Sozinhas no Celeiro - Capítulo 7

  Proximidade

"Diário de bordo 007"

"Hoje eu acordei com uma estranha surpresa. Uma que, por mais inesperado que fosse, não deixou de ser incrível."

"Depois de uma noite bastante turbulenta com aquele frio e a chuva forte, quando eu abri os olhos para ver a luz do amanhecer, percebi que ainda estava abraçada com Lápis. Mas, em uma posição estranhamente diferente da em que adormecemos. Lápis estava totalmente apagada e esparramada no chão enquanto eu a abraçava por trás, com o nariz quase encostado na sua nuca. Pelo que sei, acho que podemos dizer que dormimos de conchinha nessa noite."

"Num primeiro momento, acabei sentindo um certo estranhamento, mas, ainda que estivéssemos no chão rígido e áspero do celeiro, eu me senti muito confortável com aquilo. Não queria sair daquela posição. Comigo apenas puxando o corpo dela para mais perto do meu, eu conseguia sentir o cheiro doce do cabelo e a macies delicada da pele dela e isso só me fazia querer voltar a dormir e sonhar que estávamos juntas de novo voando pelo céu."

"No entanto, seria bom eu levantar. Eu poderia deixar Lápis dormindo e fazer algo para ela quando acordar. Algo como um 'café da manhã', como o Steven diria. Então, depois de mais uns minutos aproveitando a conchinha, foi o que fiz. Eu levantei com cuidado tirando o meu braço de baixo dela e saí a procura de alguns legumes, talvez milho e umas batatas. E também, por estar bastante animada, fui um pouco mais longe atrás de uma coisa em especial que vi na TV. Café e açúcar. Algo que poderia realmente nos despertar."

"Depois que voltei com a comida em mãos, comecei a preparar tudo com calma para não queimar ou estragar as coisas. Aquele gesto seria uma boa forma de começar o dia bem e animar um pouco a minha colega tristonha. Era o que eu mais queria."

"Mas bem, por hoje é isso."

"Peridot desliga."

 Cuidar de trazer tudo para fazer um lanchinho matinal foi uma tarefa difícil, mas ainda assim, divertida. Eu peguei o milho e as batatas no mesmo lugar da ultima vez, o que foi fácil. Agora, o café e o açúcar acabaram me exigindo um pouco mais de esforço. Eu sabia que a melhor forma de conseguir essas coisas seria pedindo a um humano que morasse por ali, e por sorte consegui encontrar uma casinha modesta não muito longe do celeiro.

 No final, eu consegui voltar para o celeiro com quatro espigas de milho, duas batatas grandes e duas latas pequenas, uma com café em pó e outra com açúcar.

 Assim que cheguei, preparei o fogo e comecei a esquentar água tanto para cozinhar quanto para fazer o café. Eu não tinha exatamente certeza de como se fazia essa bebida humana, mas sabia que tinha que colocar um tanto de cada coisa (açúcar e café) em um copo com água quente e depois misturar. Mas que quantia eu deveria usar? Não tinha como saber. De todo modo, decidi ir apenas experimentando até ficar com um gosto bom.

Entre um momento e outro, meus olhos involuntariamente se viam atraídos para Lápis. Para admirá-la dormindo. Ela parecia tão pequena e frágil ao mesmo tempo que se estirava no chão pouco se importando com o desconforto. Para mim era um contraste incomum, mas que simbolizava bem a personalidade da minha amiga. "Ela é especial, mas não se importa com isso. Só o que ela quer é ser comum e viver como alguém assim."

 Passado-se alguns minutos de eu colocando os legumes na água quente e testando quantidades de café, Lápis acordou e, com um ar de ainda cansada, se levantou e veio até mim.

- Nossa, que cheirinho bom - Comentou - O que está fazendo, Peridot?

- Estava preparando uma surpresa pra você. Para te agradecer por tudo o que me mostrou e para que se sinta melhor também.

- hum, parece bom - Disse cheirando à beira das panelas - Mas... onde você conseguiu essas coisas?

- Que coisas?

- Essas - Disse Lápis apontando para um frasquinho com sal e as duas latas de metal - Não lembro de ter isso aqui no celeiro.

- Eu peguei emprestado de um humano.

- Pegou emprestado?

- É... bem, quase - Falei, um pouco envergonhada - Eu encontrei uma casinha não muito longe daqui onde morava um homem velho. Eu pretendia pedir as coisas emprestadas mas, assim que ele me viu, acabou se assustando e, por causa do susto, bateu com a cabeça na parede da casa e desmaiou.

- nossa, mas ele ficou bem? - Perguntou, preocupada.

- Sim, eu fui ver como ele estava e estava bem. Só tinha dormido, então não tinha como me emprestar o café. Daí acabei tendo que entrar na casa e pegar essas latas e as canecas, e antes de voltar para cá eu deixei umas espigas de milho no colo dele em troca

- mas essas espigas não são da própria plantação dele?

- é... são - respondi com uma risadinha enquanto coçava a parte de trás da cabeça - de todo modo, a gente pode devolver tudo depois. Como se nada tivesse acontecido.

- nada a não ser a dor de cabeça por ter te visto - disse Lápis, rindo junto comigo.

Logo em seguida eu consegui terminar o café e dei uma caneca cheia para Lápis experimentar.

- nossa, isso é muito bom - comentou com uma expressão animada e um sorriso corado - o que é?

- Se chama "café"- respondi - uma bebida que os humanos tomam para se sentirem mais dispostos de manhã... Pelo menos foi isso que entendi.

- E é quente. Parece que te esquenta por dentro.

- é mesmo - comentei bebendo da minha própria caneca - não sei se quero devolver essas latas para o humano velho.

- Vamos, pode ser que ele goste ainda mais do que nós - Lápis deu mais uma risadinha - porque a gente não tenta plantar essas coisas aqui?

- bem pensado, assim não teríamos mais que pegar nada da plantação dele - respondi desligando a panela com o milho e as batatas cozidas - e também poderíamos comer mais vezes.

Eu espetei uma espiga de milho com um garfo e estendi para Lápis. Já sabia que ela gostava.

- exatamente - disse ela pegando a espiga. Mas, ao invés de comer, ela pegou o garfo da minha mão e, com uma faca na outra mão, começou a tirar os grãos da espiga como se fossem a casca de uma fruta.

- o quê está fazendo? - perguntei

- você vai comer também, não vai? - perguntou ela, tirando os últimos grãos da espiga.

- Sim, mas... - de repente, Lápis me alcança um pratinho com os grãos.

- aqui, é para você não se engasgar de novo - disse ela apontando para o conteúdo amarelo do prato.

- ah - disse fazendo sinal que entendi - Obrigada, Lápis.

- alguém precisa cuidar de você, não é? - Logo que ela falou isso, eu acabei corando e fazendo a Lápis corar também.

- você se preocupa tanto assim comigo?

Lápis hesitou, mas depois respondeu:
- S-sim, odiaria ver você mudando de cor de novo.

Nós duas rimos. Mais tarde, ainda naquele dia, decidimos que iriamos nos esforçar para criar a nossa própria plantação. Então começamos a ler com foco o livro de botânica e planejamos as coisas que iríamos plantar. Afinal, eu já tinha falhado em tentar plantar uma pedra por não entender nada desse assunto.

Comigo carregando um saquinho de sementes e Lápis voando pelas plantações, nós juntamos grãos de milho, de café e até algumas batatas que estavam brotando. Se tudo desse certo, nós plantaríamos as sementes, Lápis irrigaria e elas cresceriam rapidamente.

 Ao voltarmos com o saquinho cheio, começamos a preparar o solo. Como não tínhamos experiência nisso, tentamos usar algumas ferramentas para cavar o chão em torno do celeiro, mas o máximo que conseguimos foi arrancar um pouco de grama. Foi quando eu tive a ideia de construir uma máquina que fizesse isso por nós, bem como vi no livro de botânica.

 Enquanto eu trabalhava com os equipamentos que encontrava no celeiro, Lápis usava água para tirar a grama e deixar parte do chão limpo. Ela conseguiu até que com bastante facilidade, e aparentemente está aos poucos fazendo as pazes com a água. Por outro lado, eu consegui me sujar completamente de graxa sem sequer terminar de montar o motor ou começar a estrutura da máquina. Isso estava sendo bem mais difícil do que pensei.

 Mas, depois de algumas horas e com uma ajudinha da Lápis, conseguimos terminar a máquina que era uma miniatura do veículo humano chamado no livro de botânica de "trator". E ele conseguiu fazer a tarefa que tentamos mais cedo em poucos minutos, deixando a terra revirada para que pudéssemos plantar as sementes. Eu fui na frente dirigindo enquanto Lápis foi atrás colocando as sementes.

 Nós terminamos tudo pouco depois do anoitecer e estávamos muito satisfeitas e bastante cansadas (e sujas também). Tínhamos certeza de que, dessa vez, nossas plantas iam crescer.

***

 Durante todo o nosso trabalho nesse dia, eu pude perceber um detalhe que já não estava mais tão sutil. Algo que havia começado como gestos involuntários e que agora já estava me deixando emocionalmente comprometida. 

 Enquanto estávamos correndo de um lado para o outro para prepararmos nossa plantação, eu me sentia incrivelmente bem com tudo aquilo. No começo, achei que era só por causa do nosso trabalho, mas aos poucos eu pude perceber que o que realmente estava me causando esse sentimento era um detalhe que já me fazia sentir assim antes. A minha colega que estava fazendo tudo comigo, a Lápis

 Mesmo quando estava no celeiro trabalhando em montar o trator, eu não conseguia parar de voltar os olhos para Lápis no lado de fora. Eu não sei porque, mas só o que queria era continuar fazendo as coisas junto dela. E claro que ainda pude confirmar isso quando ela veio me ajudar.

 A montagem do trator tinha sido muito estressante para mim, mas só até o momento que Lápis se ofereceu para ajudar. De repente eu não estava mais ligando para a graxa ou para as peças que não se encaixavam. Na verdade estávamos até brincando com isso. Não atoa acabamos ficando as duas muito sujas. A presença de Lápis ali conseguia animar o ambiente e fazer eu me sentir motivada para continuar me esforçando até conseguirmos terminar.

 E depois que terminamos e deixamos a plantação pronta para crescer, ainda olhamos para tudo com um sentimento verdadeiro de orgulho pelo que fizemos juntas. Aquele havia sido o nosso trabalho. Um símbolo da nossa nova vida na Terra.

 Eu até tive que comentar:

- Foi um trabalho incrível que nós fizemos.

- Sim, algo que construímos só para nós. Adorei fazer isso junto com você.

 Quando olhei para ela no mesmo instante, pude ver que estava com os olhos brilhando. E pelo que estava sentindo, os meus com certeza estavam também. Então eu apenas me aproximei e entrelacei nossos dedos discretamente. Ela, nesse caso, respondeu apertando minha mão com a dela.

 Mais tarde quando fomos descansar de todo aquele esforço, eu e ela nos lavamos no pequeno lago da drusa e, para testar se aquilo realmente era mais confortável, resolvemos trocar de roupa. Ou pelo menos eu resolvi. Lápis já usa uma roupa confortável, então não quis trocar por uma roupa humana. Mas eu queria muito usar aqueles shorts confortáveis que estavam guardados no baú do celeiro.

 Procurando entre livros e até ferramentas, eu achei um short com várias cabeças verdes de alienígenas e uma camisa com uma estampa estranha. Depois, como sei que para usar roupas os humanos não usam modificadores de aparência fundidos ao corpo, eu consegui tirar os meus e vestir as duas peças.

 Tanto a camisa quanto o short eram incrivelmente confortáveis. E depois de tirar aqueles modificadores que eram praticamente grudados no meu corpo, não tinha como ficar melhor. Aquela era uma sensação perfeita para aproveitar dormindo profundamente no sofá. E foi o que fiz.

 Tanto eu quanto Lápis estávamos cansadas, mas Lápis disse que ia assistir um pouco de TV ainda e que eu podia ficar com o sofá só pra mim. Então eu me joguei com a cabeça apoiada no braço do sofá e, em poucos minutos, apaguei.

 Eu estava tão confortável me sentindo praticamente "livre e solta" naquelas roupas humanas, que consegui dormir profundamente como há muito tempo não fazia. Na verdade, a ultima vez que tive um sono tão bom foi na segunda vez que dormi, quando meu corpo estava se acostumando com esse costume. Porém, naquela vez não teve o detalhe a mais que acabou deixando tudo melhor.

 Mais tarde quando eu acordei no meio da noite por causa de um sonho estranho, eu notei que não estava sozinha na cama. Na verdade, havia alguém atrás de mim me abraçando como se eu fosse um travesseiro. Esse alguém era Lápis.

 Foi uma sensação tão estranha quando percebi que não estava sozinha que quase me assustei. Eu sequer vi quando lápis se deitou comigo naquele sofá apertado. Para mim era como se aqueles braços já estivessem em volta de mim quando fui dormir, mesmo que não estivessem de fato. Assim como aquele corpo aconchegante também estava lá esquentando o meu. Ela provavelmente estava bem cansada e não queria me acordar para trocarmos de lugar. Devia estar pensando que poderíamos tentar dormir as duas juntas ao invés de revesar.

Pessoalmente, não posso dizer que iria rejeitar a ideia. Na verdade, depois da noite passada eu provavelmente acabaria sugerindo isso também.

Bem, no final eu estava tão confortável que não demorei para adormecer de novo. Só que dessa vez, me sentindo muito mais feliz.

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