Revendo a Evolução (Textual)

 Na semana passada decidi rever dois dos livros que eu escrevi. Um deles estava completo (30 capítulos com aproximadamente 56 mil palavras) e o outro, a continuação do primeiro, estava parado na metade (15 capítulos com quase 70 mil palavras), e confesso que tive uma mistura de surpresa e compreensão depois de olhar algumas páginas. 

Eu peguei o gosto por escrever há uns 7 anos, quando me esforcei junto com uma amiga a criar um livro ilustrado sobre um desenho animado que a gente gostava na época. Ela e eu desenvolvemos o roteiro juntos, improvisando algumas ideias, e no final eu escrevi todo o texto, resultando em 9 capítulos de uma história relativamente boa, com leitores e comentários que chegam até hoje.

 Ela tinha ficado de fazer as ilustrações, porém, imagino que por bloqueio, acabou nunca fazendo, mas isso não atrapalhou o sucesso entre os leitores. 

 Os comentários, as aprovações e as revisitas que eu fiz a essa história posteriormente me deixaram muito orgulhoso do meu trabalho, e me incentivaram a continuar escrevendo.

 Eu segui a escrita como um hobbie e, junto com idas e vindas, bloqueios, falta de tempo e muita insistência, consegui chegar nesse momento, em que tenho algumas histórias escritas, outros projetos em andamento e uma confiança de que sou capaz de tirar tudo o que tenho em mente do papel.

Ou de pôr no papel... Você entendeu a metáfora.

Mas, mesmo assim, relendo esses meus dois livros (de uma saga que não posso comentar sobre os detalhes por ter um conteúdo... meio impróprio para a maioria das pessoas) eu percebi que realmente tinha pouca noção de como articular uma narrativa tão grande.

Até criar a história desses livros, eu só tinha escrito aquele de nove capítulos, e nunca tinha sequer dedicado um tempo a escrever contos e outras histórias mais curtas e fáceis. Eu estava com um hiperfoco em algo, e tive a ideia de escrever uma trilogia sobre isso, e nada é mais saudável para um escritor iniciante do que fazer uma verdadeira odisseia de trabalho assim.

Eu simplesmente não tinha noção, mas também, que criatura com hiperfoco tem? 

Foi desgastante, estressante e pouco recompensador? Foi. Mas pra mim valia a pena pela qualidade do texto. Eu sempre dizia a mim mesmo que tinha orgulho do meu trabalho literário, porque eu gostava e quem lia geralmente também gostava, então eu estava em um caminho certo, não é?

 Bem... Mais ou menos.

 Esses livros, em especial o primeiro deles, tem um péssimo equilíbrio entre divagações e narrativa. Os personagens principais, que narram os acontecimentos, pesam demais, pensam demais e se explicam muito mais do que seria aceitável em uma história, o que deixou a narrativa lenta, para não dizer estagnada.

 Claro, existem histórias cujo a lentidão faz sentido pelo tema e pelo contexto, mas elas presumem uma recompensa por isso no final dela, para que o leitor sinta que valeu a pena. Mas esse não é o caso da minha história. São trinta capítulos, 56 mil palavras, e o casal não fica junto no final. 

 Quero dizer, eles nem sabem que se gostam. 

 A história foi sobre a origem de um sentimento, não a revelação dele, e nem me ocorreu nessa época que isso era uma ideia ruim. Bem, talvez não fosse. Relendo o roteiro da história, a estrutura parece bem cativante, mas a forma como eu executei não valorizou isso. E se eu quiser que valorize, você já pode imaginar, vou ter que cortar e refazer muita coisa.

 Já no caso do segundo livro, a qualidade melhorou bastante. É fácil notar a minha evolução de um para o outro. A narração é mais dinâmica e focada em acontecimentos, os diálogos são divertidos e os personagens são carismáticos, com um destaque para o casal principal, que realmente tem uma química interessante. Tudo parece um grande UP do que fiz no primeiro livro, até o tamanho dos capítulos, que apesar de maiores, conseguem ser cativantes e te prender até o final. No entanto, os principais problemas do primeiro livro permaneciam. Em menor grau, mas ainda estavam lá.

 Os personagens refletem demais. A narrativa em primeira pessoa é recheada de exposição e explicações dos próprios sentimentos e porque as coisas são como são. Essa parte de um texto é chamada de digressão, que é quando o autor sai do foco da narrativa para falar sobre outra coisa, mesmo que seja sobre a própria história, e quando isso acontece, é como se a história sofresse uma pausa, interrompendo a sensação de dinâmica.

 Isso não é necessariamente ruim. As digressões podem servir de alívio em uma história que é muito frenética, ou podem aprofundar os personagens em momentos mais contemplativos, porém, saber equilibrar a digressão com a narrativa é o que separa um bom escritor de um escritor medíocre.

 Nesses dois livros, eu acabei caindo no segundo caso, mas acredito que eu tenha melhorado bastante da época que escrevi para hoje em dia, e ainda posso voltar para corrigir esse problema, a questão é se vale a pena o trabalho.

 Essa história tem um valor sentimental para mim. Foram escritos em uma época complicada da minha vida e traziam, através dos comentários dos leitores, uma sensação de que eu tinha talento em algo e estava entretendo quem se dispunha a ler. Mas apesar de eu querer terminar essa saga, ou pelo menos o segundo livro, eu acabo vendo ela como parte do que não sou mais. 

 Eu tenho outra visão sobre escrita hoje em dia, e dedicar meus esforços para um livro mais exclusivo, que não posso mostrar para todo mundo, não me parece mais tão recompensador.

Hoje eu quero que as pessoas vejam o que escrevo, e não quero pensar em motivos para limitar isso a certos nichos específicos.

Mas enfim...

 Eu ainda vou pensar mais sobre, mas, por enquanto, vou escrevendo para manter minhas mãos aquecidas.


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