Sozinhas no Celeiro - Capítulo 1

  Adaptação

"Diário de bordo... hum... nem lembro mais."

"Faz cerca de dois dias desde que Steven voltou para casa e deixou Lápis e eu sozinhas no celeiro. Tenho que admitir que achava que começar uma nova vida no interior seria mais interessante, mas está tudo sendo muito quieto e parado. Depois de meses trabalhando com as outras na construção da broca, acabei me acostumando com o movimento e os sons delas conversando e do Steven me incentivando a aprender mais sobre as coisas da Terra. Sem eles, eu me sinto perdida num mundo desconhecido onde tudo pode ser estranho e surpreendente."

"Mas nada está sendo mais estranho do que a minha nova colega de celeiro. Lápis Lazuli. Desde que os outros foram embora, ela está lá, sentada no topo do silo de grãos. Lápis retornou depois de tanto tempo desaparecida e ainda não pude entender bem o que houve. No começo ela não gostava muito de mim e parecia me culpar pelo que aconteceu, alguma coisa envolvendo o oceano e a Jasper. Foi algo terrível ao ponto de ela não querer sequer me olhar nos olhos, quanto mais morar comigo aqui. Porém, depois de muitas tentativas de reconciliação com ajuda do Steven, nós conseguimos nos entender melhor e ela parece ter me dado uma chance para mostrar que sou uma boa Gem."

"Apesar disso, Lapis ainda se mantém isolada e evitando contato comigo. Isso me deixa preocupada, com o tempo que vivi nesse planeta eu comecei a entender mais sobre sentimentos e coisas que são comuns aos terráqueos, e essa Gem me causa uma sensação muito incomum. Eu sinto um pouco de medo de ela ficar irritada ou chateada comigo e me fazer algo ruim, ao mesmo tempo sinto um fascínio inexplicável, do tipo que me dá medo de ela ir embora. É uma espécie de atração que quase me obriga a tentar algo para me aproximar. Lápis tem um certo mistério em volta dela, e essa tendência de se afastar consegue me dar ainda mais vontade de chegar perto."

"Eu preciso fazer alguma coisa, mas não sei o que. Já tentei tantas coisas. Até mesmo tentei mostrar a ela algumas coisas que descobri morando aqui. Mas parece que eu realmente não tenho jeito pra isso."

"(Suspiro)"

"Peridot desliga."

Ainda bem que consegui consertar o gravador. Agora que estamos praticamente sozinhas, ele consegue ser uma companhia muito mais interativa do que a Lápis. Ela tem ficado sozinha no topo daquele silo por todo esse tempo como se ainda estivesse com raiva de mim. Eu não consigo entender. Ela parecia ter ficado tão mais receptiva quanto a ideia de dividir o celeiro comigo, até me protegeu das Rubis de Homeworld. Talvez ela ainda esteja com medo de se decepcionar, ou medo de confiar em mim, quem sabe?

Caramba, mais estranho do que isso é esse meu interesse nela. Por que quero tanto conviver com ela? Eu já ia morar sozinha aqui antes dela aparecer, em tese eu deveria estar feliz de ter o espaço só para mim. Mas quem quero enganar? Não sei! Como eu mesma disse, eu quero e não quero que a Lápis vá embora. Ela causa essa sensação nova em mim e ainda fico com uma vontade irresistível de ir lá falar com ela.

Bem, depois muito pensar, foi o que acabei fazendo. Lápis parecia estar se sentindo triste ou "machucada não fisicamente", como Steven me explicou, e a minha ideia de ajudá-la a se adaptar à vida na Terra só daria certo se eu tentasse o primeiro contato. Mas como fazer isso? Eu andei de um lado para o outro dentro do silo tentando em vão ter alguma ideia. Até que parei e me olhei no espelho pendurado na parede. Diante de mim, estava uma Gem verde, baixinha e de cabelo triangular. Parecia estar confusa... mas decidida. Eu dei um passo a frente e disse para mim mesma: "Não fique aí parada, apenas vá e faça! Fale com ela, o que pode dar errado?"

 Como depois eu descobriria, muitas coisas poderiam dar errado, mas eu fui em frente assim mesmo.

O silo de grãos é uma construção humana bem alta e, a princípio, eu achava que só dava para chegar ao topo voando, mas, ao me aproximar da base para chamar a atenção de Lápis, consegui ver uma escadinha lateral escondida que eu poderia usar. Durante a subida eu fiquei pensando em como deveria abordá-la. Eu nunca havia tido uma conversa mais direta com Lazuli, e quando cheguei ao topo, acabei me surpreendendo quando ela me cumprimentou antes mesmo de me ver.

– Olá, Peridot – Disse vagamente.

– Oi... – Respondi, tímida, e me sentei ao lado dela na beirada do silo.

– Eu estava me perguntando quando você iria descobrir que esse silo tem uma escada. – disse ela com um sorriso leve – Uma hora ou outra você acabaria dando um jeito de subir aqui só pra falar comigo.

– ah... – fiquei um pouco confusa e assustada – Me desculpe se te incomodo vindo aqui... talvez seja melhor eu descer.

– Não, tudo bem. – disse Lápis enquanto eu me levantava – não está me incomodando.

Eu suspirei tranquila e voltei a me sentar ao lado dela.

– Por que você ainda está aqui em cima? – Indaguei – Podia estar lá no celeiro como eu.

– Não sei. Acho que ainda não me acostumei com a ideia de morar aqui. Tem tanta coisa no mundo para desbravar que... bem, não sei por onde começar.

– Ah, entendo. Eu sentia a mesma coisa quando decidi morar aqui. Tudo parecia tão estranho que ainda pensava em voltar pra casa. Mas fica interessante depois que se descobre algumas coisas.

– Que tipo de coisas? – Lápis perguntou.

– Hum, tipo... – Pensei um pouco – Música!

– Musi... o que?

– O Steven me ensinou uma assim – E comecei a tentar lembrar da música enquanto cantava – "Vida, morte e amor e... paz na terra seja muito amor; Nascimento e o que teria mais valor..." Algo assim e tem "Fá, fá, mi, ré si lá!"

Com Lápis me olhando com uma expressão de estranhamento, eu simplesmente não lembrava da letra e tudo se embolou na minha cabeça. Até que ela disse:

– Do que você está falando?

– Dessa coisa que o Steven me ensinou – Respondi, desconsertada, de repente eu não sabia o que dizer (ou como dizer) – é algo simples que ajuda a se sentir melhor. Ou ajudaria, não sei, tem que ser inteligente para entender.

– Está dizendo que eu não tenho inteligência para entender? – Disse Lápis com um olhar que me preocupou.

– Não – Respondi rápido, sem pensar – Ou melhor, sim... quis dizer que nós duas ainda não sabemos o suficiente para entender isso.

– Eu não faço ideia do que seja isso – Comentou Lápis voltando o olhar para frente.

– É... – na hora eu acabei ficando sem saber o que dizer, eu tinha gostado quando Steven me mostrou o que era música, mas não sabia como explicar para a Lápis. Ao ponto que ela pareceu perder o interesse.

– Olha... esquece – Lápis cortou a própria fala e levantou voo, me deixando sozinha no topo do silo.

Não consegui ver bem para onde ela foi, afinal estava mais preocupada com o fato de ter conseguido falhar tontamente no primeiro contato. Se tem uma coisa que o Steven poderia ter me ensinado antes de voltar para casa é como não falar coisas sem sentido para a pessoa que está te ouvindo. Acho que ainda tenho que treinar bastante para aprender a como fazer alguém se sentir melhor, como ele faz.

Ah (suspiro), depois que desci e voltei para o celeiro, não pude deixar de sentir uma certa frustração. Era uma pena ter dado errado. Lápis não tinha ido embora. Do celeiro eu consegui ver que ela havia voltado para o topo do silo. Isso me deu um sentimento de alívio, mas ainda estava pensando se conseguiria realmente me aproximar de Lápis Lazuli.

***

 Uns dois dias depois disso. O celeiro estava bastante tedioso e parecia impossível encontrar formas de me distrair. Tentei assistir a série "Acampamento dos corações amorosos", mexer com algumas máquinas humanas primitivas e consertar o imenso buraco na lateral do celeiro, mas tudo parecia repetitivo, chato ou trabalhoso de mais para uma única Gem. E, por alguma razão, eu não conseguia pensar em outra coisa senão em Lápis.

Ela ainda estava isolada no topo do silo e continuávamos sem nos falar. Eu me perguntava se deveria convidá-la para fazer alguma coisa, talvez algo que ajudasse a nos entrosar, mas não tinha ideia de como fazer isso. Era como se eu esquecesse de como conversar quando estava perto dela, então decidi apenas deixar as coisas como estavam. O que estava sendo difícil.

Não tinha nada de divertido para fazer naquele celeiro e eu já estava me sentindo como se estivesse em Homeworld. Mas não num bom sentido. Depois de ter experimentado algumas experiências humanas, a vida no planeta natal só poderia ser descrita como chata e monótona. E agora estava sendo assim na terra também.

Porém, ainda cedo naquela tarde, Steven veio nos fazer uma visita rápida, o que me deixou bem animada. Do nada ele apareceu montado em seu leão e Lápis foi a primeira a recebe-lo. Eles conversaram por uns dez minutos e Lápis voltou para o seu silo da solidão assim que eu apareci. Lápis parecia estar tão convicta em me evitar que se esforçou para que eu não percebesse a presença do Steven, não atoa eu só notei que ele estava ali depois desses dez minutos. Ela conversava com ele num volume tão baixo que seria difícil chamar a minha atenção.

Mas bem, logo após o Steven ter me abraçado quando fui recebe-lo, ele começou a contar sobre algumas coisas que aconteceram com ele e as Crystal Gems na casa da praia. Só na última semana ele havia descoberto um novo poder e ficado uma madrugada inteira flutuando no céu. Isso me deixou admirada e não pude deixar de rir. Depois comentou que o pai dele, o humano chamado Greg, tinha acabado de ganhar muito dinheiro com uma música que compôs havia muito tempo. Essa parte eu acabei não entendendo muito bem, antes que eu pudesse perguntar o que era esse tal "dinheiro", Steven perguntou como estavam indo as coisas no celeiro.

– Sendo sincera, bem chatas – Respondi em tom de desânimo – Se eu soubesse que ia ser tão monótono e sem graça ficar aqui, teria ido morar de novo no banheiro.

– Por que diz isso, Peridot? – Indagou Steven – Deve ter tanta coisa interessante para se fazer aqui.

– Se tem, eu não consigo ver! As únicas coisas que faço aqui é assistir TV e mexer com aquelas tralhas de máquinas voadoras.

– E a Lápis? Vocês não conversam ou discutem como aprender mais sobre a terra?

– Infelizmente... ainda não conseguimos iniciar uma coexistência – Lamentei

– Uma o quê? – Ele ficou com um a expressão de dúvida e em seguida olhou para Lápis no topo do silo – Ah, vocês ainda não estão "convivendo", é isso?

– É – Confirmei olhando para ela também – Ela fica lá em cima e eu fico no celeiro, é assim que tem sido.

– Mas você tentou conversar com ela?

– Tentei, mas é estranho – pensei na melhor forma de explicar – Eu não sei o que dizer para começar uma conversa. É como se ela me fizesse esquecer de como se conversa. Só de pensar nisso eu me sinto estranha com formigamento nas mãos e na barriga.

– Ah, eu sei exatamente o que é isso – Anunciou Steven com seu sorriso reconfortante – Você está se sentindo tímida. Não se preocupe, isso não é ruim ou anormal. Acontece porque vocês são duas pessoas que não se conhecem e resolveram morar juntas. É como se tivessem pulado o primeiro ingrediente importante na receita de um bolo, então é claro que tudo vai ficar estranho.

– Hum – Refleti – E como eu posso vencer essa timidez?

– Bem, eu acho que tenho a solução para os seus dois problemas, Peridot.

– Como assim?

– Você está entediada e se sentindo mal por não conseguir se aproximar da Lápis. Por sorte, eu tenho algo que pode resolver isso – Disse colocando a mão dentro da juba do seu leão cor-de-rosa – E, pra dizer a verdade, ele pode resolver qualquer problema.

– Aquele seu instrumento de música? – Perguntei um pouco incrédula vendo ele tirar o estranho objeto da juba.

– É um Ukulele – Disse enquanto girava uns botõezinhos na ponta do instrumento – É um instrumento bem fácil de tocar e... bem... você lembra como a música é divertida, né?

– Ah, lembro sim – Respondi, corando um pouco enquanto lembrava de minha tentativa de cantar – Mas acho que não tenho muito jeito pra isso.

– Não se preocupe, eu posso te passar algumas lições e você pode aprender sozinha depois.

Steven fez algumas anotações em um caderninho que também tirou da juba do leão e em seguida me ensinou o que eram "cifras" e como eu podia usar isso para aprender e até compor músicas. Eu fiquei muito entusiasmada com aquilo. Por mais que fosse ainda algo novo para mim, eu não via a hora de tocar e cantar como ele fazia.

Depois de algumas lições e "acordes", Steven também me deu algumas ideias para sair do tédio e procurar fazer coisas de humano como comer, dormir e... jogar video-game. Esse último era sem dúvida o mais confuso, mas Steven disse que ia me emprestar o video-game dele se o pai deixasse. Eu anotei tudo o que ele falou e perguntei se tinha algum jeito de conversar com ele à distância, como os tele-comunicadores gem. Em resposta ele apenas comentou sobre telefones e internet, o que também não entendi.

A visita dele me deixou muito contente e animada para continuar morando no celeiro. Era como se tudo tivesse começado de verdade a partir daquele momento. E quando estava quase escurecendo (e a visita dele era para ser rápida), ele me deu outro abraço, gritou tchau para Lápis e foi embora montado no seu leão.

Eu realmente espero que as coisas possam correr mais agradáveis agora, e que eu consiga me aproximar da minha colega de celeiro. Vamos ver se esse utulele realmente funciona.

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