O Feitiço de Hikigaya - Capitulo 5

 Komachi e Hachiman caminhavam lado a lado pela rua, o silêncio sendo preenchido entre eles pelo som ritmados dos passos e pelo ocasional assobio do vento fresco. Depois de um dia tão estranho, Hachiman esperava que a caminhada para casa com sua irmã fosse a ilha de tranquilidade que sempre foi para sua mente.

— Então, oni-chan, como foi seu dia? — Perguntou Komachi, com um tom despreocupado enquanto mexia em seu celular.

Hachiman bufou, afundando as mãos nos bolsos.

— Estranho. Estranho demais para o meu gosto. Todas as garotas da escola estão agindo... de um jeito bizarro comigo. Claro, não que eu não seja incrível, mas isso já está saindo do controle.

 Komachi ergueu o olhar da tela do celular, rindo.

— Sério? Tipo, todas elas? O que está acontecendo? Elas finalmente perceberam como você é o melhor oni-chan do mundo?

Hachiman revirou os olhos, suspirando profundamente.

— Yukinoshita, Yuigahama, Isshiki, Kawasaki... Até a profesora Hiratsuka. Todas elas vieram com alguma desculpa para passar um tempo comigo. E não estou falando de interações normais. Estou falando de convites para encontros.

 Komachi fez silêncio por um momento, parecendo absorver a informação. Depois de alguns segundos, ela se voltou para seu irmão, mantendo seu sorriso animado.

— Meu Deus, até a professora? — Ela riu. — Isso é hilário! Quero dizer, você sempre reclama que ninguém presta atenção em você. E agora estão todas te cercando! Você deve estar adorando, oni-chan.

 Hachiman a olhou de canto, percebendo algo estranho no tom dela.

— Não, Komachi, eu não estou adorando. Isso é incômodo e, pra ser honesto, meio assustador.

 Ela riu novamente, mas dessa vez parecia... Diferente. Havia algo em seu sorriso que Hachiman não conseguia identificar de imediato. Então, ela falou:

— Bem, mas você não pensa realmente em sair com alguma delas, não é?

— Não... Não penso. —  Hachiman estranhou como a voz dela saiu um pouco mais séria que o normal. Ela não parecia mais tão animada com a conversa.

— Ainda bem. — Ela deu um sorriso tímido enquanto desviava o olhar. — Não gosto de pensar que elas poderiam roubar você de mim.

 Hachiman parou de andar. Ele a encarou, confuso.

— Roubar de você? Que tipo de ideia maluca é essa, Komachi?

 Komachi também parou, fitando ele com uma expressão que parecia misturar irritação e tristeza.

— Ora, oni-chan, como você pode não pensar em mim nessa situação? Se você saísse com alguma garota, não daria mais atenção pra mim. Deixaria o que nós temos de lado.

— O quê? — Hachiman estava tentando entender. Aquela garota não parecia sua irmã falando. — Como assim "o que nós temos"?

Komachi pareceu ofendida com a forma como Hachiman falou.

— Você não entende, oni-chan. — Ela desviou o olhar. — Você é meu! E eu sempre fui a garota mais importante pra você. 

 Ele piscou lentamente, sentindo sua sanidade se perder a cada palavra que ouvia. Por outro lado, o olhar de Komachi se encheu de um brilho intenso e determinado, como se estivesse se confessando para ele.

— Você é o garoto mais importante da minha vida. Não pode deixar que essas garotas se metam entre nós, oni-chan.

— Komachi... Isso é absurdo. Do que você está falando?

 Ela desviou o olhar, parecendo envergonhada, mas insistiu.

— Eu não sei... Eu só... Comecei a pensar mais em você. E não consigo evitar de pensar que o que eu sinto por você talvez... Seja algo mais.

 Hachiman sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele levantou as mãos, como se estivesse tentando afastar aquelas palavras no ar.

— Ok, para! Isso está indo longe demais. Komachi, você ouve o que está dizendo?

 Ela o encarou, parecendo confusa e, de certa forma, insegura.

— Mas, oni-chan, eu... — Ela tentou se aproximar e segurar sua roupa.

— Não! — Ele a interrompeu, a voz mais firme do que pretendia. — Você está sendo completamente irracional. Até ontem, você estava falando sobre ser independente. Sobre querer se afastar de mim. E agora isso? O que está acontecendo com você?

 Komachi hesitou, mordendo o lábio inferior. Parecia estar retomando a consciência. Ela respirou fundo e balbuciou:

— Eu... Eu não sei. Eu simplesmente comecei a sentir essas coisas. De um jeito forte. Eu sei que não é normal. É bizarro, parando para pensar. Tem alguma coisa errada comigo.

 Hachiman relaxou os ombros, aliviado ao ver que ela estava voltando ao normal. Ele esfregou a testa, tentando pensar.

— Certo. Se algo está errado, precisamos descobrir o que é. E é alguma coisa que afetou também as outras garotas.

— O que poderia ser, oni-chan? — Komachi perguntou. — Alguma hipnose?

— Não sei, talvez... — Hachiman tentava ligar pontos que não faziam sentido. Como algo poderia ter mexido com todas as garotas que ele convive? E ao mesmo tempo. — Hipnose, alguma coisa que vocês tenham ingerido, alguma manipulação...

 Ele parou, pensando em algo que soava absurdo, mas talvez, só talvez, pudesse ter alguma coisa a ver.

— Komachi... — Hachiman se voltou para sua irmã — Quando você começou a sentir essas coisas?

 Ela pensou.

— Ontem a noite, eu acho... — Ela disse, finalmente. — Depois que você saiu para caminhar.

— Olha, isso pode parecer loucura, e honestamente eu acho que é mesmo. Mas acho que sei o que pode ter causado isso.

— O que?

— Ontem, quando saí, eu encontrei uma garota estranha na rua. — Hachiman explicou. — Ela parecia uma cosplayer vestida de gato, e estava vendendo doces. Ela me ofereceu um que traria "mais amor" pra minha vida.

Komachi não conseguiu evitar de rir.

— Sim, isso parece loucura. O que você quer dizer? Que comeu um doce amaldiçoado?

— Ah, eu sei lá. — Hachiman enfiou as mãos nos bolsos, frustrado. — Mas isso parece tão absurdo quanto toda essa situação que estamos metidos. 

— Bem, nisso você tem razão. — Komachi pôs a mão no queixo. — Então você acha que tem algo a ver com esse doce que você comprou ontem.

 Hachiman assentiu lentamente, pensando a respeito.

— Isso faz algum sentido. Desde que comi aquele doce, tudo ficou estranho. Todas as garotas na escola, você... Isso não deve ser coincidência.

 Ela cruzou os braços e assumiu uma expressão pensativa.

— Então... O que devemos fazer, oni-chan? Vamos procurar aquela garota?

Hachiman suspirou.

— Acho que é o que podemos fazer por enquanto. Se isso é realmente culpa dela, com certeza vai saber como resolver.

 Komachi assentiu, determinada.

— Certo. Vamos dar um jeito nisso. Eu não quero continuar sentindo que sou a Sora Kasugano.

— Quem? — Hachiman levantou uma sobrancelha.

— É uma personagem de anime. — Komachi balançou a mão para o irmão não prestar atenção nesse detalhe. — E... Bem, também seria bom se as outras garotas parassem de te cercar assim. Você é meu, afinal.

Hachiman olhou para ela de canto, mas decidiu não comentar. Pelo menos, ela estava voltando ao normal... Mais ou menos.

***

Hachiman e Komachi andaram com determinação até encontrar a rua onde ele havia encontrado a misteriosa garota vestida de gato na noite anterior. O ar fresco da tarde trazia uma calma enganosa à cena, mas o humor de Hachiman estava longe de ser tranquilo. Ele olhou em volta, tentando reconhecer o exato local onde tudo começou a dar errado.

— Você tem certeza de que foi aqui, oni-chan? —Perguntou Komachi, com os olhos curiosos examinando a rua e o calçadão movimentado.

— Sim, foi aqui mesmo. Ela estava em frente àquele poste. — Ele apontou para o local com um suspiro. — Mas, considerando como o dia está indo, aposto que ela não vai aparecer de novo tão facilmente.

 Komachi deu um leve tapa no braço dele, com um sorriso confiante.

— Para com isso, oni-chan! Se nós procurarmos direito e perguntarmos para as pessoas, vamos encontrar alguma pista. Vamos dividir o trabalho. Eu falo com as pessoas do lado direito da rua, e você as do lado esquerdo.

 Hachiman revirou os olhos, mas não teve energia para discutir. Ele sabia que não tinha muita escolha no assunto. Enquanto os dois se dividiam para questionar os transeuntes, ele percebeu o quão desconfortável era tentar explicar algo tão absurdo.

— Com licença, você viu alguma garota por aqui de ontem para hoje? Ela estava vestida de gato... É... Com orelhas e um rabo. E carregando uma cesta de doces. — Ele perguntava, recebendo olhares estranhos em resposta.

Do outro lado da rua, Komachi parecia estar se divertindo mais do que deveria.

— Desculpe incomodar, mas você viu uma garota vestida de gato por aqui? Meu irmão está louco procurando por ela. — Ela ria enquanto os passantes balançavam a cabeça em confusão ou se afastavam rapidamente.

 A situação continuava sem progresso até que, subitamente, uma voz familiar ecoou pelas costas de Hachiman.

— Hikki?! O que está fazendo aqui?

 Ele se virou para ver Yuigahama e Yukinoshita paradas ali, ambas com expressões que misturavam curiosidade e... Algo mais que ele não conseguia identificar imediatamente. Ele suspirou profundamente, já sentindo a dor de cabeça que estava por vor.

— Vocês duas me seguiram? — Ele perguntou, com a sobrancelha arqueada.

 Yui deu um pequeno sorriso, sem jeito.

— Bem, nós vimos você sair da escola com a sua irmã, e você parecia... Meio suspeito. Não podíamos deixar você sozinho se algo estivesse acontecendo, certo?

— E é claro que você atrai esse tipo de atenção, Hikigaya-kun. Nós estávamos curiosas. — Yukino cruzou os braços, olhando diretamente para ele com seus olhos penetrantes.

Hachiman passou a mão pelo rosto, frustrado. Ele sabia que não adiantava discutir com elas, então tentou explicar.

— Certo, escutem. Eu não estou escondendo nada, mas algo estranho está acontecendo. Desde ontem, todas as garotas com quem eu convivo, incluindo vocês, estão agindo de um jeito muito estranho comigo.

Yui piscou, confusa.

— Como assim estranho, Hikki?

— Eu estou falando do comportamento de vocês, Vocês não acham que estão agindo diferente? Como se... Estivessem sentindo algo que não deveriam? —Ele respondeu tentando soar racional.

— Agora que você mencionou, eu... Percebi algo incomum. É como se... É difícil de descrever. — Sua voz era baixa, mas sincera.

 Yui parecia igualmente intrigada.

— Eu também estou me sentindo um pouco diferente. — Ela comentou. — Mas isso é normal, não é? Você sentir coisas mais intensas às vezes.

 Antes que Hachiman pudesse responder, outra voz ecoou, dessa vez com um tom casualmente divertido.

— Senpaaai! Que coincidência encontrar vocês aqui! — Era Iroha Isshiki, que se aproximava com um sorriso despreocupado.

 Hachiman revirou os olhos e passou a mão no rosto novamente em frustração. Mais uma, ele pensou.

— Coincidência, hã? Duvido muito.

 Iroha ignorou seu sarcasmo e se colocou ao lado dele, sorrindo amplamente para as outras duas.

— O que está acontecendo aqui? Vocês estão investigando algo? Eu posso ajudar?

 Yukino cruzou os braços, olhando para Iroha com desconfiança.

— Isshiki-san, isso não tem nada a ver com você. Nós estamos tentando entender uma situação peculiar envolvendo o Hikigaya-kun.

Yui tentou suavizar a tensão, mas sua voz carregava um tom sutilmente competitivo.

— Mas, Iroha-chan, acho que não precisamos de mais pessoas para ajudar, sabe? Já temos tudo sob controle.

 Iroha riu baixinho, jogando o cabelo loiro para trás.

— Ah, entendi. Vocês só querem monopolizar o senpai para vocês. Que fofo. Mas sinto muito, eu cheguei agora e não vou perder a diversão.

 A troca de farpas entre as três continuou, e Hachiman se viu no meio de um fogo cruzado de olhares e provocações. Ele suspirou, percebendo que sua tentativa de explicar o que estava acontecendo havia sido completamente ignorada.

"Por que isso sempre acontece comigo?" ele pensou, enquanto observava as três discutirem como se sua própria sanidade não estivesse em jogo.


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