir isso em outra hora. — Ele se levantou, tentando não parecer tão desesperado para escapar.
Hiratsuka o observou por um momento antes de suspirar.
— Tudo bem, Hikigaya. Mas lembre-se, minha porta está sempre aberta se você precisar de ajuda. Qualquer tipo de ajuda.
Ele deu um leve aceno, saindo da sala o mais rápido que pôde sem parecer rude. Enquanto caminhava pelo corredor, sentiu o peso do olhar dela em suas costas.
***
Quando o intervalo terminou e ele voltou para a sala de aula, Hachiman esperava que o resto do dia fosse mais tranquilo. Mas é claro que isso não estava nos planos do universo. Assim que entrou, notou Yukino e Yui paradas perto de sua mesa, ambas parecendo intensamente envolvidas em uma discussão.
— Eu só acho que seria mais apropriado se eu o acompanhasse. — Yukino disse, com os braços cruzados e um olhar firme.
— Mas, Yukinon, você nem mora na mesma direção! Eu posso levar o Hikki para casa sem problema nenhum. — Yui respondeu, com um tom de voz ligeiramente mais alto do que o normal.
Hachiman parou na porta, franzindo o cenho. "O que está acontecendo aqui?" Ele caminhou até sua mesa, tentando passar desapercebido, mas as duas imediatamente voltaram sua atenção para ele.
— Hikigaya-kun, eu estava discutindo com Yuigahama-san sobre a importância de se ter uma companhia confiável no caminho para casa. — Yukino disse, com um tom que beirava o desdém.
— Isso! E eu acho que seria melhor se fosse eu. Afinal, nós já caminhamos juntos antes, não é, Hikki? — Yui acrescentou, dando-lhe um sorriso caloroso.
Ele piscou, completamente perdido.
— Hã... Eu realmente não preciso disso. Eu consigo ir para casa sozinho, obrigado.
— Mas você não deveria, Hikigaya-kun. Considerando como as coisas estão hoje, pode ser perigoso. — Yukino respondeu, com um olhar que parecia mais determinado do que preocupado.
Yui bufou, colocando as mãos na cintura.
— Eu também me preocupo com o Hikki, sabe? E eu vou garantir que ele chegue em casa seguro! — Ela insistiu, depois sussurrou: "E também posso preparar um chá para ele quando chegarmos, se ele quiser..."
Hachiman sentiu uma dor de cabeça crescente enquanto as duas continuavam discutindo. Ele sabia que qualquer tentativa de intervir seria inútil, então apenas se afundou em sua cadeira, olhando para o teto.
"Por que isso está acontecendo comigo?"
***
Hachiman foi para o Clube de Serviço com a esperança de que o ambiente familiar o ajudasse a recuperar alguma normalidade no dia. Afinal, já era comum o silêncio e a tranquilidade por lá. Porém, ele deveria saber que esse era um pensamento otimista demais para sua realidade.
Assim que abriu a porta da sala, foi recebido por Yui, que parecia ainda mais animada que o habitual.
—Hikki, você demorou! Estava te esperando para começarmos a arrumar as coisas por aqui! — Disse ela, segurando uma pilha de papéis que claramente não eram para ele.
Yukino estava sentada no canto, como sempre, mas levantou os olhos do livro que estava lendo. Seu olhar afiado pairou sobre ele por um momento, e ela fechou o livro com um leve estalo.
— Você finalmente decidiu aparecer, Hikigaya-Kun. Eu gostaria de saber se você decidiu alguma coisa sobre o que estávamos conversando mais cedo.
Hachiman suspirou, passando a mão pelos cabelos.
— Escutem, vocês duas estão ainda mais estranhas do que de costume. Posso perguntar o que está havendo?
Yui piscou algumas vezes, como se não entendesse a pergunta.
— Estranhas? Como assim, Hikki? Eu só quero ajudar você! A gente podia fazer algo juntos depois da escola. Tipo... Tomar um sorvete? Ou assistir um filme? — Sugeriu, com um sorriso radiante, quase desconcertante.
Yukino arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, seu tom gelado contrastando com a energia de Yui.
— Yuigahama-san, não é apropriado tratar atividades pessoais como extensão do Clube de Serviço. — Ela se virou para Hachiman — Hikigaya-kun, você deveria considerar investir seu tempo em algo mais produtivo do que... Sorvetes. Talvez uma ida a biblioteca comigo fosse mais interessante.
— Espera, o quê? Do que vocês estão falando? — Hachiman fitou as duas, a confusão tomando conta de si.
As duas se olharam com dúvida, como se aquela conversa fosse absolutamente natural.
Ele revirou os olhos.
— Olha, eu não sei o que está acontecendo com vocês hoje, mas...
Antes que pudesse terminar, a porta se abriu com um estrondo, e Iroha Ishiki entrou com seu habitual ar despreocupado. Ela parou ao ver os três e imediatamente abriu um sorriso.
— Ah, senpai, eu estava te procurando! Você tem um minutinho? Preciso de sua ajuda no conselho estudantil. — Ela disse, ignorando completamente o clima tenso na sala.
Hachiman não sabia se sentia alívio ou desespero.
— Preciso mesmo? — Ele perguntou, já sabendo que a resposta seria um enfático "sim".
— Claro que sim! Eu não sei o que faria sem você. — Iroha colocou uma mão na cintura e deu uma piscadela, exibindo um pequeno sorriso que parecia mais calculado do que sincero. — Você é tão confiável, senpai.
Antes que Yukino ou Yui pudessem protestar, Hachiman se virou rapidamente.
— Claro, vamos logo com isso. — Ele saiu da sala, seguido por uma Iroha claramente satisfeita.
No corredor, Hachiman tentou não se sentir observado, mas havia algo inquietante no olhar que Iroha mantinha nele. Ela caminhava ao seu lado com um sorriso malicioso, claramente aproveitando o momento
— Então, senpai, o que acha de continuarmos o trabalho depois do expediente? Quem sabe possamos ir... Tomar um café? — Sugeriu casualmente.
— Continuar o trabalho, talvez. Café? Definitivamente não. — Ele respondeu, cortando qualquer tentativa de flerte.
Iroha fez beicinho, mas não parecia particularmente afetada pela rejeição.
— Você é sempre tão frio, senpai. Não acha que deveria ser mais gentil com uma kouhai em necessidade?
Antes que ele pudesse responder, os dois viraram num corredor e deram de cara com Saki Kawasaki. Ela estava encostada na parede, aparentemente mexendo no celular, mas ergueu os olhos quando os viu.
—Hikigaya-kun? Você por aqui? — Ela perguntou, com um tom ligeiramente desconfiado.
— Eu poderia perguntar o mesmo a você. — Ele respondeu, já se preparando para uma troca de farpas desnecessária.
Saki deu de ombros, mas seus olhos permaneceram fixos nele por mais tempo do que o normal. Então, como se reunisse coragem, ela falou:
— Bem, já que você está aqui... Que tal irmos juntos para casa hoje? Eu tenho algo que quero conversar com você.
Hachiman piscou algumas vezes, atônito. Era quase como se o dia tivesse sido planejado para testar sua sanidade.
— O quê? Por quê? E que assunto é esse que você quer conversar?
— Porque... Ora, porque eu quero! Qual o problema? — Ela respondeu, cruzando os braços e desviando o olhar, exalando timidez. — E o assunto que quero tratar é algo que precisamos conversar a sós. — Ela olhou para Iroha com desdém.
Hachiman tentou pensar naquela situação com calma. De todas as garotas que pudessem ter uma crise de flerte com ele naquele dia, a Kawasaki era se longe a menos provável. Eles não se odiavam, claro, mas ela definitivamente não demonstrava ter sentimentos positivos por ele.
Porém, antes que ele pudesse processar o que iria dizer, ou que Iroha respondesse a provocação, uma voz familiar ecoou pelo corredor.
— Oni-chan! — Komachi apareceu, vindo em direção a eles com um sorriso despreocupado. — Finalmente te achei. Vamos pra casa juntos hoje?
Hachiman soltou o ar aliviado. Nunca tinha ficado tão feliz em ver sua irmã mais nova. Ele rapidamente acenou para Saki e Iroha.
— Parece que meu plano de fuga chegou. Desculpem, mas vou nessa.
Sem esperar resposta, ele seguiu Komachi pelo corredor, deixando as outras para trás. Conforme caminhavam, Komachi olhou para ele de lado, claramente curiosa.
— O que foi aquilo, Oni-chan? Por que você parecia tão desesperado para sair dali?
Ele suspirou profundamente, sentindo o peso do dia finalmente diminuir um pouco.
— Você não quer saber. Acredite.
Komachi apenas deu de ombros, mas o sorriso dela indicava que sabia que era algo bem estranho.
— Bom, se você diz. Mas, sabe, você tem um talento especial para atrair confusão, Oni-chan.
Ele revirou os olhos.
— Acho que isso nunca foi tão verdade, mas não foi algo que eu pedi.
Komachi riu, enquanto eles saiam do terreno da escola.
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