Sozinhas no Celeiro - Capítulo 4
Enfim Amigas
"Diário de Bordo 004"
"Depois que Lápis e eu nos gravamos tocando a música Paz e Amor, fiquei me perguntando quando teríamos a oportunidade de mostrar a nossa cantoria ao Steven. Além de ter me esforçado muito para tocar aquele instrumento de cordas, eu estava ansiosa para contar como a presença de Lápis tornou a música ainda mais incrível."
"E para a minha surpresa, ontem Steven veio nos fazer outra visita rápida. Porém, nesse caso, ela foi realmente rápida. Ele, Pérola e o humano Greg pareciam estar apressados para viajarem para algum lugar. Então, nos dez minutos que tivemos a chance de conversar, eu dei ao Steven a fita demo da nossa música e ele falou que havia vindo aqui para me emprestar o video-game. Assim como disse que faria da última vez."
"Na hora eu não tive muita chance de perguntar mais sobre o aparelho, o Steven apenas explicou rapidamente que eu deveria conectar na TV e tentar alguns jogos que já vinham na memória. Aquilo me deixou um pouco confusa, mas, sabia que aquele aparelho não podia ser mais complicado que um ukulele ou um grão de feijão que não cresce."
"No final, antes do Steven ir embora no veículo terrestre, ele se corrigiu dizendo que eu poderia ficar com o video-game. Como o pai dele havia acabado de 'ficar rico', eles poderiam comprar outro."
"Com aquele dispositivo em mãos, eu fiquei imaginando o porquê dos humanos gostarem tanto de coisas desse tipo. Isso imediatamente me deixou curiosa para experimentar e ver o quanto era interessante. Steven havia contado que haviam jogos de naves espaciais, de detonar coisas e até de cozinhar. E já que eu estava curiosa para saber como era comer ou como era ser um piloto de nave, aquele video-game viria a ser uma revolução no celeiro."
"No entanto, como já deveria imaginar, eu acabei passando um tremendo trabalho para instalar aquele aparelhinho na TV. Tive que conectar fios e mais fios que não paravam de se embaraçar e, quando conectei, ainda demorei algumas horas até perceber que não tinha plugado nem o video-game nem a TV na tomada. Mexer com tecnologia humana pode ser um pesadelo às vezes. Mas, no fim eu consegui deixar tudo pronto para jogar."
"Ao experimentar aquele passatempo humano, ele se mostrou uma das melhores experiências que tive na terra. Além de me ajudar bastante na aproximação com minha colega de celeiro."
"Mas bem, já estou estendendo demais esse registro. Por hoje é só."
"Peridot desliga"
Confesso que depois de passar algumas horas brincando com aquela máquina humana, não tive como duvidar do porquê de ser um passa tempo tão viciante. Assim que consegui instalar o aparelho na televisão, a primeira coisa que fiz foi chamar Lápis para jogar comigo e me acompanhar nessa experiência nova. Como ela disse que não queria, eu já comecei a pensar que seria bem chato fazer aquilo sozinha.
Ledo engano. Eu fui testando alguns jogos que tinham na memória do aparelho e fiquei animada quando encontrei um que era de batalhas com naves espaciais. No mesmo instante eu me senti uma piloto veterana da frota espacial das Gems e me pus a jogar cheia de energia. Após passar por uma... duas... três fases, eu já havia mergulhado totalmente na trama do jogo, assumindo que estava em guerra com o tal "imperador Zorg, o terrível."
O jogo era fantástico de tão divertido e praticamente me fez fugir da realidade durante as partidas. Quando fui ver, já tinha chegado na fase nove e fazia mais de três horas que estava ali explodindo naves inimigas e aprimorando os meus canhões de ions. E logicamente eu não pensava em parar antes de vencer o terrível Zorg.
Uma vez ou outra na transição entre as fases, o Jogo fazia soar uma voz robótica do imperador me chamando de "guerreira rebelde que ousava desafiá-lo", ao mesmo tempo que dizia que iria me destruir sem piedade. Como eu estava bem imersa no jogo, não hesitava em responder dizendo em alto e bom tom que acabaria com ele e o império tonto dele. E em uma dessas épicas batalhas verbais, novamente Lápis apareceu de surpresa na porta do celeiro parecendo curiosa e meio preocupada.
– Eu ouvi alguém falando em destruir rebeldes – Disse Lápis olhando em volta – aconteceu alguma coisa, Peridot? Está se comunicando com Homeworld?
– O que? – Perguntei, distraída pelo jogo – Ah, não – pausei a partida e olhei para ela – É que estou brincando com esse aparelho que o Steven nos deu.
– Que aparelho? Essa máquina era quem estava ameaçando te explodir?
– Não... digo, sim – Respondi, perdida – Mas não é real, é como se fosse uma simulação. Você pega uma nave dentro do jogo e sai atirando nas outras.
– Hum... – Os olhos dela brilharam vendo a tela da TV.
– Você quer jogar também? – Perguntei
– Bem...– Lápis hesitou um pouco, talvez pensando em voltar ao seu isolamento –Ah, tudo bem, eu quero.
Ao ver aquela Gem sorrindo timidamente para mim, eu pensei em como aquela situação poderia terminar. A Lápis poderia gostar do jogo e finalmente nós iríamos nos entrosar, ou ela ficaria chateada ou entediada e voltaria para o silo. Embora esse pensamento tivesse me feito hesitar um pouco, eu logo o espantei dizendo a mim mesma que não deveria ter medo. Só não consegue algo quem não tenta e eu estava ansiosa para me divertir mais um pouco com Lápis.
Rapidamente, eu conectei o segundo controle no video-game e mudei o modo de jogo. Agora nós estávamos lá como duas naves lado a lado disparando contra as frotas sem fim do imperador Zorg. Lápis estava jogando muito bem e estava pegando o ritmo das fases mais avançadas, mas, tão logo nós chegamos na fase dez, a nave dela foi acertada e nós tivemos que voltar ao início dela.
As naves inimigas estavam vindo depressa e tínhamos que ter muito cuidado para desviar. Como eu já estava ágil nos movimentos do controle, foi bem fácil fazer todas as manobras evasivas, mas Lápis, depois de tentar chegar perto da minha nave para se proteger, acabou sendo explodida novamente. Nos vinte minutos seguintes, a lápis começou a assumir uma cor azul cada vez mais escura sempre que tinha sua nave explodida de novo.
Eu contei um total de quinze vezes até ali, e quando foi acertada pela décima sexta vez, não foi apenas a nave que explodiu. Lápis deu um urro de raiva e eu pude sentir algo como uma pancada na parede do celeiro. Era a água do laguinho que o Steven me ajudou a fazer que se chocou contra a madeira. Naquele mesmo instante, eu só pude ouvir algo escorregando da plataforma acima de nós e acertando a gem ao meu lado.
Um saco de serragem havia despencado com a batida e se rasgou ao acertar a cabeça de Lápis, que estava agora em pé ao meu lado, coberta daquele negócio. Dois sentimentos se acumularam em mim naquela hora, um desejo fortíssimo de rir e um medo de minha colega jogar a Televisão e o videogame no buraco da broca.
Para a minha surpresa, Lápis olhou para mim por um minuto e acabou rindo da situação, soltando um ou dois roncos entre as risadas. Eu deixei escapar as minhas risadas reprimidas também e continuamos jogando por mais algumas horas, jogando serragem uma na outra cada vez que alguém tinha sua nave explodida pela frota do Zorg.
***
Lápis e eu continuamos jogando por algumas horas e nos divertimos muito rindo e enchendo a cara uma da outra de serragem. Depois, quando cansamos de recomeçar o jogo várias vezes, nós paramos e combinamos que íamos voltar e terminar o jogo em um outro momento. Aquela era a hora de limpar tudo e relaxar um pouco.
Primeiro, nós pegamos uma vassoura e um balde para juntar toda aquela sujeira. Foi bem trabalhoso, mas quando terminamos, nem parecia que havia caído uma saca em cima da gente. Depois nós nos sentamos para ajudar a tirar a serragem do cabelo uma da outra. O da Lápis foi bem fácil, bastava passar a mão uma vez e agitar que tudo caia de uma vez. O meu já foi outra história, o meu cabelo é duro e a serragem havia entrado entre os fios como se fosse água. Basicamente, eu tive que esperar em posição de lótus enquanto minha colega apanhava farpinha por farpinha com as mãos delicadas.
Enquanto esperava, eu fiquei pensando em como estaria a mente de Lápis agora. A gente havia brincado e rido juntas, o quanto será que ela deve ter melhorado da angústia do trauma da fusão? Isso eu estava com medo de perguntar a ela, mas a própria Lápis acabou quebrando o gelo e abrindo espaço para esclarecer as coisas.
– É estranho ver como nos sentimos tão agitadas e animadas por uma batalha espacial que nem aconteceu – Comentou Lápis.
– Exato – Respondi – Quando o Steven me contou pela primeira vez sobre video-games eu pensei que eram algo sem graça ou propósito, mas jogando é como se mergulhássemos de cabeça em toda aquela ação, mesmo sendo de mentira.
– Mergulhar?
– É um modo de dizer. Quer dizer que você começa a sentir como se vivesse aquilo. Como se estivesse realmente competindo contra o Imperador Zorg e suas tropas.
– Ainda mais sabendo que você pode morrer e voltar para tentar tudo de novo – Disse ela com uma risadinha tímida.
– Sim – Ri também – E é bom sentir toda essa emoção, eu me senti uma verdadeira piloto das frotas de Homeworld.
– Eu também. Experimentar isso fez eu me sentir muito melhor, esquecer um pouco o que aconteceu.
– Lápis – Falei voltando o rosto para ela – Desde que começamos a morar juntas, você nunca me contou exatamente o que houve com você ou como se sente sobre tudo isso...
Lápis me olhou por um momento e hesitou, virando o rosto para o lado de repente.
– Tudo bem se não quiser falar sobre isso, mas talvez se eu entender... eu possa ajudar – Comentei tentando confortá-la.
– Acredite, você já está ajudando – Disse esboçando um sorriso leve e voltando a pegar os grãos de serragem no meu cabelo – Sobre o que houve, você já sabe de tudo. Não há muito o que saber. Eu fiquei presa no fundo do oceano por meses tentando manter a Jasper imobilizada. Só isso.
– Eu posso imaginar quanto mal isso te causou. Sei que não passamos muito tempo juntas antes de nos perdermos na queda da nossa nave, mas, para mim, é visível o quanto essa experiência te afetou. Depois de tudo, você parece que não sente nem medo nem alegria, apenas uma fraqueza ou cansaço que te impede de ter esperança ou alegria de novo.
– É difícil dizer exatamente o que sinto. Eu passei todo aquele tempo presa, sufocada, dando todas as minhas forças para manter a Jasper fora do controle. Era como estar agarrando uma criatura monstruosa enquanto nós duas éramos esmagadas por uma corrente fria, pesada e cheia de espinhos. A dor era tão penetrante e exaustiva que eu achava que iria me estilhaçar. Depois, quando Jasper tomou o controle, foi como ser jogada amarrada em um abismo escuro sem fundo. Naquele momento, o peso do oceano inteiro em cima de mim não me fazia mais pensar que iria morrer, me fazia querer isso mais do que tudo. Deixar de existir ali seria um grande alívio.
– Nossa... Agora entendo porque você não queria uma colega de celeiro.
– Não se importe com isso, Peridot. Na verdade, você até que é uma boa companhia.
– Valeu – Falei com um sorrisinho de alegria – Mas sabe, acho que eu poderia ajudar mais a você se sentir melhor. Tem tantas coisas incríveis na terra para experimentar e descobrir.
– O que quer dizer? – Indagou Lápis.
– Por que não fazemos isso juntas?
– Acho que seria muito bom – Lápis dessa vez não hesitou ou pensou muito. Ela simplesmente sorriu terminou de limpar o meu cabelo.
Eu não poderia estar me sentindo melhor, eu finalmente consegui quebrar aquela barreira que havia entre mim e Lápis. Por fim estávamos nos tornando verdadeiras colegas de celeiro. Isso me encheu de entusiasmo. Haviam tantas coisas que poderíamos fazer juntas, e pensar em não fazer mais elas sozinhas era ainda mais maravilhoso.
Enfim eu e Lápis nos tornamos amigas de fato.
<== Capítulo 3 - Capítulo 5 ==>
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