Stephen King

 Nessa semana eu terminei de ler o livro "Sobre a Escrita", de Stephen King. Um livro que é uma mistura de auto biografia, manual de escrita e aconselhamento literário.

 Stephen King é um autor peculiar. Eu já tinha ouvido falar dele desde que era criança, mas só fui me interessar de fato quando descobri que boa parte dos filmes de terror e suspense que eu gosto foram ou adaptados ou inspirados de alguma forma nas obras dele.

 Filmes ou séries como O Iluminado, A Coisa, Louca Obsessão, Sob a Redoma e Quarto 1408 fizeram parte da minha adolescência. Eu os mantinha naquela lista de "pelo menos, dar uma reassistida de vez em quando", e descobrir que todos eles tinham um autor em comum, me encheram de curiosidade sobre a obra do chamado "Mestre do Terror".

 De uma hora para outra, eu praticamente comecei a colecionar os livros dele enquanto ia lendo de pouquinho em pouquinho. Eu separei uma parte especial da minha biblioteca (estante) e até hoje ainda estão lá alguns volumes de A Torre Negra, o calhamaço do palhaço It, O Iluminado e sua sequência, Doutor Sono, entre alguns outros. No entanto, enquanto eu lia, confesso que acabei desanimando um pouco dessa ideia de colecionar.

 Embora Stephen King escreva muito bem, e não vou mentir, eu gosto de usá-lo para me inspirar a escrever, os seus livros não são tão bons quanto as adaptações para o Cinema. Na verdade, como acabei descobrindo, muitas dessas adaptações fazem mudanças significativas nas histórias dele, o que as deixam muito mais interessantes e dinâmicas, mesmo que o próprio King não goste nada delas.

 O Iluminado, por exemplo, um dos meus filmes de terror favoritos, usa apenas o conceito do livro original, enquanto conta uma história autoral e original ao estilo de Stanley Kubrick, o que torna a obra muito mais inovadora do que, por exemplo, a minissérie produzida pelo próprio Stephen King que adapta fielmente o livro.

 Podemos dizer que Stephen King é um escritor cujo as histórias se encaixam melhor no formato literário, mas mesmo assim tem vezes que acabam não funcionando muito bem. Alguns dos livros que deram origem a filmes que eu gosto bastante, como Louca Obsessão e It A Coisa, sofrem de um inchaço exagerado na escrita e se tornam, por conta disso, muito enrolados.

 Para se ter uma ideia, enquanto eu lia It A Coisa, ao chegar na página 500, achei estranho que, mesmo naquele ponto da história, o palhaço tinha aparecido apenas três vezes. O próprio chamariz da história mal aparecia, dando mais espaço a versões genéricas de monstros de filmes de terror dos anos 50 e 60. E quando fui reler recentemente, acabei parando no começo por conta do foco que o autor dá a personagens que não tem importância nenhuma.

 Só no começo da história, pelo menos três personagens que não vão ter aparição além dessa mesma no início, tem longos capítulos contando suas histórias de vida e perspectivas no presente da narrativa.

 Mas é claro que eu não posso condená-lo por esse detalhe. Na verdade, eu mesmo cometo esses erros. Como escritor, é inevitável. E não dá pra negar que as maiores contribuições de King para o terror são seus conceitos e premissas, que conseguem ser muito inteligentes e originais, mesmo que mal desenvolvidas nos livros. 

Como ele mesmo conta no livro "Sobre a Escrita", o método de escrita dele é improviso. Como escritor e autor, Stephen recomenda que não se use enredo ou roteiro para desenvolver uma história, já que isso a deixaria engessada. Ele se senta no seu escritório e não sai até escrever duas mil palavras por dia, independente do que saia, e, enquanto desenvolve uma história, apenas escreve capítulo a capítulo, descobrindo enquanto escreve como a história vai se desenvolver.

 Em assunto de continuidade, talvez isso funcione e gere um texto mais coerente, mas sobre desenvolvimento narrativo, gera problemas que muitas pessoas reconhecem nos livros de King. A desproporção em certas partes, dando atenção demais a coisas sem relevância, a falta de ritmo no desenrolar de certas situações e, principalmente, os finais, que acabam sendo muitas vezes decepcionantes.

 Esse último problema está diretamente ligado ao desenvolvimento narrativo de uma história, já que, quando se cria uma, todos os personagens e elementos importantes precisam de um "arco narrativo" bem elaborado, que é como se fossem mini histórias dentro da história maior. Jack Torrance, no filme O Iluminado, possui um arco claro: Ele é um escritor que está a procura de um emprego, e acaba sendo zelador de um hotel que fecha no inverno. Ele tem problemas de temperamento (o que se pode perceber pela própria cara do ator Jack Nicholson), e mais adiante descobrimos que também tem problemas com bebida. Ao longo do filme, ele vai sofrendo influência do ambiente do hotel até se fechar para sua esposa e filho, se isolando para tentar escrever seu livro e por fim enlouquecendo completamente. Existe um pano de fundo espiritual, que mostra uma presença mais clara da tal influência sobre Jack, e que finaliza com a morte dele, com ele (ou o espírito dele) ficando preso no Hotel, como mostrado na cena final.

Esse arco existe no livro, mas devido ao caráter improvisado da história, a progressão perde muita força, e o personagem parece que perde a sanidade de uma hora para a outra. E é exatamente esse problema que se pode perceber nos outros livros. Se não há um planejamento de enredo, não há um desenvolvimento coeso do arco narrativo, sendo apenas uma sequência de cenas que acabam pegando uma direção e, quando chega no final, parece repentino e insatisfatório.

 Bem, à essa altura você deve pensar que eu não gosto mais do autor e provavelmente desisti de colecionar os livros dele. Mas não é verdade. 

Honestamente, ainda acho muito inspirador ler suas obras. A sua fluidez narrativa se destaca e se diferencia de muitos autores, o que pode servir como um guia para você mesmo se direcionar como escritor (se essa for sua intenção). Pode não ser muito satisfatório sentir que uma história não vai pra frente ou que Stephen King não tem senso de ridículo (o conto dele sobre a máquina de passar industrial e o filme sobre os caminhões assassinos são provas disso), mas ainda assim há muito proveito em ler seus livros.


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