O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 7

 Hikigaya Hachiman chegou à escola com um certo receio, mas com uma esperança ingênua de que conseguiria lidar melhor com as coisas enquanto pensava nas palavras da misteriosa garota gato.

"Você precisa aceitar o que realmente sente..." Ele relembrou. O que isso queria dizer exatamente?

Ele empurrou a porta da sala de aula, ajustando a alça da mochila, apenas para se deparar com uma cena que fez seus ombros caírem imediatamente. Sua mesa estava coberta de cartas. Não apenas uma ou duas, mas dezenas.

Ele parou diante dela, encarando aquilo como se fosse um acidente de trânsito: Desconfortável, mas impossível de ignorar.

- Hikki! O que é isso? - A voz de Yuigahama veio de trás dele. Ela se aproximou rapidamente, inclinando-se para olhar as cartas com curiosidade. - Todas essas são pra você?

- Parece que seu "charme" finalmente foi reconhecido. - O tom gelado de Yukinoshita chegou logo em seguida. Ela cruzou os braços e levantou uma sobrancelha, claramente irritada.

Hachiman suspirou, sentando-se na cadeira enquanto pegava uma das cartas. O papel tinha um perfume forte com notas de rosa e baunilha, tão exageradas quanto a situação em si. Ele leu rapidamente as primeiras linhas:

"Hikigaya-senpai, você é a luz dos meus dias..."

Ele não conseguiu terminar e largou a carta na mesa.

- Isso é algum tipo de piada? Porque ser for, não é engraçado.

- Hikki, isso não é uma piada! É sério! Olha quantas meninas querem sair com você! - Yui disse, pegando outra carta e lendo com um sorriso crescente. - Nossa, essa aqui é super fofa: "Eu amo seus olhos de peixe morto".

- Ou talvez seja apenas mais uma prova da sua inclinação para atrair situações desconfortáveis. - Yukino rebateu, mas havia algo em seu tom que sugeria ciúmes.

Hachiman colocou a cabeça entre as mãos, sentindo uma dor de cabeça iminente. "De novo, por que justo eu?" ele pensou, pela milésima vez naquela semana.

A cada situação como aquela, desde que isso tudo começou, Hachiman se sentia mais estranho. Ele não sabia como articular direito o que todo aquele interesse nele despertava em sua mente. Era uma mistura de interesse e pavor, de aceitação e revolta. A única coisa que ele sabia, é que não gostava da sensação.

Quando a aula começou, Hachiman se sentiu um pouco aliviado ao pensar que, na aula rígida da professora Hiratsuka, ninguém conseguiria dirigir flertes a ele. A professora entrou na sala com seu habitual ar confiante, batendo os papéis na mesa para chamar a atenção. Ela começou a explicar a lição do dia, e Hachiman se permitiu relaxar um pouco. Pelo menos ali ele estava seguro. Ou era o que ele pensava.

Ele soltou um suspiro longo e se acomodou em sua mesa.

- Hikigaya, preste atenção. - A voz da professora cortou seus pensamentos. Ele olhou para cima, vendo que ela estava em pé bem ao seu lado.

- Estou prestando. - Ele respondeu automaticamente, tentando parecer indiferente.

Hiratsuka sorriu, mas havia algo no brilho de seus olhos que o deixou desconfortável.

- Bom. Porque eu estava pensando em te ajudar a resolver os exercícios, se você tiver alguma dúvida. Você tem potencial, mas parece que precisa de alguém para te guiar e incentivar. - Ela se inclinou levemente para frente, aproximando perigosamente seu rosto do de Hachiman. - Você pensou melhor no que eu falei sobre as aulas de reforço, Hikigaya?

Quando a professora disse isso, praticamente todos os olhares da sala se voltaram para Hachiman, o que foi o suficiente para fazer seu rosto queimar.

- Não acho que seja necessário, sensei. Eu estou indo bem por conta própria. - Ele tentou recusar educadamente, mas sabia que isso não ia funcionar.

- Não seja modesto. É importante ter apoio, sabe? - A professora declarou em um tom caloroso, mas notavelmente deslocado. - Especialmente de alguém que realmente se importa com você.

A professora deu uma piscadela para Hachiman e voltou para a frente da sala. Os cochichos começaram a se espalhar entre os seus colegas, e Hachiman desejou desaparecer naquele momento. Ele baixou a cabeça, tentando ignorar tudo, enquanto Hiratsuka continuava a aula como se nada tivesse acontecido.

"Isso está fora de controle." Ele pensou. Era como se todos ao seu redor tivessem perdido completamente a noção de normalidade.

***

O sinal tocou depois de uma hora extremamente arrastada, anunciando a troca de aulas. Hachiman, ainda tentando digerir os convites casuais de sua professora, caminhou lentamente até o vestiário para se trocar para a aula de educação física. Ele odiava essas aulas, mas, considerando como o dia estava indo, ele já podia esperar que seria um pesadelo ainda pior do que o habitual.

No vestiário, ele tentou manter um perfil baixo enquanto trocava de roupa. Ele colocou seu conjunto de moletom de ginástica e saiu, mas ao passar pela porta, deu de cara com Saki Kawasaki, que aparentemente estava esperando por ele. Ela tinha a mesma expressão indecisa de sempre, mas Hachiman sabia que, se ela estava ali, não era por um motivo normal.

- Hikigaya-kun, bom dia. - Ela cumprimentou, consideravelmente mais educada do que o normal. - Como você está hoje?

- Err... Bom dia. - Hachiman hesitou. - Eu estou bem, obrigado.

Ele já não esperaria que Kawasaki o abordasse assim, então o que viesse a seguir era inimaginável.

- Que bom. - Ela deu um sorriso de canto. - Sente-se melhor? Ontem você parecia um pouco pressionado.

- Você é muito observadora. - Hachiman respondeu com indiferença pelo óbvio. - Mas sim, relativamente.

- Bem, eu queria te perguntar... - Ela cruzou os braços e desviou o olhar. - Hikigaya, você tem algum plano para depois da aula?

A pergunta saiu bastante abrupta. Saki parecia tímida, apesar de sua tentativa de mostrar uma postura firme.

Hachiman piscou algumas vezes. Provavelmente aquilo era mais um convite para um encontro.

- Err... Não, por que?

Saki hesitou, mordendo o lábio inferior antes de continuar.

- Pensei que... talvez a gente pudesse... Sei lá, tomar um café ou algo assim. Nada demais.

Hachiman pôde sentir o sangue se acumular em seu rosto, o que o fez desviar o olhar momentaneamente. Apesar de achar que estaria pronto para lidar com mais um convite, os seu peito estava mais quente que o normal. Era muito diferente ouvir algo assim vindo de Kawasaki. Ela sempre o tratara com um certo distanciamento e desdém, e vê-la se dirigir a ele daquele jeito... Trazia a tona seus sentimentos estranhos a respeito.

- Olha, eu não...

Antes que pudesse responder, uma voz fria irrompeu pelo corredor.

- Kawasaki-san, você não acha que seria mais produtivo focar na aula de educação física ao invés de desperdiçar o tempo de Hikigaya com algo tão... Fútil? - Yukino Yukinoshita apareceu, os braços cruzados e o olhar afiado fixado em Saki.

A garota estreitou os olhos, claramente irritada.

- E o que você tem a ver com isso, Yukinoshita? Eu não me lembro de ter pedido sua opinião.

Hachiman voltou seu olhar para Yukino, esperando ver alguma reação de constrangimento e irritação, mas ela continuava impassível e inatingível.

- Eu simplesmente me preocupo com o bem-estar acadêmico dos meus colegas, é claro. E, considerando o histórico de Hikigaya-kun, acho que ele certamente não tem interesse em convites irrelevantes. - A resposta de Yukino foi cortante, mas havia um tom sutilmente possessivo em suas palavras que não passou despercebido.

Saki bufou e deu um passo a frente, ficando cara a cara com Yukino.

- "Convite irrelevante"? Humpf! Olha só quem fala. Você parece tão obcecada com o "bem-estar" do Hikigaya que nem percebe o quão intrometida você é.

- Obcecada e intrometida? De modo algum! - Yukino ergueu o queixo, seu tom ainda mais frio. - Eu apenas estou apontando os fatos e preservando a dignidade dos meus colegas. O que é bem melhor do que aproveitar situações para flertar no meio da aula.

- Ora, pelo menos eu sou honesta com o que quero! - Saki cruzou os braços novamente, com o rosto corado, mas com os olhos firmes e penetrantes. - Você finge que é superior a todo mundo e se esconde por trás dessa fachada de "preocupada com dignidade e sei lá mais o que", quando a verdade é que está com ciúmes por ser tão interessada nele quanto eu.

Hachiman pôs a mão no rosto, novamente querendo desaparecer daquela escola. Enquanto Yukino, por outro lado, estreitou ainda mais os olhos, assumindo um tom ainda mais afiado.

- Por favor, peço que não projete seus sentimentos em mim, Kawasaki-san. Minha preocupação com Hikigaya-kun é puramente racional.

- "Racional" - Saki revirou os olhos com um pequeno sorriso sarcástico. - Certo, continue dizendo isso para si mesma. Mas a mim você não engana.

Hachiman, que vinha assistindo ao "duelo de tsunderes" com uma mistura de pavor e exaustão, finalmente decidiu intervir.

- Certo, acho que todos podemos concordar que a aula de educação física é mais importante agora. Vamos sair antes que o treinador venha nos buscar. - Ele disse, tentando dispersar a conversa antes que as coisas piorassem.

Kawasaki bufou, mas pareceu aceitar a saída. Yukino, por outro lado, lançou um último olhar afiado para a garota antes que ela se retirasse.

- Hikigaya-kun. - Yukino disse finalmente, ao ver que Kawasaki já estava longe o suficiente.

- O que? - Ele levantou uma sobrancelha.

- Espero que você não esteja pensando em se deixar levar pelas investidas de qualquer garota que apareça na sua frente. - Ela lhe lançou um olhar frio, mas que condensava um amalgama de sentimentos confusos. Hachiman podia identificar talvez revolta, indignação, tristeza, ciúmes. Independente do que fosse, era tudo direcionado diretamente a ele, mas antes que pudesse formular uma resposta, Yukino virou as costas e saiu andando pelo corredor, deixando ele sozinho.

Hachiman suspirou. Eu vou acabar ficando louco quando tudo isso acabar.

***

No aquecimento, o professor organizou um jogo de queimado para a turma. Hachiman foi arrastado para um dos times sem entusiasmo, acabando no mesmo grupo que Saki Kawasaki, enquanto Yukino e Yui lideravam o time oposto. Era para ser uma atividade simples, mas logo ficou claro que as garotas estavam transformando o jogo em uma competição velada por Hachiman.

Yui, sempre animada, parecia mais determinada do que nunca a eliminar qualquer uma que parecesse próxima demais a seu colega de classe favorito. Yukino, por outro lado, mantinha sua postura fria e impassível, mas não escondia o foco afiado dirigido a Kawasaki.

- Hikki, cuidado! Vá pra esquerda! - Yui gritou enquanto jogava a bola com força, tentando atingir Saki, que estava perigosamente próxima de Hachiman. A bola passou rente ao ombro de Hachiman, que sequer se moveu, mantendo as mãos nos bolsos como se estivesse alheio a toda a tensão.

Saki desviou habilmente, pegando a bola no ar e devolvendo o arremesso com precisão. A bola voou em direção a Yukino, que se abaixou com graça, pegando a bola antes que ela tocasse no chão.

- Você deveria prestar mais atenção ao jogo, Kawasaki-san. Você está transformando seu aliado em um alvo. - Yukino disse, seu tom carregado de provocação.

- E você deveria focar menos em mim e mais em seu jogo. Talvez assim seu time não perca tão feio. - Saki respondeu, apertando os punhos e transpirando irritação.

Enquanto essa disputa direta ocorria, outras garotas do time de Hachiman pareciam mais preocupadas em protegê-lo do que em ganhar o jogo. Sempre que a bola vinha em sua direção, alguma delas se jogava na frente para interceptá-la, o que só aumentava o absurdo da situação.

- Vocês sabem que eu não sou nenhuma figura pública que precisa de segurança, certo? - Hachiman comentou, mas foi ignorado enquanto a disputa continuava feroz.

O treinador, aparentemente alheio ao subtexto do jogo, apenas incentivava o entusiasmo da turma.

Yukino finalmente conseguiu um lance certeiro, acertando Saki no ombro. A bola quicou no chão, marcando sua eliminação. Yukino deu um pequeno sorriso de satisfação, mas disfarçou rapidamente ao perceber os olhares do time adversário.

- Que jogo emocionante. - Hachiman murmurou para si mesmo, observando as jogadas como se estivesse assitindo a um teatro absurdo de ação. Ele suspirou profundamente, pensando que aquele era apenas mais um capítulo no caos interminável da sua nova vida.

***

Durante o intervalo, enquanto Hachiman tentava se manter fora do caminho de qualquer um que estivesse jogando bola com entusiasmo demais, ele viu um rosto familiar se aproximar. Era Saika Totsuka. Seu coração disparou. "E se o feitiço o afetou também?" Ele pensou, sentindo uma onda de pânico e ansiedade.

Saika sorriu gentilmente, como sempre fazia.

- Hachiman, você está vem? Você parece um pouco distraído hoje. - Sua voz era suave e preocupada, mas não havia nada de estranho ou exagerado em seu tom. Era apenas o mesmo Totsuka de sempre.

Hachiman soltou o ar, tentando avaliar a situação e não parecer tão... Inquieto.

- Ah, sim. Estou bem. Só... Com muita coisa na cabeça, eu acho.

Saika inclinou levemente a cabeça, com seus olhos cheios de interesse e empatia. Hachiman sentiu seu coração acelerar. Será que agora viria alguma coisa?

- Certifique-se de descansar depois. Não é bom se forçar demais. Se você precisar de ajuda ou de alguém para conversar, é só me chamar, tudo bem?

Hachiman sorriu pela primeira vez naquele dia, sentindo um misto de alívio e surpresa. Ele não tinha certeza se o feitiço afetaria Totsuka também, mas aparentemente estava tudo normal. Ele continuava sendo gentil e amável, como sempre. Era uma anomalia na confusão que o rodeava, e ele não sabia se ficava feliz ou mais confuso.

- Obrigado, Totsuka-Kun. Vou lembrar disso. - Ele respondeu, genuinamente grato pela interação normal.

Saika sorriu novamente antes de voltar para a quadra. Hachiman o observou por um momento, tentando entender como ele mesmo se sentia sobre tudo o que estava acontecendo. Totsuka sempre fora gentil com ele, mesmo quando ninguém mais era. Será que Hachiman estaria diante de um amigo de verdade?

Novamente, ele sorriu, se sentindo bem com a ideia.


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