Sozinhas no Celeiro - Capítulo 8
Sentimentos Estranhos
"Diário de bordo 008"
"Se passaram quase cinco dias desde o meu último diário, e as coisas não poderiam estar melhores na nossa casa-celeiro terráquea."
"Desde aquela noite em que terminamos nossa plantação, Lápis e eu temos estado mais próximas do que nunca. Nós continuamos dormindo juntas, cozinhando, jogando video-game e tudo o que podemos fazer para nos divertir e aproveitar nossa estadia aqui. E isso tem feito eu me sentir cada vez mais feliz."
"Como posso dizer? Lápis consegue trazer a tona em mim sentimentos muito peculiares que com certeza são desconhecidos pela maioria das gems de Homeworld. Sentimentos esses que ainda tenho um certo receio de comentar com ela, mas que com certeza gosto de preservar e cultivar em mim."
"Sempre que estamos juntas fazendo algo, ou apenas dormindo, é como se meu corpo esquentasse por dentro e demonstrasse por si mesmo que só o que quer é ficar perto de Lápis. É uma sensação tão boa que é difícil de explicar. Um sentimento que me deixa boba, sorridente e, ao mesmo tempo, feliz por ter a minha colega comigo."
"Além disso, também fiquei muito contente de ver que todo o nosso trabalho para construir a nossa plantação realmente valeu a pena. Diferente da vez que tentei plantar uma única muda sozinha, a nossa plantação cresceu relativamente rápido e certamente não precisaremos esperar mais muito tempo para colher os primeiros vegetais cultivados por gems na terra."
"A nossa vida aqui está realmente dando certo e é isso que me deixa mais contente de registrar esse diário de bordo. Mas é melhor não esticar demais o relato, afinal, isso é mais um pequeno resumo para me lembrar das coisas importantes que aconteceram. Então, por hoje é isso."
"Peridot desliga."
Ah, é tão bom ver como as coisas mudaram comparadas aos meus primeiros relatos. Agora eu dificilmente me sinto entediada e estar convivendo com a Lápis com certeza trás o melhor que se pode aproveitar da vida no celeiro. Dormir, jogar video-game, ler, ouvir música, são coisas muito boas de se fazer quando se quer distrair a cabeça, mas nada se compara a fazer essas mesmas coisas com a companhia de alguém. Ainda mais quando estamos falando de Lápis Lazuli.
Além da animação comum de me divertir com ela, eu sou sempre tomada por um enorme conjunto de sentimentos quando estamos juntas. É uma alegria tão forte e verdadeira que às vezes consegue me fazer até perder a fala, por mais estranho que isso possa parecer. E Lápis, logicamente, acaba achando graça disso.
Só nesses últimos dias, eu pude perceber bem como esses sentimentos tem aumentado cada vez mais. Parando para pensar, eu sempre me senti estranha em conviver com pessoas e gems diferentes, não atoa me acostumar com o Steven e as Gems levou tanto tempo. Porém, com eles isso passou e nossas interações se tornaram bem naturais, enquanto com Lápis, por mais que tenhamos melhorado bastante nossa relação, eu ainda sinto uma certa insegurança de fazer algumas coisas com ela.
É como se houvessem partes de nós que ainda não se conhecessem, e são justamente essas partes que atiçam tanto os meus sentimentos. Antes, sempre que eu e Lápis interagíamos, a minha barriga começava a formigar e eu conseguia me atrapalhar totalmente em fazer coisas básicas como falar ou agir naturalmente. Mas depois de tanto tempo juntas, a maior parte das nossas interações fluem naturalmente, com exceção de certas atitudes que tenho consciência de estar tomando para me aproximar dela.
Quero dizer... eu percebo pelos meus sentimentos que gosto da Lápis. Muito mais do que gosto das outras gems. E ao mesmo tempo que isso me faz querer contar para ela e perguntar se sente o mesmo, também me deixa com medo de estragar a nossa relação. Acho que é isso que me faz ter tanta insegurança. Considerando que levou tanto tempo para chegarmos até aqui, tomar a atitude de demonstrar sentimentos tão novos e diferentes a ela seria muito arriscado.
E também podemos levar em conta que essa insegurança é muito emocional e está fora do meu controle. É como se meu corpo estivesse agindo sozinho para que eu me mantenha numa zona de segurança de proximidade com Lápis. Inclusive indo contra minha vontade mental de me aproximar.
Há uns dias atrás, por exemplo, após termos limpado o celeiro depois de mais uma partida de video-game jogando serragem uma na outra, eu e Lápis acabamos em uma situação que me deixou sem ação. Nós havíamos varrido toda a serragem em um monte quase da altura do meu quadril e eu ainda queria brincar um pouco com Lápis, já que ela tinha perdido a partida. Eu aproveitei que ela disse "Acho que limpamos tudo" e respondi "Espera, ainda falta uma parte" passando rapidamente as cerdas da vassoura na cara dela.
Lápis ficou com a cara toda suja de serragem e também com a franja em pé, como se fosse um topete. Isso, claro, sem contar a expressão brincalhona de raiva ela fez. Em resposta, Lápis passou a mão no rosto para se limpar e disse: "Também me parece que falta um lugar para limpar". Rapidamente ela voou em cima de mim me fazendo cair junto com ela no monte de serragem.
Novamente nós ficamos cobertas por toda aquela sujeira, mas não parávamos de rir. Pelo menos, até o momento seguinte.
A medida que a nuvem de serragem se assentava, percebi estávamos uma apoiada em cima da outra, com Lápis deitada sobre o meu peito. E logo que Lápis se ergueu em cima de mim, nós ficamos nos encarando com as pontas dos nossos narizes quase se tocando. Eu, que então percebi o quanto estávamos próximas, fiquei paralisada na mesma hora. Eu nunca havia ficado com o rosto tão próximo do de Lápis ao ponto de sentir a respiração dela nas minhas bochechas como estava acontecendo ali. Isso estava quase me fazendo tremer.
Por outro lado, Lápis parecia não entender meu nervosismo. Na verdade, ela estava como se não houvesse nada de estranho naquela situação. O que quebrou um pouco meu sentimento de medo, mas não o suficiente para agir normalmente.
- Por que você está assim? - Ela perguntou com um olhar curioso.
- Assim como? - Respondi, ouvindo a minha própria voz assustada.
- Assim... Com o rosto tão corado.
- O que?... Ah, não é nada - Falei rapidamente virando o rosto.
- Tem certeza? - Perguntou Lápis - Agora que eu falei parece que você ficou mais verde ainda.
- Tenho, só me deixe levantar - Respondi num sobressalto pedindo para ela sair de cima de mim.
Essa foi uma situação que me levou a pensar um pouco. Afinal, era uma oportunidade de mostrar a Lápis que eu queria ficar mais próxima dela. Mas parecia que meu corpo se recusava a fazer isso.
Eu estava muito feliz por finalmente estar tendo uma boa relação com Lápis, mas por que tinha que ser tão difícil evoluir para algo além? Eu queria muito, não ter apenas a chance de fazer algo, mas também a coragem para aproveitar essa chance. Afinal, eu sou a Peridot que enfrentou a Diamante Amarelo e a chamou de "trouxa" na cara dela. Dizer à minha colega de celeiro que gosto dela deveria ser algo muito mais simples.
De todo modo, acho que podemos dizer que, do jeito que as coisas vem melhorando entre nós aqui no celeiro, não é tão absurdo pensar que eu acabarei admitindo o que sinto. A questão é apenas "quando isso vai acontecer". E, pessoalmente, espero que não demore muito.
***
Tanto Lápis quanto eu adorávamos assistir a série do "Acampamento dos corações amorosos", mas creio que a minha colega tinha outros interesses que também gostava na TV, então ela não tinha assistido ainda todos os episódios. Logo depois que anoiteceu, nós começamos a ver a última temporada que havia lançado do programa. Eu estava me divertindo bastante, mesmo que minha atenção estivesse sendo fortemente atraída para a gem ao meu lado. Que por sua vez parecia estar muito entretida.
Naquele dia nós havíamos regado cuidadosamente a plantação e até feito uma faxina no celeiro, então estávamos bastante cansadas. Depois que acabamos tudo, nós apenas nos acomodamos no sofá com um cobertor sobre o nosso colo e ficamos assistindo em silêncio. Tudo estava bem confortável e eu apenas revesava a minha visão entre a tela da TV e a figura de Lápis, que estava muito linda sob a luz do aparelho.
Depois de alguns minutos nisso, quase que em um gesto automático, eu sutilmente fui pondo os pés para cima do sofá e me aproximando discretamente de Lápis. A medida que eu me aproximava, ficava mais quentinho em baixo do cobertor e aquela sensação era simplesmente inebriante. Eu só queria aproveitar aquele momento de proximidade.
Depois de algumas horas assistindo, Lápis também pôs os pés para cima do sofá e se apoiou no braço do mesmo. Porém, agora, ela praticamente havia se afastado e colocado os seus pés gelados entre nós. Eu deveria me preocupar? Não sei. Estávamos apenas assistindo série. Esses sentimentos e pensamentos sobre proximidade estavam só na minha cabeça. Certamente Lápis estava totalmente alheia a essas coisas. Eu deveria me acalmar.
Porém, não tinha como. Pior do que pensar em como Lápis estava agindo era ver as coisas que os campistas da série faziam. Depois de muitas horas de diálogos explicando o que eles estavam sentido, eles davam a entender que a melhor forma de expressar afeto e amor seria através de contato labial com ou sem um abraço apertado. Dentro da minha mente de gem, eu não conseguia entender o sentido daquilo, só sabia que de algum modo eu queria testar isso com Lápis. Eu sentia uma tendencia estranha a usar isso para demonstrar os meus sentimentos. Mas como eu poderia fazer isso?
Eu deveria me virar para ela e pedir? Mas e se ela achar estranho? E se ela pensar naquele ato dos personagens como uma bizarrice humana? Eu poderia acabar com as minhas chances só com essa pequena pergunta. Caramba, porque tem que ser tão difícil?
Por sorte (ou não) Lápis acabou interrompendo meus pensamentos me puxando para uma conversa.
- Você está bem Peridot? - Disse ela - Sua cor está estranha.
Eu hesitei.
- É só a luz da TV - respondi com uma risadinha forçada.
- hum... - Ela voltou o olhar para a TV - você não acha isso estranho?
- O que?
- Isso que o Pierce está falando - Comentou apontando para a TV, onde Pierce estava comentando sobre como foi bom beijar a Paulete - Ele está falando sobre isso que ele fez com a Paulete. Não consigo entender como isso funciona.
- Ah, é uma coisa que os humanos fazem - expliquei - O beijo tocando os lábios. Pelo que entendi, é uma forma que os humanos tem de mostrar como sentem coisas boas sobre outros humanos.
- É sério? - perguntou Lápis, surpresa enquanto se ajeitava no sofá, colocando os pés de volta no chão - É algo tão sem sentido de se fazer. É como se fosse apenas um gesto simbólico e mais nada. Uma coisa inútil.
- Eu não diria assim - Divaguei - É uma forma de se expressar, como desenhar ou cozinhar. Só que você está expressando o sentimento que eles consideram mais incrível... Aquele que faz você se sentir algo muito maior que você mesma...
- É... Isso com certeza muda a perspectiva - Disse ela, se voltando pra mim e depois olhando de volta para a TV, falando devagar - E sabe, do jeito que eles falam, isso deve ser realmente maravilhoso de se fazer...
Como se o tempo estivesse parado ou se movendo muito mais de vagar, Lápis olhou para mim novamente, mas agora de um jeito diferente. Ela me encarou com um olhar que raramente demonstrava, um que transmitia uma fascinação enigmática. Era um olhar hipnotizante, que prendia o meu e não me permitia pensar em qualquer outra coisa. Sem que eu tivesse notado, Lápis estava novamente muito próxima de mim. Nossos rostos estavam a poucos centímetros de distância e eu quase conseguia sentir a respiração quente dela no meu.
O momento estava me chamando, eu não estava mais no controle. Como que por outro gesto involuntário, eu me aproximei dela devagar e, antes que ela pudesse agir, nossos lábios se selaram e eu conseguia sentir a consistência macia da boca dela. Era tão estranho fazer esse contato, mas ao mesmo tempo era bom. O contato dos meus lábios com os dela me trazia uma sensação sem igual que juntava aquele formigamento na barriga com uma dormência no corpo inteiro. O que me atiçava a continuar e ir ainda mais fundo. Enquanto isso, em um primeiro momento Lápis parecia estar hesitando, sem entender o que estava acontecendo, mas logo em seguida se deixou levar pelo ato. Era como se a minha iniciativa houvesse despertado nela os mesmos sentimentos que haviam em mim, fazendo-a agora querer tanto quanto eu demonstrar aquele afeto.
Em poucos segundos o beijo ficou mais intenso e me fez chegar ainda mais perto de Lápis ao ponto que eu já estava em cima dela. Até que nosso fôlego acabou e tivemos que desfaze-lo, trazendo nós duas de volta a realidade.
Lápis estava deitada sobre o braço do sofá enquanto eu estava em cima dela com as mãos apoiadas uma em cada lado de sua cabeça. Foi a situação mais estranha que já passei. Diante do meu nariz, Lápis estava com um brilho incomum nos olhos. Me parecia que eles haviam sido dominados por um sentimento que há muito a minha colega não sentia, algo que ela talvez quisesse muito recuperar.
Percebendo a situação, eu voltei rapidamente para o meu lugar no sofá e fiquei olhando em silêncio Lápis se recompor ao meu lado. Não sabíamos o que dizer. Eu estava sem palavras, e imaginava que aquele era o momento que Lápis diria o que ela sentia. Então apenas esperei.
...
- Ei, olha o que o Pierce está fazendo! - Falei, mas sem saber o porquê.
Do nada, ainda que essa fosse a pior decisão a ser tomada na hora, eu disse isso para que continuássemos assistindo a série como se nada tivesse acontecido. Mas eu não sabia o motivo, foi involuntário. algo que eu fiz por estar com muito medo e confusa. Afinal, é claro, algo aconteceu. Algo que deixou Lápis com um sorriso provocador pelo resto da noite e me deixou com o mais estranho tom de verde que eu poderia ter.
- Peridot... - Disse ela.
- O que? - Respondi.
- Isso foi...
- Vamos falar sobre isso depois - Falei interrompendo ela, tentando me manter calma - Vamos só terminar de assistir esse episódio agora.
Por dentro, eu queria muito ouvir o que ela ia dizer, mas, por fora, estava travada. Era como se eu quisesse voltar no tempo e não dar aquele beijo... Mesmo sabendo que havia sido tão bom.
Provavelmente, Lápis deve ter pensado a mesma coisa. Já que mesmo não dizendo nada pelo resto da noite, não havia um clima pesado entre nós. Era como se estivéssemos falando entre nossas mentes que sabíamos o que sentíamos, só faltava admitir. Tanto que, mais tarde, nós desligamos a TV e dormimos juntas de novo.
Eu não podia ter certeza do que aquilo poderia significar, mas com certeza era algo bom. Lápis e eu tínhamos dado um passo além na nossa amizade. E isso me deixou profundamente feliz e ansiosa.
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