O Feitiço de Hikigaya - Capítulo 9
Hikigaya Hachiman caiu com um estrondo em um latão de lixo. A aterrissagem, embora inesperada, foi amortecida pelo conteúdo macio — e fedorento — do recipiente. Ele se levantou rapidamente, limpando os resíduos da roupa e ignorando a dor leve nos joelhos. Seu coração ainda batia rápido, mas sua determinação estava clara. Ele sabia o que precisava fazer.
— Isso tem que acabar agora! — Ele murmurou para si mesmo, enquanto se afastava da escola e seguia em direção a pessoa que começou tudo aquilo.
A tarde anterior estava gravada em sua mente, e ele sabia exatamente onde encontrar a garota. Era hora de dar a resposta que ela queria ouvir.
Ao chegar ao parque, naquela região mais remota onde quase não havia ninguém, Hachiman viu o carrinho de doces encostado na mesma árvore enorme. A garota estava lá, sentada no chão enquanto escovava seu rabo felpudo, como se estivesse esperando por ele. Suas orelhas de gato balançavam alegremente a cada escovada.
— Ah, Hachiman Hikigaya. Eu tinha certeza que você voltaria antes do que eu poderia imaginar. — Ela disse, com um tom risonho ao voltar seus olhos para ele.
Ele parou a alguns passos de distância, respirando fundo antes de falar.
— Eu voltei porque... Acho que entendi o que você quis dizer.
— Entendeu? — Ela se levantou, batendo a mão em sua saia para tirar a poeira e alguns pelos provenientes de sua escovação. — Que interessante, mas o que você entendeu, oh, cavaleiro do cinismo?
Hachiman ignorou a ironia dela e explicou:
— Antes... Antes de tudo isso, eu sempre me vi como um... Indesejável. Alguém que as pessoas toleram por educação, não por vontade ou consideração. Eu sofri muitas rejeições no passado e tive que encarar a ideia de que não era aceito como eu era, o que me fez moldar minha personalidade conforme esta que se tornou minha verdade absoluta.
Os olhos da garota brilharam com algo entre alívio e curiosidade, com um sorriso alegre tomando conta de seu rosto.
— Hum, e o que mudou? O que você viveu?
Ele suspirou, tentando organizar seus pensamentos.
— Eu ouvi coisas que nunca imaginei ouvir. Todas aquelas garotas, que a princípio eu achei que só estivessem enfeitiçadas, falaram sobre mim com tanta verdade e sinceridade que... Me fez questionar tudo o que eu pensava sobre mim mesmo. Yukino, Yui, Iroha e até... pessoas que eu mal conhecia. Elas disseram que me admiram, que gostam do que eu sou pelo que eu sou. E isso... Bem, é incrivelmente difícil de se acreditar.
A garota soltou um riso breve, inclinando a cabeça e balançando suas orelhas.
— Por que é tão difícil acreditar que você pode ser amado?
Hachiman cruzou os braços, desviando o olhar.
— Porque não faz sentido. Eu nunca despertei outros sentimentos nas pessoas que não fossem repulsa, raiva, desprezo. Isso me fez ver o interesse e a conveniência que estão por trás das relações entre as pessoas. E chegar a conclusão que sentimentos como afeto e amor são... Ilusões.
— E ainda assim, estamos aqui. Elas disseram o que sentem, e nenhuma delas mentiu. E você está aqui, tentando entender o porquê. — A voz dela era tranquila, mas carregada de significado. — Como eu disse antes, o feitiço não fez nada além de trazer a tona o que já estava lá. Claro, sentimentos fortes fazem as pessoas agirem de forma exagerada e ás vezes dizerem ou fazerem coisas absurdas...
Hachiman corou ao lembrar das coisas que as garotas disseram antes de começarem a persegui-lo, ou de Haruno tentando seduzi-lo. Mas a garota continuou:
— Mas o que elas disseram sobre o que sentem veio do coração delas, Hachiman. Talvez seja a hora de você se permitir ouvir.
Ele ficou em silêncio por um momento, pondo suas mãos nos bolsos. Pensou em tudo o que havia acontecido. Cada palavra dita, cada olhar sincero que ele tentou ignorar.
— Eu... Acho que entendi. Mas ainda não sei o que fazer com isso.
A garota gato sorriu, dando um passo à frente e tocando levemente o ombro dele.
— Você não precisa decidir tudo agora. Apenas lembre-se: Você é suficiente. O amor não é uma competição, Hachiman, ele é uma escolha. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras ressoarem. — Eu vou desfazer o feitiço agora. Mas a verdade que ele revelou é algo que você ira carregar e absorver sozinho, e usar da forma que achar melhor. Você tem livre arbítrio, afinal.
Ele assentiu, sentindo um estranho alívio enquanto ela retirava o que parecia ser um peso invisível de seus ombros. Por fim, ela sorriu novamente, se afastando com seu carrinho de doces.
— Cuide bem do que você encontrou, Hachiman. Algumas pessoas passam a vida toda sem encontrar as respostas que procuram. — A garota sorriu e deu uma piscadela para Hachiman, enfim desaparecendo na distância.
Ele ficou parado ali por um momento, olhando para o redor e deixando o ar do parque espairecer sua mente. Pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu que o mundo não era tão pesado.
Quando chegou em casa, Hachiman estava exausto, mas havia um estranho senso de calma dentro dele. Ele abriu a porta e foi recebido por Komachi, que estava na cozinha, mexendo em algumas panelas.
— Oni-chan! Finalmente. Você demorou hoje. — Ela disse, com um sorriso despreocupado.
Hachiman parou por um momento, observando-a. A leveza em sua voz e a naturalidade de seu comportamento mostravam que ela havia voltado ao normal. Ele soltou um pequeno suspiro de alívio.
— É, hoje foi um dia cheio. Precisa de ajuda com isso? — Ele perguntou, apontando para o jantar sendo feito.
Komachi levantou uma sobrancelha, surpresa.
— Você está se oferecendo para ajudar? Quem é você e o que fez com meu irmão? — Ela brincou, mas deu espaço para que ele se juntasse a ela.
Os dois trabalharam juntos na cozinha, trocando suas provocações habituais e rindo. Rindo até mais do que o normal. Era uma cena agradável, e embora comum, parecia diferente para ambos, principalmente para Hachiman. Ele sentia que estava começando a entender algo importante sobre si mesmo e sobre as pessoas ao seu redor.
Depois do jantar, enquanto tomava um chá e olhava pela janela, ele sentiu o ar fresco da noite tocar seu rosto. Ele ainda tinha muitas perguntas, mas, pela primeira vez, não tinha medo das respostas.
"Talvez eu possa ser alguém que merece ser amado." Ele pensou, enquanto um pequeno sorriso surgia em seus lábios.
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