Shumisk Kingdon - Arcanos
Prólogo
A noite em Nauthor avançava devagar e tranquila, como sempre. O som das ondas quebrando na praia e a suave brisa marítima abraçavam a cidade de forma aconchegante, e corriam por suas ruas e vielas como água por entre as pedras de um riacho.
Dentro da baía, as torres fortificadas circundavam o entorno da costa e protegiam as docas, onde repousavam os barcos pequenos de pesca e os navios a vela dos mercantes e das Forças de Defesa. E logo atrás da areia branca da praia, diante da grande estátua de mármore do Navegador, a cidade se erguia em subida exibindo suas casinhas de arenito amarelo e os telhados avermelhados de cerâmica, com todos os caminhos levando ao topo do morro. Ponto em que se localizava a prefeitura.
A cidade não era uma das maiores, mas estava entre as mais importantes da República Humana, sendo sua ponte para os mares do sul. A bandeira marrom, branca e preta, símbolo da Nação dos Homens, era hasteada com orgulho tanto na prefeitura quanto nas docas e no Forte Militar, e flamulava grandiosa com o vento.
Denna observava atenta, enquanto caminhava pela muralha alta que protegia a cidade. Ela, uma soldada jovem com algumas condecorações por coragem das quais se orgulhava, estava acompanhando Terja, sua colega novata que se sentia feliz por ter finalmente sido aceita no batalhão, depois de treinar por dois anos da Academia Central das Forças de Defesa.
- Não sei como você consegue fazer a guarda assim todas as noites. - Comenta Terja, impaciente. - Nunca acontece nada aqui.
- Eu sei que é uma grande chatice. - Denna sorri para a colega. - Mas melhor isso do que ser mandada para caçar trolls ou ajudar nas plantações.
- Espera, caçar trolls? - A novata comentou com curiosidade. - Isso parece divertido.
- A ideia parece. Mas você tem que se enfiar nas tocas sujas deles, e quase sempre se acaba coberta de gosma. - Denna sentiu um arrepio cruzar sua espinha. - Eu não gosto nem de lembrar.
As duas riram.
- Você realmente já fez de tudo. - Diz Terja, admirada.
- Quase tudo que mandam um recruta fazer.
- Queria ter entrado antes para o batalhão. A minha família não parou de me cobrar até eu ganhar meu uniforme.
- Humpf, quando eu mostrei o meu pra minha irmã, só faltou ela surtar e sair pulando por aí. - Denna sentiu o vento de verão balançar seus curtos cabelos castanhos, e suspirou. - Ela não queria que eu virasse soldada, achava que seria mais seguro se eu trabalhasse nas construções de Thesapolus. Mas nunca deixou de me apoiar.
- Sério que ela queria que você trabalhasse nas construções? Você deve ter sido uma das mais novas prodígios a ser designada para cá. - Terja se voltou para Denna, abismada.
- É, mas eu entendo ela. A gente nunca teve um lugar seguro para nós. Sempre vamos ter medo de perder uma a outra.
- Bem, nesse caso... Não sei o que eu faria, se minha família se preocupasse. Ser soldado é realmente arriscado. - Terja ficou pensativa. - Estamos em um lugar tranquilo, mas se a República estivesse em guerra, seríamos mandadas pra linha de frente.
- Isso seria emocionante. - Denna sorriu. - E claro que seria perigoso, mas tudo é. Até ser construtora. Eu já vi tantos daqueles trabalhadores sendo atingidos por blocos de mármore ou caindo dos andaimes enquanto levantam aqueles prédios enormes. Mas sobre entrar para as Forças de Defesa, isso era um objetivo pessoal.
- Por quê?
- É complicado. - Denna olhou para a cidade de cima da muralha, vendo a quietude e tranquilidade daquele ambiente. Uma paz que ela sempre quis depois de perder seus pais. - Mas houve uma época que eu cheguei a pensar que nunca seria livre de novo. Eu e minha irmã estávamos presas, e acabamos salvas por uma coincidência. Foi a pessoa certa na hora certa, e ele se tornou minha maior inspiração.
- Um soldado, você diz?
- Sim, o mais famoso deles. - Denna continuou andando, sorrindo animada.
- Posso perguntar quem é? - Terja correu para alcançar a colega.
- Pode, mas eu prefiro não comentar. Todo mundo vivia na minha volta me perguntando dele em Thesapolus. Não preciso de tanta atenção.
As duas seguiram a guarda. Era uma noite agradável de verão. O céu estava claro, a brisa era fresca, e as poucas luzes acesas nas casas dos habitantes de Nauthor traziam um ar de conforto. Denna respirou e expirou, mas quando estavam quase chegando à torre do farol, Terja se encolheu por um momento.
- Nossa... - Ela puxou a capa sobre seus braços. - De onde saiu esse ar gelado?
Aquela brisa fresca de repente virou um vento frio, quase gélido, como se estivessem em pleno inverno.
- Que estranho... - Denna se voltou para o mar, se apoiando na mureta. - O que é aquilo?
Ao longe, na escuridão da noite, podia-se perceber uma densa neblina se aproximando da baía. Uma neblina tão reta que parecia uma parede em movimento, e que avançava rápido como se estivesse viva. Definitivamente não era normal.
O vento virou e se revolveu, fazendo sua capa esvoaçar, e um som sinistro fazer os ossos de Terja gelarem.
Um rugido baixo, mas perfeitamente audível, invadiu a cidade, vindo de dentro da neblina. Denna podia estar enganada, mas ela podia jurar que tinha visto algo se mexer em meio àquela névoa, e antes que pudesse sequer processar, ela viu, vindo direto em sua direção.
Um brilho flamejante avançou como um tiro certeiro em direção a torre do farol, que explodiu em um clarão de luz, atirando pedras e madeira incandescente para todos os lados.
Denna, por um reflexo ágil, puxou Terja para o lado para desviar de um tijolo de arenito que caiu e afundou o piso de madeira da muralha como se fosse apenas uma casca.
- Mas o que foi isso!? - Terja exclamou enquanto tentava localizar de onde aquela bomba aérea tinha vindo, mas no mesmo instante, mais duas esferas de fogo vieram em direção a cidade, depois mais três, depois mais cinco.
Elas acertaram as torres fortificadas nas beiradas da baía, depois a torre principal onde ficava o sino de alarme e o alojamento das Forças de defesa. A cidade brilhou em fogo e foi tomada por gritos de soldados feridos e pelo movimento desesperado para preparar o contra-ataque, mas não dava mais tempo.
Saídos da névoa, criaturas medonhas e imensas avançaram contra a cidade, cuspindo de suas bocas as esferas de fogo que agora eram lançadas contra as casas, fazendo as pessoas acordarem gritando de pânico.
Eram gárgulas. De pele que ia do cinzento até o negro, tinham asas gigantescas e deformadas, chifres curvados e olhos grotescos de um vermelho penetrante. Com corpos imensos e escamosos, eles atacaram diretamente as pessoas, que debandavam como formigas desesperadas ao mesmo tempo que ateavam fogo para cercá-las.
- Atenção! Reagrupar! - O tenente ordenou correndo em meio ao caos.
Um pelotão começou a subir a muralha portando seus arcos, enquanto outros montavam apressadamente as balistas, mas, assim que perceberam, dois gárgulas lançaram esferas de fogo contra esses soldados, que saltaram para escapar da explosão que destruiu as armas.
Denna correu ao encontro do tenente seguida por Terja. A novata estava assustada, mas se mantinha firme, já que sua colega parecia impassível. Denna estava determinada, eles precisavam defender a cidade.
Um grupo se juntou diante do tenente, que imediatamente começou a passar as ordens.
- Atenção! Precisamos mobilizar toda a guarda da cidade. Dantz, Szarto, toquem o sinal de emergência. - Ele apontou para os dois mais próximos. - O pelotão Beta, siga para o alojamento principal e vejam se há feridos. Pelotão Íta, desçam para a cidade e ajudem a evacuar os civis. RÁPIDO!
Os soldados se espalharam segundo seus grupos. Denna e Terja, membros do pelotão Íta, correram pelas rampas e abriram os portões da muralha, abrindo espaço para o caminho do forte militar, onde as pessoas poderiam se abrigar.
O som das cornetas de emergência soaram alto e ressoaram pela cidade, fazendo muitos que estavam próximos correrem direto pelos portões. Denna, ao perceber o que estava acontecendo, seguiu em meio ao incêndio que tomava conta da cidade.
- Denna, espera! - Terja gritou, correndo atrás dela. - Onde está indo?
- Esses monstros estão tentando cercar as pessoas. - Ela respondeu alto. - Temos que ir até a praça central.
- Mas como nós...? - Antes que a novata pudesse terminar a pergunta, um gárgula derrubou a parede de uma das casas e bloqueou o caminho de Denna, rugindo contra ela.
O monstro tentou avançar para golpeá-la com suas garras afiadas, mas Denna foi mais rápida. Ela sacou sua espada das costas e segurou o ataque, desviando as garras para o chão. O monstro atacou com a outra mão, e aproveitando a lentidão do movimento, ela saltou e deu um chute rotativo na face da criatura, a fazendo tombar para o lado e colidir contra a parede de outra casa, que desmoronou sobre ela.
Tão rápido quanto Denna se sentiu satisfeita por sua pequena vitória, outro gárgula surgiu atrás das duas, surpreendendo Terja. A novata se virou e saltou para escapar de um golpe das asas do monstro.
Terja respirou fundo. Não podia deixar o medo tomar conta de si. Ela também sacou sua espada, mas ao invés do monstro dar mais um golpe, ele abriu a boca e uma esfera de fogo começou a se formar.
Ela deu meia volta e correu em direção a Denna, que a guiou até perceber que o monstro ia disparar, e a puxou para uma viela lateral quando a esfera de fogo quase as alcançou.
- Vamos, depressa! - Denna chamou enquanto se levantava e puxava Terja. - Por aqui.
O gárgula estava procurando pelas duas, e começou a voar para encontrá-las, mas Denna tinha um plano.
As duas seguiram pelas vielas, virando cada esquina como se estivessem em um labirinto. Elas atravessaram ruínas e pularam sobre o incêndio como se não fosse nada. Terja olhava para sua colega a sua frente e ficava atordoada.
"Ela está louca! Não tem medo de nada!" A novata pensou.
As duas estavam no caminho da praça central, e quando chegaram, viram que o que as criaturas haviam vindo fazer.
Alguns gárgulas estavam arrancando pessoas de suas casas, mas sem matá-las. Outros já estavam voltando para o céu. Eles estavam levando pessoas com eles.
Um grupo grande de civis estava se acumulando na praça principal. O fogo já tinha tomado conta praticamente de todas as casas. Os gritos eram tenebrosos. Crianças choravam e outros suplicavam para que os monstros não levassem seus familiares embora.
Cinco deles estavam cercando o grupo. Seus olhos pareciam famintos e escolhiam quem eles iam levar.
Denna então observou e achou um caminho por onde as pessoas poderiam escapar. Só havia dois problemas. O fogo e o monstro que estava próximo de lá. Mas isso seria fácil de resolver. E a partir daquele caminho, que era a rua mais espaçosa, as pessoas poderiam, ou ir para o forte, ou se esconder em ruínas que não estavam em chamas.
- Vem comigo, Terj. - Denna chamou.
As duas subiram em uma casa e se esconderam na quina do telhado, tendo uma visão boa do caminho de fuga.
- Está com o seu arco aí? - Denna perguntou.
- Estou.
- Eu quero que espere o momento certo. - Denna pegou um pedaço de telha. - Quando o monstro virar, você tem que acertar os olhos dele, entendeu?
- Tudo bem. - Terja sacou seu arco e puxou uma de suas flechas.
Denna atirou o pedaço de telha, acertando nas costas do gárgula, e quando ele se virou, Terja disparou. A flecha voou como um raio e acertou a criatura no rosto, perfurando um de seus olhos.
O gárgula urrou de dor, e foi quando Denna aproveitou para avançar. Ela pulou do telhado em direção ao monstro e, com sua espada em mãos, correu pelo chão até esfaqueá-lo na perna, o fazendo cair. Em seguida ela enterrou sua espada nele, atravessando sua asa e afundando em suas costas. Ele estava fora de combate.
Ao mesmo tempo, Terja tinha entendido o plano, e correu para apagar as chamas daquele caminho. Usando sua capa, ela sufocou a chama de uma viga de madeira e a arrastou para o lado, enfim abrindo espaço para a fuga.
- Rápido, venham por aqui! - Denna gritou, e as pessoas começaram a correr o mais rápido que podiam para lá.
Os gárgulas perceberam a evacuação, e levantaram para o ar, voando por cima da multidão em pânico.
Denna e Terja se enfiaram no meio das pessoas, preparadas para deter o ataque das criaturas. Porém, os monstros já tinham escolhido. Dos quatro gárgulas que ainda estavam ali, dois avançaram e pegaram juntos mais quatro pessoas. Os outros dois pareciam mirar nas duas soldadas.
Um deles, olhando direto para Terja, começou a preparar uma esfera de fogo, mas, de repente, uma flecha vinda de trás das duas voou direto para dentro da boca da criatura.
O gárgula explodiu no mesmo instante, atordoando o outro que estava ao seu lado.
Denna olhou para trás e sorriu aliviada. O reforço havia chegado. Um pelotão das Forças de Defesa marchou em direção à praça central, auxiliando as pessoas a fugir. Alguns portavam arcos, e miravam diretamente no último gárgula.
O monstro os encarou e pareceu hesitar. Mas levou só um minuto para decidir o que fazer.
As flechas foram disparadas, mas o gárgula conseguiu usar suas asas para se proteger. Ele se jogou para frente e Denna e Terja se posicionaram. O braço do monstro avançou como uma rocha contra Terja e ela só conseguiu usar sua espada para se defender, sendo jogada para trás entre as chamas.
Denna tentou aproveitar para atacar, mas o gárgula foi rápido e segurou seus braços. Os outros soldados avançaram com suas espadas em mãos e os arqueiros dispararam de novo, mas de novo o monstro usou suas asas para se proteger.
- Me solta! - Denna se debateu o máximo que pôde, mas o monstro era muito forte. Ele levantou ela e a pôs em sua frente como um escudo humano, o que fez os soldados hesitarem. Eles tentaram se espalhar em volta do monstro, porém ele bateu suas asas ao ar. - Não!!! Me larga! - Denna gritou firme, mas não havia o que fazer.
O gárgula voou para o alto, mais rápido do que os arqueiros poderiam mirar. Eles tentaram atirar enquanto o monstro ficava de costas, e outros tentaram lançar cordas para laçá-lo, mas ele já estava fora de alcance.
Terja saiu da ruina onde tinha sido jogada, gemendo com a dor de queimadura em seus braços. Ela olhou para o céu e viu o gárgula indo embora com sua colega, seguindo os outros que levavam dezenas, senão centenas de pessoas, deixando para trás uma cidade arrasada, tomada pelas chamas e pela destruição desoladora.
A novata ficou sem chão. Não tinha conseguido protegê-la.
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