Preso às Telas
Dizer que estamos viciados em telas é praticamente um clichê. Vemos isso na TV, pelos jornais, dito por psicólogos, especialistas em saúde mental e, mais próximo de nós, por nossos pais e pessoas mais velhas.
Assim com aqueles discursos de que videogames fazem mal e que os mais jovens deveriam aproveitar mais o tempo curtindo um pouco de ar puro, esse aconselhamento soa cansativo e incompreensivo, como se quisesse nos separar da grande aptidão da nossa geração, que é a tecnologia, por ser muito diferente do que havia na juventude que eles tiveram em sua época.
Porém, ainda que haja essa diferença fundamental entre gerações, alguns aspectos da tecnologia realmente fazem mal, e quem é mais novo deve ficar atento a isso se não quiser ter problemas sérios quando ficar mais velho e tiver que lidar com problemas do mundo real.
Em matéria de criatividade, que é o que mais exerço no próprio momento em que escrevo, eu noto e comprovo o imensurável problema que é o consumo excessivo de conteúdo virtual por meio tanto de vídeos curtos quanto os mais longos também. O ato de assistir e consumir informações de uma tela é uma das grandes causas do deterioramento da nossa concentração, atenção e criatividade, já que suprime todas essas coisas em um estado quase hipnótico de passividade e absorção de informações inúteis.
Se você abre o Instagram, Facebook, YouTube, Twiter ou qualquer outra rede social, é quase certo que vai encontrar a área dos Reels, ou vídeos curtos. Esse pequeno formato de entretenimento, que foi criado por um aplicativo específico (TikTok) e depois adotado por todas as outras redes sociais, resume a nossa atenção em um tempo de um ou dois minutos e funciona como uma metralhadora de dopamina, nos deixando tão viciados no próprio formato que perdemos horas consumindo esses vídeos, mas nos tornamos incapazes de passar mais de cinco minutos prestando a atenção em algo que requeira mais tempo, como um livro ou mesmo um filme.
Para alguém que escreve, como eu, isso é catastrófico, pois prende a nossa atenção bem longe de onde realmente precisamos dela. Criar cenários, narrativas, personagens convincentes, tudo se torna impossível se não conseguimos prestar atenção neles, e ,a partir daí, não sobra nada além do desejo de continuar consumindo aquele conteúdo virtual.
Como apontou Stephen King no livro "Sobre a escrita", as telas (no caso, a televisão, já que o Iphone era apenas um sonho futurista na época em que escreveu essas palavras) são uma fonte incontrolável de distração, e se você quer se concentrar no ato de escrever, precisa aprender que ler é muito mais importante do que assistir.
Mas, claro, eu não vou ir tão longe e dizer que não podemos assistir nada. Na verdade, é essencial que a gente consiga manter a atenção por um período mais longo em coisas que exijam isso, como filmes, séries, desenhos, longas em geral. Querendo ou não, o audiovisual também faz parte da arte narrativa, então não podemos fugir dele como fonte de inspiração.
A questão é que, mais do que evitar as telas, devemos desenvolver o hábito de se entreter de forma construtiva, e isso muitas vezes pode incluir as próprias telas, dependendo de como as usamos. Do ponto de vista de escritor, o maior estímulo à criatividade é a escrita, e por muito tempo podemos não perceber. Quando nos sentamos para desenvolver uma ideia dentro de uma narrativa, acabamos tendo ideias que nem imaginávamos.
Eu não sou o maior fã do estilo de escrita de Stephen King. Não só no livro "Sobre a Escrita", mas também em todos os prefácios que já li de suas próprias histórias, ele pontua como o improviso escrito é o pilar principal da obra dele. Ele não cria um enredo, nem monta roteiro para suas histórias, apenas vai escrevendo e deixa a própria criatividade o surpreender. Desde a primeira vez que li isso, achei tão monumentalmente absurdo que deixei seus livros de lado por um tempo. Agora algumas coisas faziam sentido. Se a escrita dele às vezes era inchada demais e levava a finais absurdos e sem pé nem cabeça, era por conta dessa mentalidade, e esse não era o tipo de característica que eu queria nas minhas histórias. No entanto, mesmo planejando minhas histórias, eu esbarrava com problemas que o próprio Stephen King não tem.
King é o tipo de escritor que não conhece "bloqueios criativos". Ele escreve duas mil palavras por dia não importa o que aconteça, e independentemente de ter um resultado bom ou ruim. Já eu, por outro lado, passei por muitos bloqueios e muitas vezes parava de escrever porque achava que não estava bom o suficiente. E mesmo quando achava que estava bom, ao reler essas histórias recentemente, eu percebi que caí nos exatos pontos que eu via no Stephen.
Ou seja, mesmo que eu não goste, o o conselho dele sobre escrever com frequência e liberdade é essencial para a criatividade. Além disso, é essencial para a libertação das correntes dessa deterioração da atenção e concentração das telinhas.
Se, ao invés de gastar nosso tempo com vídeos curtos e consumo de informações inúteis a gente se familiarizasse com dinâmicas criativas e visse elas como divertidas da forma que são, teríamos um ganho duplo e infinitamente mais satisfatório do que o tempo perdido no mundo virtual.
É possível usar o mundo virtual para buscar ideias, ou fazer dinâmicas com as IAs (eu mesmo já fiz muitas com o ChatGPT, e recomendo bastante) e ter momentos que nos divertem com a criação e, ao mesmo tempo, nos ajudam a melhorar a nossa própria mente.
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