O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 6
A discussão entre Yui, Yukino e Iroha parecia ganhar uma nova dimensão a cada minuto. Komachi, que inicialmente observava tudo com uma expressão de curiosidade divertida, logo se envolveu, parecendo que também tinha se esquecido de tudo que seu irmão disse sobre a loucura daquilo.
— Ei, escutem! Vocês três estão agindo como se meu oni-chan fosse algum tipo de prêmio. — Komachi cruzou os braços e lançou um olhar afiado para as outras. — Tem noção do quanto isso é absurdo? Mesmo que vocês fiquem discutindo, ele é MEU irmão, então não adianta ficarem achando que ele vai preferir ficar mais com vocês do que comigo.
— Sendo seu irmão ou não, ele é uma pessoa independente, Komachi-chan. Nós também temos o direito de estar com ele, sabia? — Respondeu Yui, sua voz gentil, mas firmemente defensiva.
— Hikigaya-kun, não sei porque você permite que isso continue. Se fosse um pouco mais assertivo, poderíamos resolver esse problema imediatamente. — Yukino lançou seu olhar gelado para ele.
— Exatamente, oni-chan. — Komachi se voltou para Hachiman, com um olhar de cumplicidade e ciúmes. — Diga logo pra elas que nenhuma garota é mais importante pra você do que sua irmãzinha.
Enquanto as três continuavam, Hachiman colocou as mãos nos ouvidos, sentindo uma dor de cabeça crescente.
— Chega! — Ele finalmente gritou, surpreendendo todas elas. — Se vocês querem tanto ficar perto de mim, então pelo menos façam algo útil. Estamos tentando achar a garota estranha que provavelmente é a responsável por essa bagunça toda. Me ajudem com isso e parem de discutir!
As quatro trocaram olhares, claramente relutantes, mas concordaram com um murmúrio geral. Antes que pudessem retomar a discussão, um senhor idoso que estava sentado em um banco próximo a uma lanchonete, chamou a atenção de Hachiman.
— Você está falando de uma garota de orelhas de gato? — Perguntou ele com uma voz rouca, mas clara.
Hachiman se aproximou, ignorando as garotas que ainda o seguiam como uma sombra.
— Sim, exatamente ela. Você a viu?
O velho assentiu, coçando o queixo.
— Ela veio aqui ontem. Pediu um copo d'água e ficou conversando comigo por um tempo. Disse que estava esperando alguém, mas antes de ir, comentou que se mudaria para um lugar mais tranquilo hoje. Acho que mencionou o parque perto daqui.
— O parque? Tem certeza?
— Absoluta. — O velho acenou com a cabeça e sorriu ligeiramente. — Boa sorte, rapaz. Acho que vai precisar.
Hachiman se virou para as garotas, que agora o olhavam com uma mistura de curiosidade e esperança. Ele suspirou, sabendo que não teria paz enquanto não envolvesse todas elas.
— Certo, vamos ao parque. Se vocês querem me ajudar, podem vir. Mas sem mais discussão, entenderam?
Yui acenou com entusiasmo.
— Claro, Hikki! Nós vamos ajudar você a resolver isso.
Yukino suspirou, ajustando o cachecol.
— Desde que isso resolva essa situação absurda, eu concordo.
Iroha deu um sorriso leve, como se estivesse se divertindo.
— Eu também estou dentro. Afinal, seria um desperdício deixar você sozinho nessa, senpai.
Komachi revirou os olhos, mas seguiu o grupo.
Ao chegarem no parque, que era um espaço amplo e arborizado com vários bancos e caminhos de pedra, Hachiman olhou em volta, tentando encontrar algum sinal da garota gato. O vento soprou suavemente, trazendo o som distante de risadas infantis vindas de um playground próximo.
— Certo, vamos nos dividir. Assim cobrimos mais terreno. Se alguém encontrar ela, avise imediatamente. Sem perder tempo. — Ele disse, adotando um tom mais autoritário para evitar outra discussão.
As garotas concordaram, embora Yukino tenha lançado um olhar avaliador para ele, como se questionasse sua capacidade de liderança.
Yui sorriu e se aproximou dele por um instante.
— Boa sorte, Hikki. Tenho certeza que vamos encontrá-la.
Iroha deu um pequeno aceno e seguiu para a direção oposta a de Yui, enquanto Yukino escolheu um caminho mais isolado. Komachi ficou para trás, observando seu irmão com um leve sorriso antes de se juntar a busca.
Hachiman suspirou, ajustando a alça de sua mochila. "Se isso não funcionar, eu realmente não sei mais o que fazer." Pensando nisso, ele seguiu seu próprio caminho, determinado a encontrar respostas.
***
Hachiman andava por uma trilha do parque, rodeado por árvores cujas copas filtravam a luz do sol. O silêncio era estranho. Até mesmo os sons comuns que ele ouviu quando chegou — Crianças brincando, pássaros cantando — pareciam ter desaparecido. Era como se ele tivesse atravessado uma barreira invisível que o isolava de tudo e de todos.
"Por que justamente comigo?" Ele pensou, chutando uma pequena pedra no caminho. Por mais que tentasse encontrar respostas, tudo levava àquela garota misteriosa. E agora ele estava sozinho, cercado pelo vazio e pelo som abafado de seus próprios passos.
Quando ele virou uma curva na trilha, viu algo que o fez parar. Ali, debaixo de uma árvore imensa, estava a garota. Orelhas de gato ainda adornavam sua cabeça, um rabo felpudo escapava por baixo de sua saia e balançava com um movimento estranhamente natural. Era estava sentada em um carrinho de doces, calmamente desembrulhando um e colocando na boca.
— Ah, você veio, Hikigaya Hachiman. Sabia que viria. — Disse ela, com um sorriso que misturava doçura e malícia.
Hachiman hesitou, mas acabou se aproximando. Ele colocou as mãos nos bolsos, tentando parecer indiferente.
— Como sabe meu nome? — Perguntou.
— Eu costumo lembrar do nome dos meus clientes. — Ela respondeu naturalmente.
— Mas eu não lembro de ter dito.
— E eu não precisei que dissesse. — Ela lhe lançou um olhar brincalhão, como se zombasse dele, mas não de um jeito maldoso.
— Olha, não importa. — Hachiman foi direto ao ponto antes que sua sanidade se perdesse mais. — Eu não sei o que você fez comigo ou com a minha irmã e as outras, mas isso tem que parar. Você criou uma bagunça gigantesca.
A garota inclinou a cabeça, olhando para ele como se estivesse avaliando suas palavras.
— Criei? Eu não criei nada, jovem Hikigaya. Eu apenas... Trouxe a tona coisas que já existiam.
Ele franziu o cenho, confuso.
— Como assim? Você está dizendo que essa loucura é culpa delas mesmas?
Ela deu uma risadinha, se divertindo com a situação.
— Não, isso não é uma questão de culpa. O doce que você comeu era especial. Ele apenas acentua o que já existe. Você acha que elas estão agindo de forma diferente, mas na verdade, elas apenas estão sendo mais sinceras com o que sentem.
Hachiman piscou, tentando processar aquilo. Era difícil acreditar que Yukino, Yui, Iroha e até mesmo Komachi sentiam algo por ele antes disso. Parecia irreal.
— Isso é ridículo. Eu sei o tipo de pessoa que sou, e ninguém gosta de mim desse jeito. Especialmente pessoas como elas. — Ele cruzou os braços, como se quisesse proteger-se de suas próprias palavras.
A garota gato sorriu e deu de ombros.
— Você pode tentar mentir para mim, mas não pode mentir para si mesmo. Por que você acha tão difícil acreditar que é amado?
Hachiman desviou o olhar, desconfortável com a pergunta direta.
— Porque... Porque isso não é real. Amor adolescente é uma farsa. É algo que as pessoas inventam para fingir que tem algo de especial em suas vidas insignificantes. Eu nunca tive isso, e não preciso ter.
A bruxa inclinou-se para frente, seus olhos brilhando com um misto de curiosidade e algo mais profundo, como se Hachiman fosse transparente para ela.
— Você exala revolta ao dizer isso, Hikigaya. Você diz isso como se fosse a sua verdade absoluta, mas seu interior se opõe tanto a esse pensamento que você se sente obrigado a reprimi-lo.
Hachiman estremeceu, mas não pretendia ceder.
— Escute. — A garota gato relaxou em seu assento. — Esse é um feitiço simples. Para desfazê-lo, você precisa aceitar a verdade sobre si mesmo. Não sobre elas. Sobre você. Você realmente acredita nas coisas que diz? Realmente acredita que não é digno daquilo que quer no fundo do seu coração?
Ele engoliu seco, as palavras dela ecoando em sua mente como um trovão e atingindo seu peito como um raio. Por mais que quisesse dar uma resposta sarcástica, ele não conseguia encontrar as palavras. Havia algo profundamente incômodo na pergunta, algo que ele não queria confrontar.
— Você fala que isso é sobre mim... Mas foi você quem começou tudo isso. — Ele finalmente respondeu, com a voz fraca, se sentindo encurralado.
A garota sorriu de novo, dessa vez com um toque de tristeza.
— Eu não comecei nada, Hikigaya Hachiman. Você começou. Começou quando escolheu comer o doce, mesmo quando sua mente lhe dizia para não fazê-lo. Começou quando decidiu fugir de seus pensamentos saindo sem rumo pela rua. Começou quando decidiu ignorar o que sentia para não sofrer.
Ela se levantou, pegando o carrinho de doces e se preparando para partir.
— Se você quer desfazer o feitiço, precisa encontrar sua resposta. Me procure quando encontrar. Você sabe onde me achar.
Antes que Hachiman pudesse responder ou mesmo formular um protesto, a garota deu um leve aceno e desapareceu pela trilha. Ele ficou ali, sozinho, com as palavras dela ecoando em sua mente. "quando decidiu ignorar o que sentia para não sofrer."
Humpf, quem ela pensa que é? Hachiman pensou, revoltado.
A caminhada de volta para casa foi silenciosa. Komachi, percebendo o humor introspectivo do irmão, não fez muitas perguntas. Quando chegaram, ela foi direto para a cozinha, enquanto Hachiman tirava os sapatos e se jogava no sofá, exausto mentalmente.
— Oni-chan, estou fazendo o jantar. Você vai me ajudar ou vai ficar jogado aí? — Chamou ela, com o tom provocativo de sempre.
— Vou ajudar, vou ajudar... — Respondeu, levantando-se com um suspiro.
O jantar foi tranquilo, marcado por conversas banais sobre o dia. Komachi parecia querer manter o clima leve, mostrando interesse pelos sentimentos do irmão, mas Hachiman estava alheio, perdido em seus pensamentos. Quando terminaram, ele se ofereceu para lavar os pratos, o que a surpreendeu.
Mais tarde, com uma xícara de chá quente nas mãos, ele foi até a janela da sala. A cidade estava silenciosa, iluminada pelas luzes amarelas dos postes e pelas janelas distantes. Um vento frio entrou pela janela, tocando seu rosto e trazendo um pouco de clareza para sua mente nebulosa.
"Por que justo comigo?" A pergunta ressoou em sua mente, sem resposta. Ele suspirou, dando um gole no chá e observando as luzes tremularem ao longe. Seria tão mais fácil se as coisas continuassem como sempre foram. Hachiman já estava acostumado com isso. Mas parecia que alguém sempre queria virar as coisas de cabeça para baixo. Talvez, pensou, ele devesse aceitar que a vida nunca seria previsível, e cedo ou tarde, ele teria que enfrentar seus problemas.
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