Gêmea de Fogo - Capítulo 1
A manhã nasceu tranquila na baía de Jump City. O vento marítimo corria suavemente pela cidade e o som matinal das gaivotas era a única coisa que ressoava em torno da ilhota onde ficava a alta Torre dos Titãs. O prédio em forma de T se erguia imponente e parecia tão calmo quanto você imaginaria uma casa em uma preguiçosa rotina de sexta-feira, no entanto, entre todas as coisas que estavam acontecendo em seu interior, o adjetivo “calmo” com toda certeza não se encaixava.
Da sala de treinamento, onde Robin treinava incansavelmente contra um simulador, era possível ouvir a desordem potencialmente destrutiva a qual o garoto prodígio já estava acostumado.
Era quase uma rotina. Tão logo os seus amigos acordam, o clima silencioso da manhã é tomado por discussões, provocações e risadas. Mas ainda que parecesse que não havia espaço para sossego naquele lugar, Robin sabia que era isso que tornava a torre viva e agradável de se viver. Bem melhor do que certa caverna onde ele havia crescido.
Alguns andares acima, onde ficava a sala comum, cada titã tentava aproveitar a manhã à sua maneira, como se aquele fosse apenas um dia de folga para eles. Ciborgue estava jogando videogame, com sua atenção completamente voltada para a tela da TV, enquanto Mutano tentava lhe dar uma pequena orientação de como vencer o vilão final.
— Escuta, Cyb — disse o garoto verde. — Se você usar o especial agora, consegue acertar o ponto fraco dele e boom! Você vence!
— Se você continuar falando no meu ouvido, é em você que vou usar um especial — Respondeu Ciborgue, com aquele ar que misturava brincadeira com ameaça velada.
— Amigos, vocês conseguem me ajudar com isso? — do outro lado da sala comum, na cozinha, Estelar estava separando alguns ingredientes ao mesmo tempo que tentava ler um livro de receitas terráqueas. — Aqui diz que eu tenho que misturar leite e farinha com ovos para fazer as panquecas. Mas na terra tem tantos tipos de ovos. Eu devo usar de pardal, serpente ou tartaruga?
— Arg! — Mutano pôs a língua pra fora. — Imagina panquecas com ovos de tartaruga.
— Com certeza o pessoal do meio ambiente não aprova — Ciborgue emendou, ainda concentrado no jogo.
— Bem, esse é o menor dos problemas — Mutano caminhou até Estelar. — Escuta, não precisamos usar ovos. Vamos fazer uma boa fritada de panquecas veganas.
— Ah, você pode me ensinar? — Estelar sorriu amavelmente, entusiasmada.
— Nem pensar! — Ciborgue gritou, desviando sua atenção do jogo. — Não vamos comer aquelas panquecas de tofu de novo.
— Você sabe como as coisas funcionam, Cyb — Mutano respondeu. — Temos que respeitar o rodízio da cozinha.
— É, e você fez essas panquecas anteontem. Vamos respeitar e deixar o… — A tela da TV anunciou um grande Game Over, interrompendo Ciborgue. — Ah, não! De novo?!
O grande robô deu um tapa na própria testa, fazendo Mutano soltar uma risadinha.
— Bem — o garoto verde deu de ombros. — Vamos pegar o tofu.
Nesse meio tempo, a porta principal da sala se abriu, revelando uma figura encapuzada que andava com passos rápidos e uma expressão de pouco bom humor. Ela olhou de canto para os outros e se dirigiu até a prateleira de livros do outro lado.
— Bom dia, Ravena! — Estelar cumprimentou alto, com sua animação no nível máximo. — Decidiu terminar a meditação mais cedo pra nos ajudar com o café da manhã?
— Não. É que tá fácil demais me concentrar com todo esse barulho que vocês estão fazendo — ela respondeu, sarcasticamente.
Ao chegar na prateleira, ela pegou um livro grosso que mais parecia um bloco de concreto e se sentou no sofá, folheando as páginas.
— Não se preocupe, Raie. Prometo que vou preparar uma fritada de tofu que vai até melhorar o seu humor.
Ravena ergueu seus olhos roxos do livro por um momento e logo em seguida voltou a ler.
— Prefiro comer cacos de vidro — respondeu, com sua voz carregada de impaciência.
— Talvez você devesse ajudar, Ravena — emendou Ciborgue, que havia voltado a jogar. — Quem sabe assim o café não fica menos estranho?
— Não quero tomar parte nesse campo de batalha em que estão transformando a cozinha — dessa vez, ela sequer ergueu os olhos, e continuou lendo enquanto Mutano novamente dava de ombros e voltava a separar os ingredientes para a primeira refeição do dia.
Aquela manhã estava se desenrolando com a bagunça que era comum para todos eles. Ravena tentava se concentrar em sua leitura, Mutano e Estelar pareciam que estavam prestes a pôr fogo em alguma coisa e, a certa altura, Ciborgue acabou desistindo do videogame, já que ele tinha percebido que aquilo definitivamente não ia melhorar o seu humor. Ele se levantou, olhou ao redor, e viu Robin entrar pela porta principal. Ele parecia cansado, mas com certeza não estava menos determinado que o normal.
— Ei, Robin. Já acabou o treino de hoje? — Ciborgue perguntou.
— Já, e eu também precisava vir conferir se a sala principal da torre ainda estava de pé — ele sorriu em tom de brincadeira e se voltou para os outros. — Vocês não explodiram nada ainda, não é?
— Claro que não. Você sabe que eu sou um dos mais responsáveis da equipe — Mutano respondeu, fingindo uma postura séria.
— Mais responsável por desastres, com certeza — comentou Ravena de seu canto.
— Acabamos de fazer um café da manhã híbrido de culinária terráquea e tamaraniana — Estelar declarou com orgulho, colocando no balcão uma travessa incrivelmente grande e cheia de panquecas no mínimo… exóticas.
Robin levantou uma sobrancelha e até Ravena ergueu os olhos do seu livro para espiar.
As panquecas eram verdes, com algumas manchas lilases e azuis, e tinham um tamanho descomunal, como se tivessem crescido mais do que o tamanho da própria frigideira. Elas pareciam inchadas e, embora Ciborgue achasse que fosse coisa de sua cabeça, podia jurar que viu elas se moverem sozinhas.
— Er… Estelar… — ele se aproximou. — É impressão minha ou essas panquecas estão “respirando”? — ele cutucou uma delas e um jato de vapor escapou por uma das manchas, o fazendo tomar um susto.
— Ah, isso é porque usamos algumas ervas de Nandrax — ela explicou. — Elas continuam liberando vapor e oxigênio mesmo depois de colhidas.
— Bem, acho que não custa experimentar, não é? Afinal é vegetariano — Mutano perguntou, um pouco envergonhado.
Ciborgue e Robin tentaram pensar bem no que responder, mas antes que pudessem, o alarme tocou, fazendo uma luz vermelha piscar na sala.
— Isso vai ter que esperar. Vamos! — Robin ordenou, já correndo para o hangar e sendo seguido pelos outros.
Ravena, por outro lado, apenas revirou os olhos e suspirou. Ela definitivamente não estava com energia para isso hoje, mas sabia que tinha suas obrigações, então fechou o livro e foi atrás da equipe.
*
No centro da cidade, o movimento matinal da rua de repente foi interrompido por uma explosão vinda de uma pequena lojinha acomodada em um vão entre dois prédios altos.
Os cacos de vidros da vitrine e destroços destruídos de produtos voaram pelo asfalto, fazendo as pessoas ao redor correrem de pânico. Dentro da loja, uma garota de olhos rosa vívidos, cabelos espetados para cima e trajando um vestido curto e largo de bruxa estava fazendo todos os itens das prateleiras voarem ao seu redor, como se fosse um tornado sob o seu controle.
Era Jinx, a feiticeira do azar.
Seus olhos brilhavam e um sorriso malicioso estava estampado em seu rosto.
— Isso é tão fácil — Ela disse, num tom irônico. — As pessoas nem sabem que tipo de coisa dá pra achar por aqui.
Ela puxou uma bolsa de tiracolo de sua cintura e a abriu, fazendo os itens começarem a cair dentro dela. Amuletos, caixas de ervas, livros, cristais, tudo desaparecia no interior da bolsa como se fosse um saco sem fundo.
Escondida atrás do balcão, a dona da loja, uma senhora pequena de idade, via tudo com um olhar de medo e indignação.
— Pare com isso! Essas coisas são muito perigosas! — ela gritou.
— Eu sei. — Jinx se voltou para ela. — Por isso que vou levar tudo.
— Não mesmo! — disse uma voz firme, que ela conhecia bem.
Diante da vitrine quebrada, Robin, acompanhado dos Jovens Titãs, já estava em posição de ataque, pronto para apanhar a vilã.
— A festa acabou, Jinx. — Ele apontou para ela. — Se renda agora e talvez possamos evitar um confronto.
Jinx olhou para o garoto prodígio com uma expressão irônica.
— E perder toda a diversão de derrotar vocês? Não mesmo! — ela provocou, em tom de desafio.
— Titãs, atacar! — Robin ordenou, e eles avançaram.
A feiticeira se posicionou e, usando um dos amuletos que pairava no ar, fez dois golens de pedra se erguerem do chão. Eles rosnaram alto e se puseram entre ela e os heróis. Quando eles se aproximaram, Robin foi o primeiro a ser atingido.
Ele puxou seu bastão para se defender, mas o soco do golen o fez voar para fora da loja.
Aproveitando a deixa, Ciborgue mirou seu canhão sônico no segundo golen, mas este simplesmente se jogou em cima dele.
— Ah, sai de cima de mim! — Ele tentou empurrar o monstro, mas este era muito forte e estava tentando imobilizá-lo.
O primeiro golen seguiu lutando com Robin, e os outros heróis focaram em Jinx, que já estava pronta para eles.
Estelar tentou jogar rajadas de energia contra ela, porém a bruxa desviava com uma facilidade dançante. A feiticeira então saltou por cima de Estelar e soprou um pó brilhante em seu rosto.
— Hã? O que é isso? — A garota tossiu, mas, ao olhar para os lados, ela viu uma escuridão crescente a cercar, como se fosse uma criatura monstruosa com dezenas de tentáculos tentando pegá-la. — AAAAA!
A tamaraniana gritou e voou para se esconder em um canto da parede, completamente tomada pelo medo.
Jinx pousou no chão com graciosidade bem a tempo para ver Mutano vindo em sua direção. O garoto verde se transformou em um imenso tigre e avançou contra a feiticeira. No entanto, ela tirou uma pequena garrafa de vidro da sua bolsa e girou o dedo no ar, conduzindo um brilho mágico.
Mutano mal pôde chegar perto dela quando foi atingido pelo brilho e sugado para dentro da garrafa. De repente, ele era uma miniatura de tigre, contido no pequeno frasco de vidro.
Ele rosnou e então voltou à forma humana.
— Ah não! Alguém me tira daqui!
— Vocês são tão previsíveis — Jinx zombou, e em seguida se voltou para Ravena, balançando a garrafinha em frente ao seu rosto. — Acho melhor desistir agora. Tem destinos ainda piores de onde veio esse.
Mas a empata se manteve séria.
— Você acha que pode me vencer só porque descobriu alguns truques novos? — Seus olhos brilharam em energia escura. — Ainda não viu nada. Azarath Metrion Zinthos!
De repente, todos os objetos que ainda estavam flutuando em torno de Jinx pararam, tomados pelo poder de Ravena. A empata movimentou as mãos rapidamente e os itens voaram contra a feiticeira, que teve que fazer movimentos rápidos para desviar.
Em meio a um salto, Jinx lançou um feitiço contra o teto da loja, que imediatamente rachou e caiu sobre Ravena, mas ela conseguiu ergueu um escudo acima de si e lançou as pedras para longe.
— Vamos acabar com isso! — Ravena então fez sua energia se expandir. Seus tentáculos negros avançaram e, sem que Jinx conseguisse se defender, capturaram a feiticeira e a prenderam em uma esfera mágica, em seguida a separando de sua bolsa de itens roubados.
— Ah, qual é? — Jinx protestou, frustrada. — Isso não é justo.
— Você que não entende tanto de magia assim. — Ravena estalou os dedos e os feitiços que estavam afetando seus amigos foram desfeitos.
Estelar recuperou sua compostura, Mutano saiu da garrafa, e os dois golens que estavam lutando contra Robin e Ciborgue desmoronaram, deixando ambos os heróis aliviados.
— Cara, eu nunca mais quero passar por um aperto desses — disse Mutano, sentindo um arrepio cruzar sua espinha.
— E eu acho que ainda vou ter pesadelos com essas sombras pelas próximas semanas — Estelar emendou, com um sorriso ao mesmo tempo feliz e perturbado.
— Muito bom, Ravena — Robin se aproximou. — Conseguiu pegar ela praticamente sozinha.
A empata se virou para ele com uma expressão neutra.
— Eu só não queria que ela tomasse mais do que isso do meu tempo — disse, indiferente ao fitar a feiticeira emburrada na bolha de energia.
*
Depois que a polícia chegou para levar Jinx, os Titãs já estavam se preparando para ir embora quando a dona da loja se aproximou.
— Muito obrigada, meus jovens — ela cumprimentou com um sorriso amigável. — Vocês não só salvaram essa velha senhora como também toda a cidade de um grande desastre — ela chacoalhou a bolsa de Jinx em sua mão. — Meus itens mágicos não são para qualquer um. Podem ser um risco imenso nas mãos erradas.
Os titãs se entreolharam, estranhando um pouco o fato de ela vender itens tão perigosos., mas Robin respondeu:
— Apenas cumprimos nosso dever. Não precisa agradecer.
— É. E depois, quem fez a maior parte do trabalho foi a Ravena, então é ela quem merece as congratulações — Mutano disse com graça, antes de levar um tapa na nuca da empata.
— Foi um trabalho em conjunto — Ravena explicou. — Se eles não tivessem me mostrado como Jinx estava atacando, eu não teria conseguido.
— Bem, eu sei que estão apenas fazendo seu trabalho, mas gostaria de recompensá-los assim mesmo — a senhora pôs a mão no bolso do seu avental antigo e se aproximou. — Aqui, espero que goste.
Ela retirou um punhado de doces do bolso e começou a distribuir entre os heróis.
— Ah, obrigado — Robin agradeceu, um pouco desconsertado ao receber o pequeno chocolate nas mãos.
— Valeu mesmo — Ciborgue não perdeu tempo e já desembalou e jogou na boca. — Uha! É muito bom.
Estelar praticamente saltou de alegria ao receber o dela e mutano também já foi comendo, mas quando a senhora chegou em Ravena, sua expressão mudou um pouco.
— Oh, minha pequena. Você não parece bem — ela fitou a empata com um olhar preocupado. — Aconteceu alguma coisa?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Está tudo bem — respondeu educadamente. — Mas acho que não vou querer um doce. Obrigada.
A velha mulher, no entanto, sorriu com uma certa ironia.
— Você diz que está bem, mas tem grandes dilemas dentro de si. Eu posso não enxergar muito bem… — ela ajeitou seus óculos de lentes grossas. — …mas posso ver que há algo que lhe perturba.
Ravena ficou intrigada e pensou em responder alguma coisa, mas a senhora continuou:
— Como o garoto verde disse, foi você quem prendeu aquela feiticeira delinquente no final. Então acredito que posso lhe dar algo para ajudar — ela pôs a mão de volta no bolso e retirou um estranho objeto, o alcançando a empata.
Ravena hesitou, mas pegou. — O que é isso? — ela analisou o objeto. Ele era circular, aparentemente feito de pedra e exibia uma imagem de fênix esculpida em um dos lados. Parecia um amuleto, com um cordão com o qual ela poderia pendurá-lo no pescoço.
— Oh, é algo muito especial — a senhora sorriu. — Vai ajudar você a encontrar o equilíbrio que procura.
Assim como os outros titãs, Ravena se sentiu ainda mais confusa. Ela fitou o objeto novamente e depois se voltou para a senhora, pensando seriamente em devolvê-lo, mas o olhar dela a fez não conseguir expressar nada além da dúvida silenciosa.
— Apenas espere, minha cara. No momento certo, este amuleto vai mostrar como funciona — então a senhora se virou e, pegando uma vassoura no canto, começou a varrer a loja destruída como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Estupefatos, os titãs ficaram observando até alguém se animar a dizer algo.
— Então… só eu achei que essa velhinha não bate bem? — Mutano perguntou baixinho, atraindo olhares reprovadores de todo mundo.
— Fica quieto, cara! — Ciborgue chamou a atenção, também dando um leve tapa na nuca do garoto verde.
— Vamos, titãs — ordenou Robin, finalmente. Ele se virou e saiu para fora da loja, seguido dos outros.
— Mas, espera! — Mutano se pôs na frente deles. — Vocês não estão curiosos pra saber o que esse amuleto que a Ravena ganhou faz?
— Independentemente disso, o amuleto é dela. Então ela deve descobrir — Robin ponderou, se voltando para Ravena, que ainda segurava o amuleto pendurado diante dos seus olhos, como se fosse um enigma a ser decifrado. Era um objeto simples, mas, para a empata, parecia irradiar uma energia forte, mesmo que desconhecida.
— Hein, Raie? — Mutano se aproximou, se colocando no campo de visão dela. — Não quer deixar a gente dar nem uma olhadinha?
Ela franziu o cenho, mas com um sorriso de canto.
— Eles, talvez, mas você? Com certeza não — ela respondeu, pondo o amuleto no bolso. — Não quero que perca ele.
E seguiu andando, fazendo os outros titãs rirem, menos Mutano.
— Ei! Não riam como se eu perdesse as coisas! — ele protestou.
— Claro que não perde — Ciborgue brincou. — Pelo menos não as coisas que estão parafusadas no chão, porque o resto… — e caiu na gargalhada.
— Você sabe que perder o videogame foi um acidente!
E eles voltaram para a torre entre provocações e risos.
*
— Então, pessoal. Que tal boliche? — perguntou Ciborgue. — Faz tempo que a gente não joga.
Os titãs estavam se reunindo na sala comum no final da tarde. Depois do ataque de Jinx, não houve mais nenhuma emergência na cidade, e como já era sexta-feira, havia praticamente um desejo no ar de sair para se divertir.
— Eu acho uma boa — comentou Mutano. — Ou podemos procurar alguma festa.
— Ah, eu estou com tanta saudade das festas terráqueas. Aquele ambiente escuro e a música alta realmente mexe com a gente — Estelar emendou, entusiasmada.
— Não sei, acho melhor não — Robin foi até a geladeira e pegou uma garrafa de água. — Sexta-feira é o dia em que mais ocorrem emergências. Devemos estar preparados se algo acontecer.
— Relaxa, Robin — respondeu Mutano. — A cidade não vai ser destruída se a gente relaxar um pouco.
— Talvez não — ele deu um gole na garrafa de água. — Mas devemos ficar alertas.
— Eu acho que merecemos uma noite nossa — disse Ciborgue. — A semana foi bem cheia e hoje nós prendemos a Jinx. Vai ser bom pra gente fazer algo diferente.
— Vamos, Robin! — Estelar se agarrou no braço dele. — Prometo que até você vai se divertir.
O garoto prodígio corou com a proximidade da alienígena. Embora quisesse resistir, acabou cedendo.
— Tudo bem — ele suspirou. — Vamos então. Mas só hoje.
Os outros comemoraram.
Do outro lado da sala, sentada no sofá, Ravena já tinha desistido de ignorar seus amigos. Ela estava cansada, havia chegado quase na metade do livro que estava lendo, e só queria ir para o seu quarto para talvez meditar um pouco.
O dia tinha passado rápido para ela, o que era bom, já que sentia que qualquer coisa fora da rotina poderia facilmente irritá-la. Ela fechou o livro e se levantou, fazendo-o flutuar de volta até a prateleira, e depois caminhou para a porta principal. Ela não queria ser chata, mas esperava ir para o quarto antes que os outros a convidassem para o passeio que estavam planejando.
— Ei, Raie! — Mutano chamou, fazendo a empata parar e bufar silenciosamente.
“Tarde demais.” Ela pensou.
— Você não quer vir com a gente? — Ele perguntou, animado.
— Tenho certeza que vai ser mais divertido se todos nós formos — emendou Estelar.
Ravena respirou fundo.
— Não, obrigada.
— Tudo bem — Robin intercedeu, já percebendo que o humor da empata não estava dos melhores. — Não precisa ir se não quiser. Vamos só nós quatro.
— Tem certeza? — Mutano insistiu. — Vamos. Vai ser divertido.
— Tenho — ela virou o rosto para ele. — Minha ideia de diversão não inclui jogar bolas em pinos ou me enfiar em algum lugar barulhento.
— Bem, e você tem alguma ideia de diversão, por acaso? Você nunca quer fazer nada com a gente, Ravena — Mutano provocou, fazendo os outros olharem os dois com uma certa apreensão.
— Eu quero o silêncio do meu quarto — ela respondeu tentando reunir o máximo de paciência que conseguia. — É tão difícil respeitar isso?
— Não, claro que não — o garoto verde tentou se recompor, mas insistiu. — Mas é que eu não entendo. Às vezes parece que você não gosta de passar o tempo com a gente.
— Você está certo. Você não entende! — A voz dela se tornou um murmúrio irritado. — E talvez eu não goste mesmo.
— O que…? — Mutano levantou uma sobrancelha.
— Nada — ela se virou e foi saindo, mas ele se aproximou e a segurou pelo pulso.
— Espera, Raie. Eu só queria…
— Me deixa em PAZ! — Ravena gritou, com seus olhos sendo tomados por um brilho vermelho furioso. No mesmo instante, sua energia negra se espalhou pela sala e fez tudo explodir em menos de um segundo. As portas dos armários abriram violentamente, os copos e tigelas estouraram e os livros voaram das prateleiras.
Os titãs se encolheram. Ciborgue, Robin e Estelar tentaram parecer neutros, mas estavam visivelmente assustados, o que fez Ravena hesitar. Ela os fitou com insegurança, mas puxou seu pulso de volta e saiu correndo da sala, deixando os outros sem ação.
Mutano a viu desaparecer por trás da porta e bufou, chateado.
— Cara, o que ela tem?
Ciborgue suspirou.
— Você sabe que não é bom pressionar ela. Por que você insiste em provocar?
— Espera, você está dizendo que a culpa é minha?! — Mutano se voltou para o amigo com uma leve indignação. — Ela que destruiu a sala só porque eu convidei pra sair com a gente.
— Não é só isso, Mutano — Robin explicou. — A Ravena gosta de ficar sozinha. Não tem porque a gente insistir para ela fazer tudo que a gente faz. Você precisa respeitar o espaço dela.
— Mas eu… — ele pensou em discutir, mas acabou recuando, se sentindo um pouco culpado. — Eu só queria que ela se divertisse um pouco.
— Acho que ela só precisa de um tempo — Estelar se aproximou. — Vamos deixar ela descansar e a gente convida ela de novo na próxima vez.
— É. Agora vamos — Ciborgue emendou. — Depois a gente arruma essa bagunça.
Mutano assentiu e seguiu os amigos.
*
No quarto, Ravena entrou e fechou a porta atrás de si. Ela apertou os olhos tentando se acalmar e sentou em sua cama, respirando fundo. A energia do seu quarto a ajudava a se recuperar, mas, naquele momento, tudo era uma questão muito maior do que apenas estabilizar suas emoções.
Ela não queria ter feito aquilo. Não queria ter explodido e destruído tudo, mas não tinha como evitar. Quando suas emoções saíam do controle, abriam as portas para o poder destrutivo que vivia dentro dela, e era perigoso demais deixar isso acontecer.
Mesmo que ela não tivesse a intenção e quisesse se controlar, se ela não se mantivesse sóbria, acabaria acontecendo. Tudo o que ela gostava, seus amigos, sua casa, tudo seria destruído em um instante, e não sobraria nada para ela a não ser a culpa.
Com um suspiro longo, a empata se deitou na cama e tentou relaxar. Tentou esquecer o que havia acontecido. Os olhares assustados dos seus amigos, a insistência de Mutano para que ela apenas fosse com eles para fazer algo diferente, tudo a fazia lamentar.
— Queria não ter nascido assim… — ela murmurou. — Queria não ter que passar por nada disso.
E com seu coração batendo mais tranquilamente, ela conseguiu adormecer, ainda que sua mente pesasse em pensamentos ruins.
Porém, enquanto ela dormia, em sua mesa de cabeceira, o amuleto que havia ganhado da velha lojista começou a brilhar sutilmente, e uma energia clara como fogo se espalhou pelo quarto, sem que Ravena percebesse.
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