Justo Do Lado Dela
Quando a aula acabou, eu subi no ônibus com o ânimo de uma batata, já que era sempre quase impossível conseguir um assento livre na hora de ir para casa.
A minha escola era o terceiro ponto por onde ele passava, então você deve imaginar que era um hábito passar a viagem toda pendurado nas alças do teto. Porém, surpreendentemente, dessa vez havia um lugar vago, mas tão rápido quanto o sorriso surgiu no meu rosto, minha expressão azedou ao ver ao lado de quem eu teria que sentar.
Com o rosto apoiado no vidro da janela e um par de fones nos ouvidos, Amanda Sandero, a colega de classe mais insuportável que se pode imaginar, estava ali, completamente alheia à minha existência. Exatamente do jeito que ficava quando não queria conversar com ninguém.
Eu tentei olhar em volta e procurar algum outro lugar vago, mas não havia nenhum. Querendo ou não, teria que sentar ao lado dela. Então apenas fui, repetindo para mim mesmo o pensamento consolador de que, quanto antes eu aceitasse a minha situação, mais rápido acabaria.
Assim que me sentei, Amanda me olhou brevemente, mas não disse nada, de modo que supus que era melhor ficar na minha e aproveitar a “paz” que ela estava me oferecendo. Eu fui pegar meu celular para ouvir música também, mas como seu um cara muito conhecido pela sorte — ou melhor, pela falta dela — meu aparelho simplesmente escorregou da minha mão por conta de um solavanco do ônibus, e foi parar entre os tênis All Stars de Amanda.
Isso me fez esperar um segundo para ver se ela faria alguma coisa, mas como ela nem se mexeu, eu estiquei meu braço para pegar o celular, o que, de algum modo que nem Freud saberia explicar, conseguiu deixá-la irritada.
— Ei! O que você tá fazendo?! — perguntou Amanda, em um tom desconfiado.
— Err… Pegando meu celular? — Eu apontei para o chão, tentando não me importar com a reação dela.
— É? Pois você não precisa tocar em mim pra fazer isso.
“Pronto, começou”, pensei.
— Desculpa, mas não é como se tivesse muito espaço aqui — ironizei.
— Então por que só não me pediu pra pegar o celular pra você?
“Pra quê? Pra ouvir você resmungando como agora?”, pensei, mas ao invés de dizer isso, tentei ser mais educado:
— Eu só não queria te incomodar.
— Ah, obrigada pelo esforço — ela rebateu com um tom ainda mais irritante de sarcasmo, o que me fez apertar os dentes. — Talvez você pudesse segurar com mais firmeza da próxima vez.
Amanda se abaixou e pegou o celular, praticamente jogando ele nas minhas mãos.
— Obrigado — murmurei. E em resposta ela apenas bufou e voltou a olhar para rua, como se nada tivesse acontecido.
Eu pluguei meus fones no celular, mas quando pus nos ouvidos, adivinha. Eles tinham parado de funcionar. Eu tentei desplugar e plugar de novo, mas nada.
— Que beleza. Lá se vai mais um fone — resmunguei ao jogar o celular de volta dentro da mochila. Isso sempre acontecia com esses fones de vinte reais que costumava comprar.
— Humpf, bem feito — ouvi Amanda dizer baixinho.
Eu pensei em responder alguma coisa, mas apenas me apoiei no braço do assento e fiquei observando as outras pessoas, deixando minha mente divagar um pouco. Pensei na escola, no trabalho que tinha pra entregar, no que poderia ter de almoço quando chegasse em casa, mas o que mais me chamou a atenção foi uma voz sutil cantarolando uma música lenta, o que fez eu voltar para a garota ao meu lado. Foi quando dei de cara com uma imagem que nunca esperava ver na vida (exagero): A Amanda estava sorrindo, de olhos fechados enquanto balançava a cabeça bem levemente ao som da música que ouvia no fone. Eu não sabia dizer qual era, mas a minha colega com certeza estava imersa nela.
Isso me despertou uma certa curiosidade. Eu não tinha certeza se devia perguntar, já que nunca se podia ter certeza de como Amanda Sandero responderia, mas como entediado, apenas soltei as palavras.
— O quê? — Amanda olhou pra mim como se eu tivesse acabado de acordar ela de um relaxante cochilo (que ela não queria acordar).
— Perguntei o que você está ouvindo.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Nada que seja da sua conta. — E se virou de volta para a janela.
Eu a fitei, e não consegui evitar de insistir com um um tom de provocação.
— É que achei que você estava cantarolando BTS ou algo assim.
Ela se voltou para mim com o cenho franzido.
— Eu tenho cara de quem ouve esse tipo de coisa?
— Sinceramente? — Sorri de canto, com um riso leve.
— Claro que não! Você que deve ouvir essas músicas de adolescente desmiolado.
— Não, eu prefiro mais rock. — Dei de ombros. — Mas se você não é uma desmiolada, o que tá ouvindo?
Ela revirou os olhos, irritada.
— Radiohead — disse, enfim.
— Sério?
— Sim, sério.
— Eu poderia jurar que você ficava ouvindo aquelas aberturas de animes Shounen. Como era o nome daquele que você tava falando outro dia? JoJo?
Ela corou.
— I-isso também não é da sua conta.
Não, ela não falou pra mim sobre o anime. Mas era quase impossível não ouvir ela comentando com as amigas sobre como tinha gostado. Era um dos raros momentos de entusiasmo dela.
— Tá bem. — Acabei rindo, satisfeito pela reação dela. — Mas então, qual do Radiohead você tá ouvindo?
Amanda me fitou por um momento, desconfiada, mas então tirou o fone esquerdo do ouvido e alcançou pra mim. Mesmo estranhando a atitude, eu o coloquei no ouvido e logo reconheci a música.
Era Creep. Uma das que eu mais gostava.
A melodia resignada, a guitarra insegura e ao mesmo tempo revoltada. Era coisas que não pareciam combinar com Amanda. Mas quem sabe? As pessoas podem nos surpreender.
Eu a olhei de canto, e ela estava cantando baixinho.
But i’m a creep
I’m a weirdo
What the hell am I doing here?
I don't belong here
I don't care if it hurts
Eu tirei o fone para ouvir com atenção. Era curioso como o sussurro dela dava um tom honesto àquela música. Como se ela de fato se sentisse errada. Deslocada e fora do lugar.
De repente, ela percebeu que eu estava observando.
— O que foi? — ela perguntou, séria.
— Nada — disse naturalmente. — Você canta bem.
Ela ficou vermelha novamente. E arrancou o fone de ouvido da minha mão.
— Idiota! — ela resmungou enquanto voltava a olhar para a janela e me deixava com um sorriso satisfeito.
Talvez ela não fosse tão insuportável assim.
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