Gêmea de Fogo - Capítulo 2

 Nas paredes do quarto de Ravena, a luz dourada dançava como se estivesse viva, e pulsava enquanto começava a se concentrar em um único ponto. Com um movimento lento, o amuleto flutuou da mesa e sua energia se uniu em uma forma que parecia se desenhar em uma forma física. Primeiro como uma figura etérea, feita de energia, mas logo se tornou a silhueta de uma pessoa. Uma garota. 

A luz então cessou, e como se houvesse acabado de nascer, a figura diante da cama de Ravena abriu os olhos pela primeira vez. Ela estava viva, e, nesse exato momento, Ravena sentiu um arrepio cruzar sua espinha. A empata abriu os olhos e praticamente saltou da cama. Suas mãos brilhando de energia escura enquanto ela se posicionava, pronta para se defender.

 Porém, ao encarar a garota misteriosa, Ravena hesitou. Não tinha certeza do que estava vendo.

— O que é isso? — ela murmurou, com uma mistura de choque e confusão.

 Do outro lado do quarto, estava… ela mesma. 

 Ou uma espécie de versão alternativa de Ravena.

— Oi! — a figura cumprimentou, com um sorriso amigável. — Muito prazer em te conhecer.

 Ela era exatamente igual a Ravena. Ou, talvez, não tão exatamente. Seu rosto, seu corte de cabelo, seu corpo, suas roupas eram praticamente os mesmos de Ravena, mas com outras cores.

 A sósia tinha olhos de um preto carmesim, cabelos ruivos que cintilavam contra a luz, uma pele pálida com um tom mais corado, e suas roupas eram inteiramente vermelhas. Desde a capa, ao corpete até às botas. Era uma versão da empata que brilhava contra o escuro, como se fosse feita de fogo.

— Quem é você? — Ravena perguntou. — O que está fazendo no meu quarto?

 A empata manteve uma postura firme, como se estivesse preparada para atacar ao primeiro movimento brusco, o que fez a sósia recuar um pouco e levantar as mãos, em sinal de rendição.

— Ah, desculpe assustar você — ela disse. — Meu nome é Fênix.

— Fênix?

— Sim. — Ela sorriu e em seguida apontou para o amuleto pendurado em seu peito. — Fênix, como o pássaro.

Ravena ficou mais séria. O jeito descontraído da cópia a deixava desconcertada. Parecia que estava em algum tipo de realidade paralela.

— O que é você? Algum tipo de truque?

— O quê? Não! Bem, pelo menos eu acho que não. — Fenix coçou sua cabeça levemente.

— E o que você quer?

— Bem, resumidamente… eu estou aqui para ajudar você.

— Me… ajudar? — Ravena levantou uma sobrancelha.

— É. — Fenix sorriu calorosamente. — A encontrar a paz de espírito.

Com um suspiro sarcástico, Ravena baixou sua guarda, mas não parecia menos desconfiada. 

— Paz de espírito? Essa é nova. Você é o quê? Algum tipo de feitiço terapéutico?

— Não sei dizer exatamente. — Fênix começou a olhar em volta pelo quarto. — Eu só sei que estou aqui com esse propósito.

— Ótimo, isso já esclarece tudo. — Ravena flutuou por cima da cama e pousou diante de sua cópia. — Ei, pare de mexer nas minhas coisas!

 Fênix estava xeretando as ervas e as velas da cômoda. — Desculpe. Esse quarto é tão interessante. Tem um ar sombrio e misterioso. Realmente combina com você.

— Tsc. Não fale como se me conhecesse — Ravena resmungou. Ela analisava cada detalhe da sósia. O seu rosto, a pequena pedra na sua testa, os olhos. Era como se encarar no espelho.

— Mas eu conheço. — Fênix murmurou. — Eu sinto o que você sente. E eu sei que você está com medo. — Ela fechou os olhos brevemente. — Medo de sentir, medo de machucar seus amigos, medo de…

— Pára — Ravena interrompeu, voltando ao tom de seriedade desconfiada. — Como você pode saber disso?

 Fênix hesitou, mas logo voltou a sorrir.

— Eu apenas sei. — ela deu de ombros.

***

 No relógio da cabeceira já estava marcando quase seis e meia da manhã. Talvez o resto dos titãs ainda não estivessem acordados, mas Robin com certeza estaria, e Ravena mais do que nunca estava precisando de orientação.

 Sentada no chão, de pernas cruzadas, a cópia da empata, Fênix, olhava ao redor com a curiosidade de uma criança, ainda completamente admirada com o quarto.

— Uau, quantas capas você tem? — Ela fitou dentro do guarda roupa. — Deve ser uma para cada dia da semana, não é? Por que você não tem de outras cores?

 Ravena bufou baixinho. Ela definitivamente não havia acordado com paciência para isso.

— Você é sempre tão alegre assim? — ela perguntou, enquanto terminava de se trocar e vestia uma capa limpa. 

 Novamente Fênix deu de ombros.

— Acho que sim.

— Tsc. — Ravena revirou os olhos e seguiu para a porta. — Vem, vou mostrar você para os outros. Se você não é uma ameaça, pelo menos eles podem ajudar a entender o que está havendo.

— Ah, vai me apresentar aos seus amigos? — A garota praticamente pulou do chão. — Isso é tão emocionante.

— Mas não fique tão animada. Eles também não vão confiar em você de cara.

 Seguindo pelo corredor, Fênix andava saltitando atrás de Ravena. Ela fazia perguntas intermináveis sobre a torre, os seus amigos e a sensação de estar viva. Enquanto a empata olhava por cima do ombro vez ou outra, e não conseguia acreditar em como alguém tão semelhante a ela conseguia ser, ao mesmo tempo, completamente oposta. Chegava a ser assustador.

 “Aquela senhora da lojinha deve ter me amaldiçoado”, ela pensou.

***

 Tão logo os Titãs acordaram, todos já estavam em torno de Fênix, estudando a garota como se fosse uma espécie de artefato raro. Ela estava sentada no sofá da sala principal, enquanto Mutano analisava cada mínimo detalhe dela.

— Nooossa. Mas você é exatamente igual à Ravena — ele comentou, atônito. — Você é uma espécie de irmã gêmea?

 Fênix riu.

— Eu acho que não. Acho que sou só uma parte da Ravena que quer sorrir mais.

— Ah, você parece ter uma energia tão calorosa e amável. — Estelar segurou as mãos dela. — É como a Ravena, mas com as cores de um pôr do sol.

— Ou com muito açúcar no café — emendou Ciborgue, rindo, e fazendo Ravena revirar os olhos. Todos estavam bem mais maravilhados do que desconfiados da sósia da empata.

— Então… vocês são mesmo super-heróis? — Fênix perguntou.

— É, nós somos — Mutano respondeu, com um sorriso convencido. — E você? Veio para fazer parte da equipe?

— Ah, eu posso? — Os olhos dela se encheram de brilho, fazendo os outros rirem do jeito inocente dela.

 Ao lado de Ravena, porém, Robin analisava a situação com cautela.

— É estranho essa garota ter simplesmente aparecido assim — ele comentou. — De onde ela veio?

— Ela é uma cópia mágica. Aparentemente saiu de dentro do amuleto que a dona daquela lojinha que salvamos me deu.

— Ah, então essa era a tal função misteriosa do amuleto? — Mutano analisou o objeto pendurado no pescoço de Fênix. — Cara, isso é muito legal.

— É, mas ainda bem que ela deu o amuleto pra Ravena e não pra você — Ciborgue comentou, em um tom brincalhão. — Ninguém ia aguentar outro mutano aqui.

— Ei! — Mutano protestou enquanto Ciborgue ria.

— Isso não é algo para achar normal — Ravena intercedeu, num tom sério. — Seja lá qual for a razão de ela estar aqui, é consequência de uma magia poderosa. Uma que até eu desconheço.

— Ravena tem razão — disse Robin. — Não sabemos nada sobre ela, nem se representa algum perigo.

 Fênix, por outro lado, parecia alheia à desconfiança.

— Eu não quero ser um problema. Estou aqui para ajudar. — Ela sorriu. — Aliás, adorei a sua máscara. É tão misteriosa.

 Robin corou brevemente, mas logo recuperou a compostura, ignorando o comentário.

— Vamos levá-la ao laboratório para fazer alguns exames. Precisamos saber mais sobre você antes de decidir qualquer coisa.

***

 Depois de passar Fênix pelos scanners do laboratório, Robin e Ravena decidiram levá-la ao interrogatório enquanto aguardavam Ciborgue verificar os resultados.

 Ela estava sentada diante dos dois, com as pernas balançando e um sorriso tranquilo no rosto. Do outro lado do espelho falso da sala, Mutano e Estelar assistiam tudo com interesse.

— Então, Fênix, você tem certeza que não sabe como chegou aqui? — perguntou Robin, com cuidado para não ser incisivo demais.

— Sim. Praticamente num minuto eu não estava aqui e, no outro, boom! Apareci.

 Ravena rolou os olhos, mas não disse nada. Então Robin continuou.

— E você se lembra de alguma coisa de antes de aparecer?

 Fênix fechou os olhos e franziu os lábios, se esforçando para retornar ao momento daquela madrugada.

— Desculpa, mas realmente não lembro de nada — murmurou, finalmente.

— Isso é inútil — Ravena resmungou. — Estamos tentando tirar água de pedra.

— Ei, eu estou tentando. — Fênix fez beicinho, parecendo ofendida.

— Está tudo bem — Robin tentou apaziguar. — Só queremos entender o que está acontecendo.

— Eu sei, mas é que realmente não tenho essas respostas. Pra mim, não há nada antes de hoje — ela murmurou. —  A única coisa que sei é o porquê de eu estar aqui.

— E por que é?

— Para ajudar ela. — Fênix apontou para Ravena. — Eu estou aqui para ajudar ela a se reencontrar.

 O garoto prodígio olhou para Ravena, que assentiu.

— É, ela me disse isso.

— E como você sabe que é pra isso? — Ele se voltou para Fênix.

— Eu apenas sei.

 Do outro lado do espelho, Mutano comentou:

— Será que ela é tipo uma emoção reprimida que fugiu da mente da Ravena?

— Como assim “fugiu”? — Estelar perguntou.

— É uma longa história. — Mutano se lembrou de sua visita a Nevermore e de todas as outras versões da Ravena que vivem lá.

 Antes que Robin e Ravena pudessem seguir com o interrogatório, Ciborgue entrou na sala segurando alguns papéis de diagnósticos.

— Então, pessoal. Exames concluídos.

— O que descobriu? — perguntou Robin, se aproximando junto com Ravena.

 Ciborgue, porém, parecia confuso.

— Aparentemente, tanto quanto vocês. O computador não encontrou nada sobre a composição dela. É como se fosse feita de energia pura, mas, ao mesmo tempo, estável o suficiente para interagir com o ambiente como um corpo sólido.

 Robin franziu o cenho.

— E quanto a origem dela?

Ciborgue balançou a cabeça. — Sem chance de descobrirmos com o que temos aqui. Pode ser magia antiga, mas nada que o computador consiga reconhecer.

— Nem o amuleto? — Ravena insistiu. — Aquela não é uma relíquia comum.

— Posso procurar mais depois, mas, por enquanto, nada sobre um “amuleto de Fênix”. — Ciborgue olhou para Fênix. — É completamente estranho. Essa garota é como uma onda de calor que decidiu ser uma pessoa.

 Mutano, na sala ao lado, passou a mão pelo queixo.

— Cara, talvez ela seja como um Pokémon raro.

 Estelar olhou para ele, curiosa. — O que é um Pokémon?

***

Após os exames e a entrevista, todos voltaram para a sala comum. A dúvida era visível em seus rostos. Já Fênix, por outro lado, parecia despreocupada. Como se todo aquele processo fosse uma mera formalidade. Ela se sentou no sofá ao lado de Mutano enquanto observava os próprios pés.

— Então, o que vamos fazer? — Ciborgue perguntou.

— Ela fica, por enquanto — disse Robin. — Pode não ser uma ameaça, mas vamos ficar de olho e investigar o que pudermos.

— Tenho a impressão de que essa história está longe de acabar — Ravena comentou, observando sua sósia. O cabelo vermelho dela cintilava ao sol, e sua expressão parecia indicar que ela mal sabia o que era maldade ou malícia, no entanto, era exatamente isso que preocupava a empata.

— Eu acho que você vai gostar de morar aqui, Fênix! — Estelar disse, se sentando do outro lado da garota. — Aqui nós somos todos uma família, e você parece tão amigável.

— Também acho. Vocês são incríveis! — Ela aplaudiu, entusiasmada, e em seguida se virou para Mutano — E você é tão engraçado. Você se transforma em animais, não é? Isso é fascinante.

— É isso aí, garota! Eu sabia que você tinha bom gosto. — Mutano riu, claramente gostando da atenção.

— Só não a estrague — disse Ravena. — Se é que isso é possível piorar.

 Mutano rolou os olhos e continuou conversando com Fênix, com todos soltando algumas risadas ocasionais. A empata permaneceu em silêncio, observando a interação de longe. Algo na alegria e espontaneidade de Fênix a deixava desconfortável. Era como se estivesse vendo uma parte de si mesma que ela sempre lutou para reprimir.


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