O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 8

  Quando a aula de Educação Física finalmente terminou, Hikigaya Hachiman suspirou aliviado. Ele entrou no vestiário, deixando a confusão e a disputa absurda para trás. Enquanto tomava banho, a água quente escorrendo sobre ele, sua mente começou a vagar, como sempre fazia em momentos de silêncio.

"Por que isso me incomoda tanto?" Ele se perguntou, esfregando o rosto. Era impossível ignorar o caos que o cercava desde que comeu aquele doce, porém, ainda maior era o caos que estava dentro de si.

 Ele suspirou.

 Hachiman não queria admitir, mas, no fundo, gostava da ideia receber toda aquela atenção. Mais do que gostar, era algo que ele queria e ansiava em seus desejos mais profundos. "Uma garota que realmente se importasse... Não, não precisava que fosse praticamente a escola inteira. Uma só, que tivesse um sentimento genuíno, seria mais do que suficiente."

Porém, a essa altura, Hachiman já tinha aceitado que não poderia ter algo assim, nem nada minimamente parecido.

 Ele já havia sofrido rejeições, e sabia que não era do tipo que atraia olhares ou cativava as pessoas, mas não era isso que realmente o perturbava.

 Para ele, romance sempre pareceu um teatro. Algo que as pessoas faziam para preencher um vazio, para evitar encarar a verdade desconfortável de que estavam sozinhas. Apenas algo composto pela conveniência e pela superficialidade da situação.  Pessoas frívolas, que não aguentam enfrentar a solidão, projetam seus desejos em outra pessoa que fará o mesmo com elas, e quando isso não for mais satisfatório para o casal, acaba, sem restar nada além de uma dependência estúpida. 

 E mesmo agora, que todas as garotas com quem Hachiman convive estão demonstrando paixão por ele,  ele não consegue tirar da cabeça que isso não passa de uma farsa de um feitiço bobo. 

 Nenhuma dessas garotas jamais sentiria nada por ele de verdade. Nunca sentiram, por que sentiriam agora?  Por isso, ainda que ele se sinta lisonjeado por receber flertes, cartas de amor, convites para encontros e todo o tipo de demonstração de interesse, essa sensação não é mais forte do que a consciência amarga de que é tudo falso. Tudo uma ilusão de uma bruxa idiota que acha pode ensinar amor próprio para ele.

"Não importa." Ele desligou o chuveiro, enxugando-se rapidamente antes de trocar de roupa. "Eu não sou o tipo de pessoa que vai conhecer o amor." A vida continuava, mesmo que ele preferisse que não.

***

 De volta à sala de aula, ele estava cansado. Queria que tudo aquilo acabasse logo. Mas isso, é claro, era pedir demais. Assim que entrou, viu Yui e Yukino discutindo novamente perto de sua mesa. Outras colegas também estavam por perto, lançando olhares furtivos para ele, e a atmosfera parecia mais carregada do que nunca.

— Hikki, você vai almoçar com a gente hoje, né? Eu trouxe algo especial! — Yui disse, segurando uma lancheira decorada com cuidado.

— Não seja tão insistente, Yuigahama-san. Tenho certeza de que Hikigaya-kun não gosta de ser pressionado, assim ele pode decidir melhor se prefere ir conosco ao invés de almoçar sozinho novamente. — Yukino respondeu, cruzando os braços e lançando um olhar estranhamente suplicante para Hachiman.

 Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, outra colega de classe, que raramente falava com ele, se aproximou com o rosto corado.

— Hikigaya-kun, eu... Eu acho que gosto de você! — Ela disse de forma abrupta, estendendo um pequeno bilhete nas mãos. — Por favor, me dê uma chance e saia comigo!

 Hachiman congelou. Ele olhou para ela, depois para Yui e Yukino, que pareciam prestes a explodir, e sentiu uma onda de pânico crescendo em seu peito. Ele tentou novamente dizer alguma coisa, mas outra garota se aproximou.

— Eu também gosto de você, Hikigaya-kun! Sempre gostei, mas não tive coragem de dizer antes. —  A segunda garota confessou, com seu tom cheio de emoção. — Por favor, escolha a mim.

— Não, escolha a mim! — Uma terceira garota exclamou.

 As declarações começaram a se multiplicar. Garotas que ele mal conhecia ou nunca havia trocado mais do que algumas palavras começaram a confessar seus sentimentos, uma após a outra. A sala parecia um palco de teatro, com Hachiman no centro de um espetáculo que ele não queria protagonizar.

— Isso não pode estar acontecendo... — Ele murmurou para si mesmo, recuando até encostar as costas na parede. Suas mãos suavam, e seu coração batia rápido. O que deveria ser uma comédia absurda estava se tornando algo aterrorizante.

Yui e Yukino, ao invés de se preocuparem com as confissões das outras, começaram a argumentar ainda mais alto entre si, cada uma tentando se colocar como a "melhor escolha" para ele.

— Hikki! Você não não pode simplesmente ignorar tudo o que a gente passou junto! Eu sempre estive do seu lado! — Yui protestou, a voz carregada de emoção. — Eu não tive coragem de dizer antes, mas estive guardando o meu primeiro beijo para você! 

— E eu estive sempre desafiando você a ser melhor, Hikigaya-kun. Só alguém que realmente se importa faria isso. — Yukino rebateu, mantendo sua postura firme, mas claramente desmoronando aos poucos em uma expressão vulnerável. — Eu percebi desde o começo que você se sentia mal consigo mesmo, por isso quis incentivar que você sentisse orgulho de si. 

— Escute, Hikigaya-kun. Eu não me importo que você fique com outras garotas. —  Uma das outras garotas disse, com uma expressão corada que beirava o desespero. — Desde que me dê um pouco de você também. 

— A mim, você pode usar como quiser... Eu não me importo. —  Outra disse, se aproximando.

 Hachiman sentiu um nó se formar em seu estômago. A intensidade do feitiço parecia estar aumentando a cada segundo, e ele não fazia ideia de até onde isso iria. Ele precisava de uma solução, e rápido. 

 Uma garota tentou segurá-lo pelo braço, e, seguindo o exemplo dela, todas as garotas começaram a avançar ao mesmo tempo contra Hachiman, tentando pegá-lo e agarrá-lo. Mas ele foi mais rápido, e correu pela porta o mais rápido que pôde.

***

Hachiman sentiu o pânico tomar conta de si enquanto corria pelos corredores da escola. O som dos passos apressados e gritos de súplica atrás dele ecoavam como um lembrete constante de que ele não podia parar. As garotas o perseguiam, e ele precisava achar um jeito de despistá-las. Sua mente trabalhava rapidamente, buscando qualquer canto seguro ou atalho que pudesse usar.

 Ao virar um corredor, uma voz conhecida, suave, mas carregada de malícia, chamou seu nome:

— Hikigaya-kun, que coincidência. Entre aqui! —  Era Haruno Yukinoshita, irmã mais velha de Yukino. Ela estava parada na entrada de uma sala vazia, sorrindo enigmaticamente.

Sem alternativas melhores, ele aceitou o convite, entrando na sala e fechando a porta atrás de si. Ele respirou fundo, tentando recuperar o fôlego, enquanto Haruno trancava a porta com um clique audível. A ideia de estar temporariamente seguro o fez relaxar por um momento, mas ele não conseguia ignorar o desconforto que crescia em sua mente.

—  Parece que você está em apuros. —  Ela comentou casualmente, inclinando-se para trás contra a porta, o sorriso ainda presente em seu rosto.

Hachiman a olhou com desconfiança. Apesar de o ter salvo, a presença de Haruno na escola era absurda de tão estranha.

—  Por que você está aqui, Haruno?  O que você...? — Ele deixou a pergunta no ar, sem saber como terminá-la.

 Haruno deu de ombros, pondo os braços para trás e caminhando lentamente em direção a ele.

— Eu senti que deveria estar aqui. Estranho, não? Mas parece que foi a decisão certa. — Sua voz tinha um tom perigoso, e Hachiman começou a sentir que havia caído em uma ratoeira.

— Olha, acho que eu devia tentar achar outro lugar para me esconder... — Ele disse, tentando se direcionar para a porta, porém, Haruno se pôs à sua frente.

— Não se preocupe, Hikigaya-kun. — Ela sorriu enquanto corria seus olhos por Hachiman. — Você está seguro... aqui comigo.

— Seguro? — Hachiman levantou uma sobrancelha. — Você soa tão convincente. Assim como faz todo o sentido você aparecer aqui bem quando essa confusão está acontecendo. — Completou, com sarcasmo.

— Ah, e quem disse que precisa de algum sentido? — Haruno disse enquanto abria seu casaco. Ela parecia que tinha acabado de chegar da rua, usando uma roupa de frio com sobretudo, vestido curto e meia calça.  — Digamos que eu apenas senti uma vontade forte de aparecer para dar um "oi".

— Na escola? No meio da aula? 

— Me pareceu interessante. —  Ela disse naturalmente, se aproximando e deixando o casaco cair no chão. — Claro, eu tinha outra ideia em mente. Algo como sugerir que você matasse aula para ir comigo a algum lugar. Mas acabou que consegui uma situação muito mais conveniente.

Hachiman deu um passo para trás. Estava claro que Haruno também estava enfeitiçada. Ela estava cercando ele, com seus olhos brilhando com algo que ele não conseguia identificar. Parecia que estava vendo o fundo da alma dele. Antes que ele pudesse reagir, ela deu mais um passo, encurralando-o contra a parede. Suas mãos agora brincavam com os botões de sua camisa, abrindo um a um e revelando a fenda dos seus seios.

 Hachiman tentou escapar, mas Haruno o bloqueou com um braço, o prendendo de vez no canto da sala.

— Sabe, Hikigaya Hachiman. —  Ela falou, com o rosto muito próximo do dele. —  Eu nunca senti algo assim antes. É tão... intenso. Como se eu precisasse estar perto de você. — Sua voz era baixa e sedutora, e o sorriso dela se tornou ainda mais afiado. — Como se eu precisasse... sentir você.

  Haruno aproximou mais o rosto, fazendo Hachiman sentir sua respiração quente em suas bochechas. Ele congelou, suas mãos suando enquanto tentava encontrar uma forma de escapar daquela situação.

— Haruno-san, isso... Isso não parece certo. — Ele conseguiu dizer, sua voz saindo insegura enquanto tentava inutilmente afastá-la.

—  Quem se importa com o que parece certo? — Ela sorriu, com um olhar carregado de desejo. — Você é tão cheio de receios, Hikigaya-kun. Talvez devesse se abrir para uma experiência nova, não acha?

Ela segurou firme a gola do casaco de Hachiman, garantindo que ele não escaparia, e aproximou seu lábios dos dele. Mas quando estava prestes a beijá-lo, a porta foi arrombada com um estrondo.

Uma multidão de garotas invadiu a sala, liderada por Yui, Yukino e até Iroha havia aparecido. Ambas pararam, chocadas com a cena diante delas.

— Onee-chan! O que você pensa que está fazendo?! — Yukino gritou, seu rosto vermelho de raiva.

— Parece que alguém está tentando trapacear para ficar com o Hikki! — Yui acrescentou, a voz cheia de indignação.

— Saia de perto do meu Senpai imediatamente, sua predadora sexual! — Iroha saiu do meio da multidão, apontando para Haruno.

 Haruno apenas riu, dando um passo para trás, mas mantendo seu ar despreocupado.

— Ora, ora. Que reação exagerada. Eu só estava tendo uma conversa particular com Hikigaya-kun. —  Ela disse, com um tom provocativo.

 A sala mergulhou em caos enquanto as garotas começavam a discutir entre si, todas tentando se justificar. Hachiman ergueu as mãos, pedindo silêncio.

— Parem! Todas vocês! — Ele gritou, sua voz ecoando pela sala. Quando o barulho diminuiu, ele respirou fundo, sentindo a pressão do momento. — Olhem o que vocês estão fazendo! Isso é loucura!

As garotas trocaram olhares umas com as outras, como se tentassem avaliar se Hachiman estava certo.

— Eu sei que vocês devem estar tendo um sentimento muito forte, mas isso não é real! — Hachiman explicou com firmeza. — Isso é só o efeito de um feitiço idiota. Nenhuma de vocês faria nada disso se estivessem normais. Vocês tem que entender isso e parar! Parar agora!

 Alguns murmúrios começaram a soar entre as garotas, questionando o que Hachiman disse.

— Não é verdade, senpai. — Iroha disse.

— O que eu sinto é real. Sei que é. —  Outra garota emendou.

—  Eu... Eu amo você, Hikki... —  Yui disse, com lágrimas nos olhos, fazendo outras garotas dizerem o mesmo.

— Eu te amo, Hikigaya-kun! — Yukino disse.

— Eu também te amo! — Iroha também disse.

— Eu também. — Outras também começaram a dizer.

— Não, não, NÃO! —  Hachiman insistiu. — Vocês não me amam! Vocês não podem me amar! — Ele hesitou, baixando o rosto, sentindo que seu coração não suportaria aquilo. — Vocês não podem porque eu não sou amado por ninguém... Eu não mereço amor.

  As palavras saíram antes que ele pudesse controlá-las. As garotas ficaram em silêncio, chocadas. Hachiman soltou o ar de seus pulmões, como se finalmente tivesse vomitado a maior amargura do seu coração. Ele manteve seu olhar abaixado, sem saber o que esperar.

 Silêncio...

 De repente, uma a uma, as garotas começaram a falar, tentando convencê-lo do contrário.

— Senpai, eu... eu gosto do jeito que você sempre tenta ajudar as pessoas, mesmo que não perceba. — Iroha disse, sua voz cheia de sinceridade.

— Eu sempre achei você bonito, Hikigaya-kun. —  Outra garota confessou, corando profundamente.

— Sua frieza... é algo que admiro. Você não se deixa levar facilmente. —  Uma terceira acrescentou, seu olhar determinado. 

Yui deu um passo à frente, sua voz tremendo levemente.

— Hikki... gaya-kun. — Ela riu da propria timidez. — Desculpe por sempre te chamar assim, mesmo sabendo que você não gosta.  Eu gosto de você porque você sempre esteve aqui para mim. Mesmo quando não era obrigado a estar.

 Yukino olhou diretamente nos olhos dele, sua expressão mais suave do que ele já havia visto.

— Hikigaya-kun, você me desafiou a ser uma pessoa melhor. E eu... eu quero fazer o mesmo por você. — Ela sorriu, cheia de sinceridade.

As confissões continuaram, cada uma mais sincera do que a outra. Algumas garotas choravam, outras pareciam aliviadas por finalmente se abrirem. Hachiman sentiu sua mente girar. As palavras delas ecoavam em sua cabeça, fazendo seu coração apertar.

— Vocês todas... Estão dizendo a verdade? — Ele hesitou, sentindo que ia desmoronar a qualquer momento.

— Sim.

— Claro que é.

Todas confirmaram, sorrindo cheias de satisfação.

Hachiman soltou um riso leve, sentindo lágrimas em seus olhos.

As garotas, ao perceberem, começaram a falar todas ao mesmo tempo novamente, trazendo de volta o caos. Ela começaram a discutir e voltaram a se aproximar para agarrar Hachiman sob o pretexto de consolá-lo.

Hachiman estava emocionado, mas sabia que ainda não estava seguro. Ele precisava agir.

Sem pensar, ele se virou para a janela atrás de si. Sem hesitar, abriu-a e pulou, deixando a sala para trás.


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