Adeus
A despedida já havia acontecido. Uma reunião com os amigos, algumas porções de batatas e frango frito, e muitas risadas. Risadas que vazias, opacas. Algo que não me trazia qualquer sensação de conforto.
Por que ficaram tão felizes? Porque parecia que não estava realmente mal com aquilo?
Bem, talvez só eu não tenha conseguido sentir orgulho dela. A única coisa que poderia ver era a falta que ela faria. A falta das risadas sinceras, do jeito carinhoso e responsável com os amigos, do olhar meigo, das suas mãos acariciando meu rosto, dos seus lábios rosados sorrindo pra mim.
Não… eu tenho orgulho dela, sim. Estou feliz que ela vai poder seguir seus sonhos, fazer uma faculdade das mais renomadas, mas não posso fingir que não sinto todo o resto. Eu forço um sorriso, finjo um semblante animado, mas por dentro, só quero abrir contra mim e não soltar mais. Não deixe que ela vá.
Ao final de tudo, quando os outros foram embora, eu caminho com ela, a levar até sua casa. O vento fresco faz ela se encolher em seu casaco, e eu penso em passar o braço por seus ombros, mas não faço. Apenas mantenha as mãos nos bolsos do moletom.
Quando olhamos para o portão da casa dela, olhamos com um certo constrangimento. Mal trocamos algumas palavras naquela noite, e embora fôssemos as mais próximas do grupo, parecíamos agora as mais estranhas.
— Obrigada por me trazer — ela murmura, em um tom tímido.
— Não foi nada. — eu desvio o olhar. Não estou com tanto frio, mas um arrepio insiste em atravessar minha espinha. — Então… já vai ser amanhã?
— Vai. Já está tudo pronto.
— E você está ansiosa?
— É o meu maior sonho. — Ela sorriu levemente. — Acho que nem vou conseguir dormir.
Eu respiro com cuidado. Meu coração parece querer tudo, menos ficar em um ritmo normal.
— Bem, eu… não consegui te falar antes, mas estou feliz por você. — Novamente força um sorriso. — Tomara que a faculdade seja ainda melhor do que vimos na passagem.
— Sim, tomara.
Ficamos em silêncio um pouco. Um silêncio que parecia esperar por algo que não vinha, então apenas suspirei.
— Então é isso. Boa noite.
Eu me virei para ir embora, mas algo segurou a manga do meu moletom. Um par de dedos minúsculos, que eu sigo pelo braço até encontrar os olhos de sua dona. Eles estavam tristes, contraídos, como se ela também estivesse mantendo uma atitude positiva só para não desmoronar.
— D-desculpa… Desculpa por não ter falado com você sobre isso.
Eu me virei, e ela continuou.
— Fiquei tão feliz quando soube da minha admissão. E aconteceu tudo tão rápido. Eu queria ter sido sincero com você.
— Está tudo bem. É uma grande oportunidade. Você não pode deixar passar só por… minha causa.
— Mas eu também não posso simplesmente ir… — Ela baixou o olhar. Sua mão ainda me segurava.
Eu a fitei por um momento e então suspirei. De repente, o peso daquilo tudo não me pareceu afetar tanto. Eu não sofri sozinho. Eu não era o único que não queria se despedir.
Eu passei meus dedos pela bochecha dela, num toque suave e terno, e ergui seu rosto para que me olhasse.
– Ei. Fique tranquilo. Vai ser difícil? Vai. Na verdade, já está sendo difícil. Mas eu não quero que se sinta mal por mim. Eu vou ficar bem.
Concluí com um sorriso, que embora ainda tivesse um tom triste, era mais o mais honesto que exibia a noite toda.
Os seus olhos brilharam e ela me abraçou. Um abraço tão forte que consegui que não fosse mais me soltar. E eu também não queria que soltasse.
— Todo o tempo que conhecemos juntos, tudo… — Ela fungou. — Eu amei cada segundo.
Então me soltei, e com um último e delicado toque de nossos lábios, nos despedimos, e eu fui embora.
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