Sozinhas no Celeiro - Capítulo 2

 Música e Desenho

"Diário de bordo 002"

"Hoje completamos uma semana de estadia aqui no celeiro. E parece que as coisas estão progredindo, de um certo ponto de vista."

"Primeiramente, gostaria de deixar registrado que, após a visita do Steven, eu consegui lidar melhor com o problema do tédio e da 'falta do que fazer'. Aparentemente a principal causa desse sentimento era justamente a minha fascinação pela presença enigmática da minha colega, que me fazia desviar a atenção das coisas que poderiam ser realmente interessantes. Tanto isso é verdade que, assim que comecei a focar no estudo do instrumento musical que Steven me emprestou, pude pensar mais claramente sobre a infinidade de possibilidades que minha nova vida aqui oferece." 

"Bem, claro que preciso admitir que é possível que a minha pequena interação com Lápis durante os meus treinos pode ter me ajudado a aliviar esse sentimento forte por ela. Mas asseguro que é apenas uma pequena possibilidade."

"Depois, o estudo do Ukulele (e não Utulele) tem me incentivado bastante a descobrir mais sobre a música e a cultura da terra.  Enquanto assistia o 'acampamento dos corações amorosos', eu descobri que os humanos realmente gostam muito dessa tal música e gostam até de se movimentar ao som dela. Algo que eles chamam de dança. Além de haver toda uma relação entre a música e essas sensações novas que estou sentindo. Pelo que descobri, algumas músicas podem causar sentimentos específicos como animação, alegria e tristeza."

"Sem dúvida esse planeta está se tornando cada vez mais atraente para mim. Embora eu ache que seria muito mais interessante se Lápis estivesse fazendo essas descobertas junto comigo. Eu e ela ainda estamos distantes, mas creio que estou avançando em me aproximar. Mais algumas tentativas e pode ser que eu por fim consiga mostrar que não sou nenhuma criatura chata."

"Peridot desliga."

 Ah, esses últimos dias foram... Bem, curiosos. Assim que Steven voltou para casa com o seu leão, eu decidi que aprenderia rapidamente a tocar aquele instrumento de cordas. Afinal, eu sou uma Peridot com inteligência acima da média, uma atividade simples e sem propósito como essa deveria ser moleza.

 No entanto, estava sendo bem mais difícil do que pensei. Depois de apenas algumas horas treinando, comecei a me questionar sobre como o Steven conseguia fazer movimentos tão diferentes com as mãos ao mesmo tempo. Para tocar o Ukulele você deve apertar as cordas com uma mão e dedilha-las com a outra. No mínimo seria preciso um cérebro hiper-desenvolvido para ter uma independência de membros assim. Mas, pensando que "se o Steven consegue, eu também consigo", no segundo dia de treino eu já estava fazendo um som bonitinho com o ukulele.

 A partir daí, comecei a tentar cantar a letra daquela mesma música que tentei mostrar à Lápis, o que foi um outro desafio. Ainda mais difícil do que fazer os movimentos diferentes com as duas mãos é, aparentemente, controlar o volume da voz sob o ritmo do ukulele. Eu simplesmente não estava conseguindo encaixar uma coisa na outra, embora estivesse me empenhando notavelmente.

 No começo eu achei que estava cantando baixo demais, então cantei o mais alto que pude e não demorou para que Lápis viesse checar o meu progresso. Claro que ela não parecia tão entusiasmada quanto eu com a música.

–Por mil estrelas, Peridot, por que você está berrando? – Disse ela, com o rosto surpreendentemente azulado – Por acaso tem mais Gems de Homeworld aqui para te pegar?

– Eu estou cantando – Respondi

– Tem certeza? Qualquer um que escutar isso pode facilmente imaginar que tem alguém gritando de pavor ou agonia. Porque você não canta como alguém normal?

– Ei, isso não é tão fácil quanto parece!

–Claro que é, é só conseguir ouvir o próprio barulho – Disse Lápis, aparentemente irritada, dando as costas e se preparando para voar de volta para o topo do silo.

– Lápis? – chamei, esperançosa

– O que foi, Peridot?

– Você não quer treinar comigo? Pode me ajudar a fazer isso direito – Indaguei suavemente esperando que essa fosse uma oportunidade de nos aproximarmos.

 Ela olhou para mim por um momento, hesitou e depois falou:

– Não, obrigada. Quem sabe da próxima?...

 Naquele instante, eu me senti mais tranquila em pensar que teria uma "próxima". Lápis certamente sabe o que é música e gosta quando é bem tocada, então só preciso aprender a fazer um som bom e poderei, talvez, tirar dela uma reação diferente da natural "falta de interesse". Então eu continuei treinando mais um pouco e depois parei para descansar.

 Sem dúvida era um pouco frustrante se engajar em aprender música. Imagino por quanto tempo Steven teve que treinar para tocar com tanta facilidade. Mas, eu tinha outras coisas para me distrair e recarregar as energias de insistência para depois voltar a treinar. Naquela noite eu assisti mais alguns episódios da série do "acampamento dos corações" e tentei prestar a atenção nas falas dos personagens. Com sorte aqueles escritos ensaiados e roteirizados poderiam me ajudar a me expressar melhor com Lápis e a me sentir mais segura na hora de conversar.

 Mas aparentemente aquilo não ia ajudar muito. Nós moramos num celeiro, não em um acampamento de adolescentes.

***

Quando acabei de assistir a terceira temporada da série novamente estava bem tarde e eu já sentia a volta daquela sensação de tédio. Mas, dessa vez eu quis tentar algo diferente, eu me aconcheguei no sofá e me pus a dormir.

 Sobre essa experiência em especial, tenho que admitir, apesar de nós Gems não precisarmos de um tempo de repouso para recuperar as energias, ter uma noite de sono é uma das coisas mais maravilhosas que se pode imaginar. Embora no começo seja um pouco chato e pareça que sua cabeça não tem a minima intenção de reduzir os pensamentos, quando se consegue adormecer é como se deixássemos de existir ou nossa consciência fosse simplesmente desligada.

 Nós ficamos em um transe de relaxamento tão profundo que, quando acordamos, nossos corpos ainda sentem um desejo forte de voltar a dormir. Mesmo que já tenha dado um bom tempo de recarga, é como se estivéssemos viciados por aquela sensação de relaxamento. E outra coisa que me surpreendeu, é que assim que acordamos, parece que nossa mente reinicia e conseguimos pensar melhor sobre as coisas a fazer. Por causa disso, quando despertei no dia seguinte (bem tarde, a propósito), eu pensei em fazer algo diferente da rotina comum.

 Ao invés de voltar a treinar ukulele ou assistir TV, eu havia pensado em fazer uma coisa que vi a Paulete fazendo uma vez ou outra em o "acampamento dos corações amorosos". Desenhar coisas que se encontram na natureza. Para mim isso sempre pareceu algo inútil e sem propósito, assim como a música. Mas depois de ver que a música tem um propósito implícito e fascinante, eu peguei umas folhas de papél, uns gizes de cera que o Steven deixou para trás e fui dar uma olhada nas árvores em torno do celeiro.

 A principio, eu tentei desenhar as primeiras coisas que encontrei. Fiz rabiscos de alguns insetos, desenhei uma árvore com o máximo de detalhes possíveis, desde a casca até as folhas. Mas tudo isso parecia muito sem graça para se registrar, então pensei em ir mais além e subi na árvore que usei de modelo. De cima dela, eu pude ter uma visão melhor do campo e até ver, de longe, uma cerca comprida, umas plantações, um par de trilhos de um veículo terrestre e, bem mais longe, o mar.

 Eu sabia que o Steven morava na beira do mar, então se talvez eu conseguisse subir mais alto, fosse possível ver a casa dele ou mesmo o morro onde ela ficava encostada. Então eu olhei ao redor e decidi subir no telhado do celeiro para testar a visão. Assim que subi por cima das telhas, a primeira figura que chamou a minha atenção foi a do Silo à alguns metros do celeiro.

 Àquela distância, Lápis estava longe e era difícil vê-la nitidamente, mas estávamos praticamente à mesma altura. Eu sentei apoiada numa região menos ingreme do telhado e pensei na visão que ela devia ter dali,  estando no topo. Era realmente uma vista belíssima e, só de imaginar como seria o pôr do sol e o céu estrelado à noite contemplado dali, pude compreender o porquê dela não querer ficar dentro do celeiro.

 Com uma tábua de madeira como apoio e um papel em branco, eu comecei a desenhar enquanto pensava. Como comentei antes, fiquei muito impressionada em como o semblante de Lápis havia mudado desde que nos separamos na queda da nossa nave. Ela realmente parecia ter passado por algo muito difícil e talvez até traumatizante durante esse tempo. Como ela mesma disse, o oceano foi a tumba em que ela e Jasper moraram por todos esses meses de tentativas minhas de fuga e de construção da broca contra a druza. 

 Sem dúvida passar por uma experiência assim deixaria qualquer um com desgosto pela proximidade com outras pessoas. Eu provavelmente me sentiria assim também. E talvez ficar isolada apenas admirando a beleza natural do universo possa nos ajudar a ter um pouco de conforto com a sensação de "liberdade recém recuperada." Vendo desse modo, acho que entendo ela.

 Depois de uns minutos eu olho para o papel e vejo um desenho não tão bem feito da Lápis sentada na beirada do silo. É o meu primeiro desenho que não é uma planta de construção ou esquema de alguma engenhoca. Acho que só pelo fato de ter um nariz e dedos já me torna uma boa desenhista estreante. No desenho eu noto que capitei o olhar triste e sem esperança da minha colega. Me faz sentir muito mal lembrar que apenas uma missão de rotina, apenas um trabalho como qualquer outro que já fiz, acabou causando isso em outra Gem.

 Eu queria muito poder consertar isso e fazer Lápis se sentir melhor, mas creio que a melhor forma de fazer isso agora, é deixando-a sozinha. Está na cara que ela precisa de espaço e que o meu "jeito sem jeito" não vai ajudar.

 Naquela hora eu resolvi que o melhor que eu poderia fazer sobre isso era Focar nas minhas coisas no celeiro e esperar que a própria Lápis viesse a mim quando estivesse pronta. 

 Caramba, acho que já estou pensando como o Steven. É isso que dá fazer esses experimentos humanos, você acaba se sentindo como eles rapidinho.

 Depois de desenhar mais um pouco, tentando fazer uma boa imagem das árvores e do campo, eu voltei  para dentro e tive a ideia de explorar os cantos inexplorados do celeiro. Certamente haveriam outras coisas interessantes como shorts, livros ou outras coisas de humano.

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