Um Jogo De Ping Pong
— Vai, cuidado! — Alex gritou, enquanto Pedro rebatia a bolinha que quase havia caído para fora da mesa.
— Essa foi por pouco — o garoto comentou ao ver a bolinha avançar para o outro lado e rapidamente ser batida de volta pela sua adversária.
— Você pode resistir, jovem gafanhoto, mas não por muito tempo! — Kim Tomikawa declarou, com os olhos afiados pelo desafio.
O jogo estava intenso, e o resto da turma, que há poucos minutos estava apenas conversando espalhado pela classe, agora estava reunido em torno da mesa do professor, onde aquele jogo de ping pong improvisado estava se desenvolvendo.
A mesa era grande. Não tão grande quanto uma mesa de ping pong de verdade, mas era grande, e usando alguns cadernos como rede improvisada, os dois jovens estavam em uma competição acirrada, com seus pontos praticamente empatados.
A bolinha, que havia sido tirada de uma embalagem vazia de desodorante roll on, voava de um lado para o outro sendo seguida pelos olhos atentos dos colegas, e apesar de não haver uma torcida, alguns já estavam começando a pensar em quem seria o vencedor.
— Você consegue, Pedro! — disse Bel, ao lado de Alex. — Vamos, você vai ser o primeiro a derrotar a Kim.
— Ah, eu quero que ele ganhe, mas duvido que consiga — Amanda comentou. — A Kim é muito boa.
Alguns burburinhos começavam a surgir entre os alunos, mas a atenção continuava fixa no jogo. Até que, por um momento de distração, Pedro não conseguiu rebater a bola de Kim, que passou por ele como um tiro, batendo na parede do outro lado da sala.
— Ahhhhh — Alguns alunos lamentaram enquanto outros comemoraram.
— Boa, Kim! — algumas garotas disseram.
Eu avisei, Pedro Soturno. — Kim fez uma pose exagerada, com o braço que segurava a raquete escondendo seu rosto enquanto seus olhos pareciam lançar um fogo mortal para Pedro. — Estamos em 5 - 4.
— Nada mal. — Pedro sorriu desafiadoramente, sem se deixar abalar. — Mas você não perde por esperar. Eu ainda vou virar esse jogo.
— Ho ho, sinto um grande poder vindo de você — Kim imitou um personagem de anime, mas ninguém entendeu nada. — Mas não chega aos meus pés.
Pedro então pegou a bolinha e voltou para a mesa. Os colegas estavam ansiosos, mas assim que a bolinha bateu na mesa e Pedro a bateu com a raquete, a professora Canella apareceu na porta da sala, fitando aquele movimento todo com seus olhos naturalmente cansados.
— Ei, gente, o que está acontecendo? — Ela se aproximou, carregando sua pilha de livros e cadernos em mãos. — O que vocês estão fazendo aí?
Em outro momento de distração, dessa vez por conta da professora, Pedro deixou o ataque de Kim passar por ele, e a jovem garota japonesa comemorou.
— Muda muda muda mudaaa!!! — Kim vibrou, dando socos no ar e em seguida apontando o polegar para si mesma. — Kono Kim Tomikawa da!!!
— Ei, essa não valeu! — Pedro protestou.
— O ping-pong tem uma regra sagrada. Nunca tire os olhos da bola, meu caro.
— Vocês sabem que tem uma mesa de ping-pong lá no pátio, né? — A professora levantou uma sobrancelha.
— É, mas a gente não queria descer lá — Alex comentou, coçando a nuca. — Descer e subir aquela escadaria cansa.
— Você que é preguiçoso, Alex — Amanda brincou, com um sorriso de canto, o que fez alguns colegas rirem.
— Bem, mas independente disso, agora é hora da aula — a professora determinou. — Voltem todos para os seus lugares.
Ah, professora, deixa a gente jogar mais um pouco — Kim suplicou dramaticamente. — Por favor. A gente só teve essa ideia agora.
— Eu sei, mas eu tenho um monte de coisas pra passar hoje. — A professora soltou sua pilha de livros na mesa, parecendo se sentir umas vinte vezes melhor sem aquele peso. — A gente tem que terminar a matéria de classes gramaticais ainda nessa semana.
— Essa matéria é fácil, a gente pega rapidinho — Pedro interviu. — Dá tempo de mais uma partida.
— É fácil? — A professora cruzou os braços, cética. — Eu só acredito nisso quando ver todos vocês gabaritarem minha prova.
Alguns alunos suspiraram e outros já estavam se dirigindo para suas carteiras, mas Kim não parecia ter se dado por vencida.
— Professora Canella, eu posso estar enganada, mas ouvi dizer que você jogava pingpong também. Não é verdade? — Ela comentou, como quem não quer nada.
— É, eu jogava um pouco quando estava na faculdade.
— Bem, então você certamente não recusaria um desafio, não é?
— Onde você quer chegar?
— Vamos jogar, nós duas, se eu ganhar, nós todos vamos assistir a aula, se não, a professora tem que deixar a gente continuar jogando.
— Kim... — A professora passou a mão no rosto, cansada. A professora Canella e o cansaço eram quase sinônimos. — Sabe que eu não posso simplesmente deixar vocês ficarem jogando pingpong na hora da aula, né?
— Ah, ninguém precisa saber. — Ela piscou, fazendo a professora revirar os olhos.
— Tá bom, só uma partida — a professora cedeu, e se posicionou do lado oposto do de Kim.
—Espera, você vai jogar mesmo? — Pedro perguntou, surpreso.
Claro que vou. — A professora sorriu com confiança. — Me empresta essa raquete.
Pedro deu sua raquete para ela, e a jovem Marla Canella se posicionou, pronta para o ataque. A professora devia ter cerca de 25 anos. Não tinha tanto tempo desde que terminou sua licenciatura, e mesmo sendo bastante séria em suas aulas, tinha um ar jovial que a tornava diferente do resto do quadro de professores. Os alunos conseguiam facilmente vê-la como próxima deles.
A turma voltou a se reunir em torno da mesa e, com a bolinha de volta em mãos, Kim estreitou seu olhar, se preparando para fazer o saque.
— Canella sensei... Prepare-se. — Kim bateu a bolinha com calma, para não começar rápido demais com a professora, porém, com um movimento extremamente rápido, a professora rebateu e a bolinha acertou na beirada da mesa e voou para o chão, sem que Kim sequer conseguisse ver. — Mas o que?!
Os outros alunos arregalaram os olhos, e até Lucas, que nesse tempo todo estava sentado lendo um livro no canto da sala, acabou esticando os olhos para ver.
— Um a zero — a professora contou, naturalmente. — Ainda dá tempo de desistir, Kim.
— Nem morta. — Kim retomou sua confiança, e em seguida pegou a bolinha e jogou para a sua adversária. — Pode vir com tudo!
A professora sorriu. Sua expressão, que parecia sempre sonolenta, agora estava altiva, confiante, pronta dar um tipo diferente de aula. Aula de como se joga de verdade. Ela sacou levemente, mas assim que Kim rebateu, ela atacou rápido, e a bolinha voou como um disparo de canhão, de novo marcando um ponto.
Sem que Kim conseguisse resistir, rapidamente os pontos foram se acumulando. Dois, três, cinco, oito, até que a professora conseguiu marcar dez pontos, deixando a pobre garota atônita, enquanto o resto da classe comemorava.
— Profe Canella, Profe Canella, Profe Canella! — eles começaram a cantar enquanto torciam. E Kim se lamentou, praticamente se jogando na mesa.
— Como assim, professora?! — ela reclamou. — Como você pode ser tão boa nisso?
Eu gosto do jogo — a professora respondeu, sem nem precisar ofegar ao terminar a partida. — Agora, já que você perdeu, que tal começarmos a aula?
— Ah não! - Kim protestou. — Eu quero uma revanche. Isso não é justo!
— A vida não é justa. — A professora piscou para ela, exibindo um sorriso brincalhão e satisfeito. — Agora vamos antes que a diretora venha ver o que é todo esse barulho.
—Tá bem. — A pobre coitada aceitou, enquanto os outros alunos seguiam para os seus lugares, animados pelo incrível jogo que tinham acabado de presenciar. — Mas vai ter revanche.
— Eu prometo que depois a gente joga de novo. — A professora se sentou em seu lugar, se sentindo mais animada do que há muito tempo. Talvez aquele jogo tenha valido a pena afinal.
— Nossa, Kim, a professora acabou com você mesmo, hein? — Um aluno comentou enquanto ria baixinho.
— Eu não imaginava que ela jogasse tão bem — outro também disse.
— Acho que ela era profissional. Deve ter jogado em campeonato.
— Ei, gente. Silêncio! — a professora chamou, mas sem deixar de sorrir. — Vamos, abram a apostila.
Tão imediatamente a professora disse isso, alguém bateu na porta da sala, deixando alguns alunos inquietos. Era a diretora.
— Com licença, Professora Canella. — A diretora, uma mulher alta, elegante, e com semblante severo cumprimentou. — Me disseram que estava tendo alguma balburdia acontecendo nessa sala. Que estava com muito barulho.
— Barulho? Acho que não. — A professora se fez de desentendida. — A gente está só seguindo a matéria.
A diretora levantou uma sobrancelha, parecendo cética, mas não disse nada.
Estava tendo algum barulho? — a professora perguntou para a classe, que respondeu com gestos e murmúrios de negação, e alguns olhares de cumplicidade, mas esse detalhe a diretora não percebeu.
— Bom, deve ter sido algum engano. A inspetora deve estar tomando café demais de novo. —A diretora revirou os olhos e se retirou. Fazendo alguns alunos rirem baixinho e a professora também revirar os olhos, mas feliz. Definitivamente feliz.
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